30/10/2012

Superfaturamento no spread é sinal de que juro precisa cair mais

O problema dos juros dos bancos privados continua a ser o mesmo: eles ainda estão ganhando demasiado com os títulos públicos. Por isso, seu desinteresse em rebaixar os spreads para emprestarem mais dinheiro a mais gente ou mais empresas. Portanto, é evidente que os juros básicos não chegaram a um limite mínimo. Pelo contrário, ainda estão altos, muito acima do patamar internacional, que se mantém negativo (-0,4%).



Bancos privados cobram taxa de spread extorsiva

Matéria publicada no jornal A Hora do Povo

 Segundo o Banco Central publicou no último dia 17, os juros que os bancos cobram das empresas por operações de financiamento estão, na média, em 23,1% ao ano (a.a.), enquanto os juros extorquidos (não há outro verbo) dos consumidores estão, também na média ao ano, em 35,6%.

 Isto significa que a taxa de juro real (o ganho do banco, descontada a inflação) está em tremendos 17%, no caso das empresas, e colossais 28,8% a.a., no caso das pessoas físicas, considerando uma inflação projetada de 5,24% até o fim de 2012, medida pelo IPCA.

 Esses números são médias não somente entre os vários bancos, mas entre as diversas operações: é importante ressaltar que, por exemplo, a taxa de juros para que uma empresa desconte duplicatas está, na média, em 34,36% - e a taxa do cheque especial para pessoas físicas está em 148,64%.

 Todos esses números são referentes ao mês de agosto. Podem parecer, ao leitor, algo remotos, mas são os últimos que foram divulgados.

 Resumidamente: quase toda a queda de juros que houve no país até agora, desde agosto de 2011, deve-se à baixa nos juros básicos. É desprezível, para essa queda, a contribuição da baixa nos spreads (a diferença entre a taxa que o banco paga para captar dinheiro e aquela que recebe ao emprestar esse mesmo dinheiro), cobrados pelos bancos privados no Brasil, que continuam os maiores do mundo.

A presidente Dilma tem, portanto, toda razão ao insistir tanto na queda dos juros básicos, pelo BC, quanto na queda dos spreads, pelos bancos privados. Os primeiros, em termos reais, nesse período (agosto de 2011/agosto de 2012) caíram de 6,8% para 1,7% - essa queda de 5,1 pontos percentuais significa uma redução de 75%.

No entanto, enquanto isso, os spreads dos bancos caíram em média apenas 19%. Parece uma redução significativa, mas, para que os números não nos iludam, essa queda significa que, em agosto último, sua média estava em 22,5% - e, no caso das pessoas físicas, em 27,7%! Mesmo no caso dos empréstimos a empresas, a redução foi de apenas 3,3 pontos percentuais e está agora em 15,7%.

 Notemos que essas taxas estúpidas, predatórias do conjunto da economia, são cobradas, pelos bancos, de empresas e consumidores numa conjuntura de baixo crescimento, em especial da indústria. É verdade que o governo, em resposta, baixou os juros dos bancos públicos – hoje, mais de 45% do dinheiro emprestado no Brasil, o foi por bancos públicos. Porém, isso quer dizer que um pouco menos de 55% do estoque de crédito do país está nas mãos de bancos privados que cobram juros extorsivos numa situação em que o país necessita urgentemente alavancar seu crescimento.

O principal componente do spread é o lucro do banco. No último  Relatório de Economia Bancária e Crédito (REBC) publicado pelo BC, referente a 2010, a “margem bruta” dos bancos constituía 57,03% do spread dos bancos privados e a “margem líquida” era 34,15% (cf. REBC, 2010, pág. 20).

Há, portanto, ao contrário do que dizem os porta-vozes da banca, uma relação direta entre os lucros astronômicos, e predatórios, dos bancos (no primeiro semestre de 2012 – Itaú/Unibanco: R$ 6,73 bilhões; Bradesco: R$ 5,63 bilhões; Santander: R$ 3,23 bilhões) e seus altíssimos  spreads.

Da mesma forma, são risíveis aqueles supostos noticiários de TV onde alguma besta fala nos “maus pagadores” que são responsáveis pelos juros altos – a inadimplência nos empréstimos, em agosto, foi apenas 5,9%.

O problema dos juros dos bancos privados continua a ser o mesmo: eles ainda estão ganhando demasiado com os títulos públicos. Por isso, seu desinteresse em rebaixar os spreads para emprestarem mais dinheiro a mais gente ou mais empresas.

 Portanto, é evidente que os juros básicos não chegaram a um limite mínimo. Pelo contrário, ainda estão altos, muito acima do patamar internacional, que se mantém negativo (-0,4%).

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