26/09/2012

Conheça o projeto da Faculdade Popular de Comunicação e Cultura da Maré

Quando a organização social Observatório de Favelas iniciou o processo de pensar a Escola Popular de Comunicação Crítica (Espocc), a entidade partiu da formulação de três perguntas básicas para consolidar o projeto: se a favela poderia construir suas próprias representações; se ela poderia identificar e resolver seus problemas de comunicação e se a comunicação aí produzida poderia ser sustentável. Bem, a escola tornou-se uma referência, trouxe o debate sobre a publicidade crítica para diferentes realidades e acaba de fundar a sua agência-escola, onde os alunos experimentam planejamento, ferramentas e ações na área de comunicação integrada e publicidade afirmativa com clientes de verdade. Toda essa experiência acumulada será útil no próximo e ambicioso passo da ONG: a Faculdade Popular de Comunicação e Cultura da Maré (Fapocc).

Publicado em Nós da Comunicação

A Fapocc Maré será uma instituição com extensão, graduação e pós-graduação em comunicação social, produção cultural e artes visuais instalada no meio do Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para produzir conhecimentos de excelência em um território que está comumente marcado por sentidos negativos.

"Partimos do ponto que as favelas já têm uma rica produção cultural que merece ser afirmada. É uma faculdade popular, mas com a ambição de repercurtir na cidade e em todo o Brasil a mobilização em volta da cultura, da arte e da comunicação social", diz o professor do departamento e Geografia da Universidade Federal Fluminense Jorge Barbosa, coordenador de desenvolvimento institucional. "Não vai ser uma faculdade nos moldes tradicionais e terá uma ampla vocação para a geração de produtos e serviços nas áreas da cultura, publicidade e comunicação que permita a sustentabilidade do empreendimento."

A faculdade estará alinhada aos pilares do Observatório de Favelas, como explica o fundador da ONG, Jaílson de Souza: "Formar novos 'intelectuais' na cidade - especialmente de origem popular, mas também de outros espaços sociais urbanos; produzir conceitos, metodologias, tecnologias sociais e práticas voltadas para 'desnaturalizar' a realidade social hegemônica; difundir essas produções e, por fim, mobilizar diferentes atores e redes de modo a construir uma nova hegemonia na cidade, na direção de uma utopia social realizada por sujeitos concretos e reais", lista o geógrafo, sociólogo e educador.

A instituição está sendo organizada para ser sem fins lucrativos, se aproximando de um modelo de faculdade comunitária, propondo o ensino, a pesquisa e a extensão de forma intrínseca como a universidade pública, mas sendo em parte mantida pelos recursos internos gerados pela produção de vídeo, fotografia e arte. "Queremos que a Fappoc Maré tenha em seu quadro um maior número de estudantes bolsistas (cerca de 2/3) que não paguem financeiramente a mensalidade, mas que possam investir tempo de trabalho, por exemplo, na institucionalização da extensão, promovendo propostas de atividades para outros jovens", calcula Jaílson.

Desse modo, a sustentação e a organização financeiras não teriam como principal fundo o pagamento da mensalidade por parte dos estudantes, exigindo um processo de captação de recursos mais ousado. "Interessa-nos, por exemplo, ter patrocínio de recursos públicos, que contribua para manutenção da estrutura como bibliotecas e um centro de informática", diz Jaílson. "Assim como a participação da iniciativa privada, fundações, nacionais e internacionais, além de empresas específicas diretamente ligadas às formações dos cursos de comunicação, artes visuais, produção cultural." Outro modelo previsto para contribuir com o financiamento seria um similar ao do Canal Futura, com cotistas responsáveis pelas despesas de manutenção durante um período de tempo mais prolongado.

Além de dar significado a um espaço não aproveitado, o projeto tem em vista ampliar o capital cultural, simbólico e técnico de jovens moradores de subúrbios e favelas do Rio de Janeiro, para que possam atuar de modo criativo e crítico em seus territórios e no cotidiano da cidade. "O jovem ingressará na faculdade como sujeito-autor, por meio da apresentação de seu projeto que a passagem pela Fapocc ajudará a viabilizar", explica Jaílson. "Queremos que se consolide um processo capaz de agir no sentido da democratização da comunicação, viabilizando os meios de acesso e permanência, de produção de informação e conhecimento."

A expectativa é que os primeiros alunos comecem a estudar em 2014. "O plano de desenvolvimento será apresentado ao MEC no final do ano, para iniciar as atividades daqui a dois anos", prevê Jorge Barbosa. "Já temos um prédio para isso, teremos um projeto arquitetônico - salas de aula, laboratórios, estúdios - e ao longo de 2013 vamos fazer toda essa infraestrutura para abrigar essa nova faculdade pioneira no Brasil, um campus universitário dentro da favela."

Jaílson de Souza resume: "Estamos propondo que a dimensão cultural da Maré esteja cada vez mais em evidência, no reconhecimento, na permanente transformação desse território como local de invenção, de criação, de produção de saberes múltiplos. Significa dizer que somos alimentados pelas experiências, formas de viver e se inserir no mundo em que os diferentes sujeitos estão na Maré, tanto os oriundos dela como os muitos outros que nela chegam e criam a cada dia."

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