Desnacionalização já atinge 247 empresas em setembro de 2012

Baixar juro é pouco. Não dá para o Brasil crescer sem parar esta sangria  Entre janeiro e setembro deste ano foram desnacionalizadas 247...


Baixar juro é pouco. Não dá para o Brasil crescer sem parar esta sangria

 Entre janeiro e setembro deste ano foram desnacionalizadas 247 empresas, superando a quantidade de empresas adquiridas pelo capital estrangeiro em todo o ano de 2011. No ano passado, 208 empresas nacionais passaram para controle externo. Um número expressivo de empresas nacionais foi comprado por multinacionais norte-americanas. Só no terceiro trimestre, de um total de 80 empresas desnacionalizadas, quase metade (37) passou para as mãos de monopólios dos EUA.





Múltis dos EUA compram 37 de 80 empresas desnacionalizadas somente no terceiro trimestre deste ano


Na edição anterior, abordamos o número recorde de empresas desnacionalizadas (247) entre janeiro e setembro deste ano, superando a quantidade de empresas adquiridas por capital estrangeiro em todo o ano de 2011, quando foram desnacionalizadas 208 empresas – e também nos demais anos, desde 2004, quando a consultoria KPMG começou a fazer a “Pesquisa de Fusões e Aquisições” no Brasil.

Agora, acrescentamos mais um dado essencial: um número expressivo de empresas nacionais foi adquirido por multinacionais norte-americanas. Somente no terceiro trimestre, de um total de 80 empresas desnacionalizadas, quase metade (37) passou ao controle de monopólios dos EUA, superando de longe as que foram adquiridas por conglomerados originários da Inglaterra (8), França (6), Alemanha (5), Espanha (5), entre outros.

Após a explosão da crise em setembro de 2008, os EUA inundaram o mundo com as superemissões de dólares (Quantitative Easing 1 e 2). Apenas com o QE2, em 2010, foram emitidos US$ 600 bilhões, transferidos aos monopólios, não apenas para especular, mas também para aquisição de empresas. E o FED já prepara nova inundação de dólares no planeta, o Quantitative Easing 3, conforme a ata da reunião de agosto.

Segundo Patrice Etlin, sócio para a América Latina da Advent International, empresa norte-americana de private equity, “há hoje, caçando transações no Brasil, cerca de US$ 11 bilhões”. Certamente, é um valor subestimado – somente no caso da Amil, açambarcada pela norte-americana UnitedHealth Group, foram envolvidos cerca de US$ 5 bilhões -, mas que não anula o seu significado: o apetite voraz sobre as nossas empresas.

A primeira implicação dessa desnacionalização da economia é a desindustrialização e, consequentemente, a estagnação econômica - não há desenvolvimento sustentado, para usar uma palavra tão ao gosto da equipe econômica, se não for baseado na indústria.
 Na medida em que setores são dominados pelas multinacionais, a cadeia produtiva, isto é, a indústria de componentes e bens intermediários, vai sendo dizimada. Então, o que antes era fabricado no país pela indústria nacional passa a ser importado.

Um entusiasta do comércio do Brasil com os Estados Unidos, Welber Barral, que vem a ser o presidente da Coalizão de Indústrias Brasileiras, declarou recentemente: “Precisamos estimular as exportações para os EUA promovendo investimentos americanos aqui. Hoje, 40% do comércio é intrafirmas”. Por “comércio intrafirmas”, leia-se comércio entre a matriz das multinacionais e as filiais instaladas no Brasil. É o que o Banco Central registra como empréstimos intercompanhias, como uma das modalidades de ingresso de investimentos estrangeiros diretos (IED).

E assim, a desindustrialização resultante da desnacionalização fez despencar para 14,6% a participação da indústria na formação do Produto Interno Bruto (PIB), uma regressão ao patamar de 1950, ou melhor, inferior àquele período (19,3%).

Outra decorrência da desnacionalização, além do crescimento das importações, há um crescimento vertiginoso das remessas de lucros, principalmente em períodos de crise, como acontece desde 2008 nos Estados Unidos, mas que se estende pela Europa e Japão.

Não é à toa o rombo das contas externas, chamada de transações correntes (balança comercial, serviços e rendas e transferências unilaterais). O problema é que com o deserto de ideias vigente no Ministério da Fazenda, a política usada é a de suar o ingresso de IED para cobrir o déficit nas contas externas, o que significa querer apagar o fogo com gasolina: mais entrada de IED resulta em mais desnacionalização. Portanto, mais importação, mais remessa de lucro e mais rombo nas transações correntes, num círculo vicioso sem fim.

Transferir para o exterior as decisões sobre os rumos da nossa economia implica em abrir mão de qualquer projeto de desenvolvimento nacional. A presidente Dilma tem se esforçado para a redução das taxas de juros, que vem ocorrendo desde agosto de 2011. Contudo, a economia continua patinando por conta da desnacionalização e da desindustrialização. Sem uma política industrial digna do nome, o governo tem se limitado a desonerações, o que não resolve o problema do crescimento e até o ministro Mantega já admite que o PIB este ano não chega a 2%, inferior ao do ano passado.

 POR VALDO ALBUQUERQUE






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