07/10/2012

Um domingo eleitoral na festa da democracia

Acordo cedo no domingo e aproveito para votar, logo após o café da manhã. Somente este ano transferi meu título de eleitor para o Rio de Janeiro, ou seja, é a primeira vez que voto em solo carioca.

A escola na qual voto fica aproximadamente a vinte passos de onde moro. Neste pequeno percurso vejo um eleitor pegando um 'santinho' no chão, dentre os muitos espalhados, e se dirigindo para dentro da escola. Não é a primeira vez que presencio semelhante fato e este é um dos motivos de eu questionar a validade do voto obrigatório.


Já na minha seção eleitoral, ouço as pessoas se perguntando sobre o almoço, onde poderiam comer por um preço baixo. O governo, os partidos e os candidatos gastam rios de dinheiro numa eleição, mas até onde sei, os trabalhadores convocados para trabalhar numa seção eleitoral nos locais de votação não são remunerados. A festa da democracia é custosa para alguns, gratuita e sacrificante para outros.

Após registrar meus votos na avançada urna das eleições brasileiras, saio de minha seção e me deparo uma vez mais com um forte cheiro de esgoto. Ao lado do muro que abriga a escola municipal passa um esgoto a céu aberto, aqui no Rio de Janeiro também conhecido como 'valão'. A tecnologia das urnas contrasta fortemente com a falta de infraestrutura básica da cidade.

Já na calçada, decido aproveitar o domingo, a rua e ir passear um pouco, tomar um sorvete. Alguns passos depois percebo uma cena inusitada: um 'santinho' literalmente afundado na merda. Os inúmeros papéis que alguns candidatos jogam pelas ruas forma uma espécie de tapete pós-moderno da democracia na qual vivemos. Um deles repousou sobre as fezes de um inocente cachorrinho, que por sua vez, possui um dono tão porco quanto os candidatos. Resultado? Um eleitor descuidado levou um pouco do animalzinho grudado em seu sapato. Nem o santinho lhe salvou.

Mais adiante sou abordado por pessoas fazendo boca de urna. Ganham entre 50 e 200 reais para se arriscar e pedir votos para um candidato que, se eleito, deveria fazer as leis da cidade. Para tanto, já começa desrespeitando outras leis. É muita vontade de trabalhar e representar o povo, não é mesmo?

Voltando de meu pequeno passeio dominical, encontro novamente as mesmas pessoas fazendo boca de urna, mas desta vez não sou incomodado. Vale também registrar que alguns deles fazem campanha por candidatos a vereador que buscam a reeleição.

O sol escaldante me faz suar e desejar chegar logo em minha casa. De minha janela, vez ou outra, observo o caos do trânsito, as buzinas enlouquecidas, o tapete de santinhos pelo chão, a boca de urna e uma calçada entupida por entulhos que algum cidadão jogou na calçada, fazendo um enorme bloqueio e obrigando os pedestres a andar no asfalto. Um dia de domingo eleitoral na famosa festa da democracia.

1 comentários:

thr0 disse...

Meu bairro ganha um movimento único em dia de eleição. Normalmente, aos domingos, o trânsito não chega nem a engarrafar na Freguesia. As pessoas na rua também são poucas, em dia de eleição fica bonito ver aquele povo todo na rua. Pena a imundice provocada por quem se propõe a por ordem na casa! Realmente estraga a festa e devolve a gente para a realidade...

O pessoal que trabalha na eleição obedece a uma convocação. O serviço não é renumerado, em alguns pleitos recebi um ticket para o almoço, em outros nem isso.

Votar deveria dar um trabalho do cão, tinha que ser algo difícil, que exigisse empenho do cidadão. Nunca deveria ser obrigatório... pelo contrário, deveria ser algo só para quem "faz questão".