28/12/2012

A polícia da ditadura com a Bíblia na mão

Por Luciano Martins Costa

Reportagem no Estado de S. Paulo desta sexta-feira (28/12), com destaque na primeira página, dá ao final de ano cores muito sombrias: diz o jornalão que a polícia paulista mata uma pessoa a cada 16 horas, tendo acumulado até novembro passado um total de cadáveres maior do que a mortandade ocorrida em 2006, quando a principal organização criminosa em ação no estado promoveu uma onda de ataques a policiais, instalações oficiais e ônibus.

A reportagem tem números preocupantes: há seis anos, quando a capital paulista e outras cidades foram paralisadas pelos criminosos, 495 pessoas foram mortas em ações policiais. Neste ano, o número de vítimas chegou a 506 até novembro.


O jornal certamente colheu essa estatística ao preparar a retrospectiva do ano que se encerra.

Só então seus editores parecem ter despertado para um dos aspectos mais graves da onda de violência que, desde o mês de maio, assusta a população do estado mais rico do país.

Embora o próprio Estadão tenha informado, ao longo do semestre, sobre a hipótese de o aumento dos homicídios ter relação com ações de vingança por parte de policiais militares, os indicadores oficiais ainda não haviam sido analisados sob o ângulo exclusivo das mortes causadas por agentes da lei.

A despeito das explicações oficiais, uma verdade assoma por baixo dos números: a polícia prefere matar a tentar resolver conflitos.

A violência também tem outro lado: neste ano, até a última quarta-feira, dia 26/12, nada menos do que 106 policiais haviam sido mortos por criminosos. No ano passado, foram 48, ou seja, menos da metade.

Para melhor comparação, convém também observar que em 2006, quando a organização conhecida como Primeiro Comando da Capital, o PCC, declarou guerra à polícia, 29 policiais militares foram mortos em serviço.

Segundo analisas consultados pelo Estadão, tudo começou em maio deste ano, quando a PM matou seis suspeitos que se reuniam num lava-rápido da zona leste de São Paulo.

Segundo a polícia, eles seriam integrantes do PCC e teriam reagido.

Especialista citado pelo jornal afirma que a reação da organização criminosa foi imediata, ordenando o assassinato de agentes da lei envolvidos no episódio.

As primeiras mortes de policiais foram tratadas burocraticamente e, segundo a reportagem, a omissão das autoridades estimulou o agravamento descontrolado do conflito.

Os indicadores da violência no estado seriam, a partir daí, muito influenciados por uma situação de guerra não declarada: grupos de execução formados por policiais passaram a eliminar criminosos conhecidos e meros suspeitos de ligação com o PCC.

Em retaliação, o PCC ordenou execuções de policiais.

Com a Bíblia na mão

As estatísticas são importantes para esclarecer as dimensões verdadeiras de um problema que afeta diretamente a vida dos cidadãos, e cujas origens o governo do estado procura dissimular.

O Estadão se aproxima da questão o constatar que o volume de mortes está relacionado ao aumento da letalidade nas ações policiais.

No mesmo período em que aumentou significativamente o total de vítimas da polícia, os crimes contra o patrimônio, que normalmente são a causa dos confrontos, mantiveram-se relativamente estáveis.

O que houve, claramente, é que a Polícia Militar ganhou licença para matar.

Quando as autoridades superiores não se posicionam claramente contra a violência policial – ao contrário, o governador de São Paulo fez seguidas declarações justificando mortes de suspeitos – os agentes se consideram liberados para atirar primeiro e depois pedir documentos.

No vácuo da omissão do governante, o “espírito de corpo” da tropa é dirigido por líderes irresponsáveis que estão fora da instituição, como os ex-oficiais da PM que incitam às execuções por meio de blogs na internet.

Jornalistas que conduzem programas populares sobre crimes, na TV e no rádio, também contribuem para o agravamento do estado de barbárie, ao transformar em heróis os policiais mais violentos.

Por trás de tudo reina ainda o padrão de repressão construído ao longo da ditadura militar.

Um ranço de preconceito contra homens pobres e jovens negros e pardos determina a prontidão para apertar o gatilho.

Quando a vítima é um cidadão de classe média, como foi o caso do publicitário Ricardo Prudente de Aquino, o caso ainda ganha alguma repercussão na imprensa. Ele foi morto a tiros em julho, porque os policiais que o abordaram acharam que estava sacando uma arma. Era um telefone celular.

Quando a vítima é pobre, o caso não merece mais do que uma nota no pé de uma coluna, como no caso do coletor de lixo Antonio Marcos dos Santos, assunto escondido na edição desta sexta-feira do Estadão.

Santos foi morto pelo PM João Samir de Oliveira na cidade de Avaré, porque o policial entendeu que ele ia sacar uma arma.

Mas a vítima apenas tentava pegar sua Bíblia que estava sob a camisa.

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