19/09/2012

Os imbecis e a vagina


Um edital de incentivo à criação literária da Fundação Biblioteca Nacional exigia que os projetos para romance, conto e poesia não “caracterizassem” atividades criminosas. A Apple coloca asteriscospara vedar a palavra “vagina” em seus aplicativos. A Academia Brasileira de Letras suspendeu a transmissão virtual de uma palestra de Jorge Coli sobre sexo e pornografia, por exibir, entre outras, a tela "A origem do mundo" (Gustave Courbet, 1866).

É difícil acreditar que, em pleno século XXI, ainda se cogite a possibilidade de obras fictícias realizarem apologia de qualquer tipo. Que alguém se sinta constrangido por uma palavra dicionarizada, de uso ancestral, livre de significados pejorativos. Que uma pintura universalmente famosa, exposta no museu D’Orsay de Paris, seja considerada “pornográfica”, ou mesmo “imprópria” para menores de 18 anos.
Que o retrato artístico de uma vulva peluda pareça ofensivo.

Poderíamos afirmar que essas demonstrações de imbecilidade explícita remetem a períodos de truculência fardada, mas não seria exato. Acontece todo dia, e cada vez mais, em nome de boas intenções e excrescências jurídicas. Essas personificações moralistasdo espírito repressor, tão orgulhosamente hipócritas e obtusas, são típicas do conservadorismo que já caracteriza a cultura mundial no início do século. É o lado nefasto do admirável mundo virtual.

Como sempre, mestre Coli matou a charada: “(...) a ABL ilustrou, de modo preciso, o acerto de minha tese sobre a hipocrisia pudibunda (termo no qual certamente ela ainda censurará as duas últimas sílabas) de nosso tempo. Não apenas os acadêmicos são imortais: eles também não têm sexo, como os anjos.”

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