08/11/2012

Brasil é uma alternativa de gestão frente aos falidos modelos europeu e norte-americano para Domenico De Masi

Por André Bürger

Em encontro na ESPM-RJ realizado em 5 de novembro, o sociólogo Domenico De Masi disse que o Brasil pode servir de modelo para o futuro do desenvolvimento do planeta. Segundo o autor da célebre obra 'O ócio criativo', lançada em 2000 (Ed. Sextante), somos uma democracia consagrada e sem tradição de guerras e, entre outras vantagens, somos um país politeísta, com crescimento econômico e uma única língua oficial. "Os brasileiros têm uma cultura baseada no acolhimento. São muito alegres, solidários e criativos", reconhece.

Para De Masi, o Brasil acompanhou por 450 anos o padrão econômico europeu e, nos últimos 50, as práticas norte-americanas de desenvolvimento. Com ambas as regiões em crise, o italiano acredita que temos a capacidade de criar um novo modelo organizacional.

Segundo o sociólogo, apesar de o país de Tom Jobim e Vinícius de Moraes não ser um expoente na produção científica e tecnológica, é uma nação muito criativa nas áreas de entretenimento, design e moda. "O mercado televisivo, com sua estética original, é um exemplo disso. O mesmo pode-se dizer da produção musical. Ao longo dos anos, o país soube preservar seus aspectos de brasilidade mesmo com as influências externas", explicou.

No livro que o fez famoso, De Masi apresentou sua insatisfação com o modelo social elaborado pelo Ocidente, focado na idolatria do trabalho e da competição mercadológica. Em 'O ócio criativo', propôs um cotidiano baseado no equilíbrio entre trabalho, conhecimento e divertimento, além de mais atenção à redistribuição do tempo, da riqueza, do saber e do poder. "É importante ressaltar que o ócio criativo não é ficar sem fazer nada e ser preguiçoso", esclareceu mais uma vez.

No evento, De Masi destacou a crise da Europa. "Muitas escolas de filosofia na Itália fecharam as portas nos últimos anos. Os jovens migraram para os cursos de economia e engenharia. Considero isso um suicídio. Por mais que engenheiros sejam importantes para se criar um iPad, por exemplo, precisamos de profissionais formados nas áreas de humanas para criar seus aplicativos e outros conteúdos para estes aparelhos", ponderou.

O filósofo criticou ainda os modelos indiano, chinês, americano - e seu consumo desenfreado - além do islâmico que, segundo ele, está presente em vinte países, na sua maioria, absolutista. "Enquanto na China e na Índia há o politeísmo, nas nações islâmicas há um monoteísmo muitas vezes fanático. Qualquer coisa feita deve ser avaliada de acordo com as escrituras sagradas, que oferecem várias interpretações", ironizou.

O italiano reprovou as práticas de gestão da atualidade. Lembrou que as regras de administração aplicadas até hoje surgiram na época em que prevaleciam os trabalhos manuais. São normas defasadas para cargos e profissões intelectuais que proliferaram com a evolução tecnológica. "Infelizmente, o atual modelo não leva em consideração esses profissionais. A criatividade é caprichosa", lembrou o sociólogo, para quem o processo criativo requer tempo e não pode ficar preso à rotina das oito horas diárias de trabalho.

"As sociedades ganham muito mais com a solidariedade do que com a competitividade. Além disso, o capitalismo vem se matando. O sistema vive de consumo. Se os bens se concentram nas mãos de poucos, não há consumo equilibrado. Por isso a fortuna concentrada destrói esse modelo. O empresário italiano Adriano Olivetti defendia que um presidente de empresa não poderia ganhar mais de cinco vezes o salário de um operário da mesma companhia. Infelizmente, essa filosofia não foi para frente".

De Masi lançou em parceria com o fotógrafo Oliviero Toscani, conhecido pelo trabalho visual desenvolvido para a grife Benetton, o livro 'A felicidade' (Ed. Globo, 2012). Na obra, por meio de textos e fotografias, os autores propõem uma reflexão sobre a relação entre esse sentimento humano e seus temas correlatos como riqueza, segurança e beleza.

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