O ídolo, o rock e o passado

Documentário de Martin Scorsese sobre Bob Dylan levanta uma série de questões não apenas sobre a biografia do astro, mas sobre como lida...


Documentário de Martin Scorsese sobre Bob Dylan levanta uma série de questões não apenas sobre a biografia do astro, mas sobre como lidar com várias interpretações de uma história pessoal

Com título acertadamente escolhido, “No Direction Home”, a biografia de Bob Dylan produzida por Martin Scorsese pode deixar o espectador sem rumo, perdido entre a conformação de um tempo histórico bem documentado e a força de ideias que atropelam a existência humana e que nunca estiveram tão bem disfarçadas como nos dias atuais. Historiadores, sociólogos e cientistas políticos frequentemente encaram a identidade como problema essencial dos conflitos contemporâneos nacionais e pessoais nas mais diversas sociedades do globo. Talvez um pouco de música e de poesia sem rimas nos ajudem a vislumbrar ângulos menos acessíveis às ferramentas teórico-metodológicas oferecidas pelas chamadas “ciências do homem”.

Entre vídeos de shows e ensaios, e depoimentos de músicos e do próprio Bob Dylan, o filme reconstrói a trajetória do cantor desde que, desconhecido, saiu de uma pequena cidade em Minnesota, no Meio Oeste americano, até a chegada a Nova York e a consagração como ídolo da folk song. E vai além, mostrando a influência incontestável para quase todas as bandas de rock do século XX. A formação pessoal de Scorsese – de família simples siciliana, criado no bairro italiano da Big Apple sob a autoridade do pai e dos princípios tradicionais católicos que o deveriam manter longe da máfia – talvez tenha contribuído para a atmosfera profética que envolve a narrativa e as sucessões de entrevistas. Sobre os biógrafos, Freud chegou a afirmar que esses autores escolhem o seu “herói”, em primeiro lugar, porque sentem grande afeto por ele e, depois, sua obra está quase sempre fadada ao fracasso. Não é o caso. Heróis construídos não costumam expor suas ambições, sentimentos e rancores com desconsideração tão fascinante por sua própria imagem, assim como, frequentemente tornam-se imunes aos riscos do protagonismo.
De imitador de Woody Guthrie (1912-1967), cantor e compositor de músicas folk que incluíam temas da política às canções infantis, no começo dos anos de 1960, ao ídolo capaz de desafiar seu público mais cativo ao inserir a guitarra elétrica para entoar "Like a Rolling Stones", Bob Dylan parece ter sido fiel à capacidade de nunca ser o mesmo. Fez jus à frase gravada no violão de Guthrie que dizia “this machine kill fascists” (esta máquina mata fascistas), e se tornou a encarnação das “impurezas” mais odiadas pelos fascistas em sua busca pela uniformidade disciplinadora. A sobreposição de prioridades temáticas e questões existenciais em momentos de crise política e social, como durante a guerra do Vietnã e as irrupções da violência racista norte-americana, tornam-se coerentes diante da tarefa de ampliar cada vez mais as possíveis interpretações de uma canção.
O ponto alto do segundo DVD que compõe o documentário ocorre em 1965, quando Bob Dylan é vaiado e chamado de traidor pelo público em show de estreia no Newport Folk Festival. “Não posso dizer ao certo porque fizeram aquilo, certamente não foi pelo que escutaram”, disse Bob aos 70 anos para o entrevistador. Após composições como "A Hard Rain’s A-Gonna Fall" (1963), em que o sangue pinga dos galhos e crianças empunham armas, "Blowin’ in the Wind" (1963), poema todo feito de perguntas cáusticas para a consciência sobre o que faz de um homem, homem, e o quanto ruim as coisas devem ser para que as pessoas saiam da zona de conforto da pura indignação, o cantor foi enquadrado pela música de protesto.
Apaixonar-se pela voz menos afinada e melódica daqueles tempos, e trocar as músicas simples e animadas por letras profundamente ressentidas cujas frases tinham pouca conexão ou sentido explícito, foi o primeiro choque superado inclusive pelas gravadoras. Mas, ver o maior símbolo da música folk, e das canções de protesto, no maior festival do gênero com uma guitarra elétrica, tocando Maggie’s Farm, soou como uma provocação. A preocupação artística com a mensagem política deixava em segundo plano o som para que o público compreendesse bem a letra. Eis que Bob Dylan propunha mudar o curso da música americana; possuía ideias demais para tornar-se um estereótipo, politizado, sensual, amado ou milionário; fugia da ideia sedutora de assumir o papel de quem dita as regras e questiona o autoritarismo purista que elas podem impor. A partir de então, With God on Our Side (1964), You’re Gonna Make Me Lonesome When You Go (1975), Buckets of Rain (1975), entre muitas outras canções irão reapresentar um Dylan católico, apocalíptico, apaixonado ou descrente conforme a fase da vida pessoal ou profissional do cantor, nem todos cobertos pelo filme que acaba a narrativa no começo dos anos de 1970.
Mas essa tentativa de responsabilizar artistas ou intelectuais com supostos valores “puros” não era uma exclusividade norte-americana. Em 1967, apenas dois anos depois das vaias a guitarra de Bob Dylan nos EUA, foi organizada em São Paulo a “Passeata da Música Popular Brasileira”, que ficou conhecida como a “Passeata contra a Guitarra Elétrica”, contra a invasão da música estrangeira. Elis Regina e muitos artistas que se viam como legítimos representantes da música popular brasileira protestaram contra a música norte-americana simbolizada pelo uso da guitarra, tratava-se do “imperialismo cultural”. Agitando bandeirinhas do Brasil em nome da pureza cultural nacional e engajada, o público não tinha pretensões muito diferentes dos “yankees imperialistas” que acusaram Bob Dylan de trair uma geração quando trocou o violão pela guitarra. Conhecer a conjuntura política e estética que integra os dois cenários descritos é um começo essencial àquele que se interessar pelas raízes e motivações mais ou menos aparentes dos protestos.
O filme também apresenta imagens que aguçam outro tipo de reflexão: questões que persistiram ao sucesso ou fracasso dos cantores e que fazem com que as músicas de Dylan tenham sentido ainda hoje. Para além dos sistemas capitalista e socialista que dividiam o mundo e formatavam a política, dos sistemas de repressão autoritários ou mais sedutores, e da ideologia do consumo ou do progresso, tratava-se de desmontar as referências que tornam o homem um produto cativo de sua sociedade, que o fazem desejar ser o que se espera que ele seja. E colocar em dúvida nosso papel social significa também questionar nossa identidade, essa quase entidade oficial que deve guiar nossos comportamentos de maneira segura e previsível.
O documentário de Martin Scorsese monta de forma linear a trajetória pública de Bob Dylan e é um exemplo poético do que em História costumamos chamar de passado. Não se trata do tempo verbal indicado para ações que já aconteceram, mas das incessantes e, por vezes, divergentes interpretações que fornecemos aos acontecimentos pessoais, de uma maneira muito semelhante à contínua reelaboração dos movimentos históricos aos quais atribuímos importância decisiva ou relegamos ao vasto campo do esquecimento. Não que isso seja algo novo, mas a diferença de Bob Dylan está, certamente, em expor deliberadamente um auto retrato de corpo inteiro.

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