10/12/2012

A.p.C./D.p.C.: ser politicamente correto ou troglodita, eis a questão


Virou modinha entre os reaças criticar o politicamente correto, como se fosse tolhedor da liberdade de expressão, censura disfarçada ou simplesmente coisa de gente chata. Associado ao pensamento de esquerda desde seus primórdios, o conceito de “correção política” foi defendido na década de 1970 pelo movimento negro nos EUA, mas só ganharia força no mundo a partir dos anos 1980. Até então, não havia limites para a falta de educação e o desrespeito com o próximo: tudo era permitido.

Depois que o politicamente correto surgiu, passamos a ser menos cruéis, ficamos mais sensíveis às dores de nossos semelhantes e mais cuidadosos para não feri-los com palavras. Correção política não é sinônimo de censura, mas de polidez, de boa educação, de respeito. Muitos dos que chamam o politicamente correto de chato, no entanto, aparentemente se esquecem (ou preferem esquecer) de como era antes. Eu relembro:

ApC: pessoas com deficiência eram chamadas de aleijados, pernetas, manetas, cotós e outras expressões alusivas ao problema.

DpC: pessoas com deficiência são chamadas de pessoas com deficiência ou de cadeirantes.

ApC: pessoas com síndrome de Down eram chamadas de mongóis ou mongolóides.

DpC: pessoas com síndrome de Down são chamadas de pessoas com síndrome de Down.

ApC: pessoas com deficiência mental eram chamadas de retardadas, abobalhadas, abestalhadas, debilóides.

DpC: pessoas com deficiência mental são chamadas de pessoas com deficiência intelectual.

ApC: piadas racistas eram consideradas inofensivas e eram amplamente toleradas até mesmo na televisão e no cinema, e inclusive diante dos próprios negros. Piadas com deficientes, idem.

DpC: piadas racistas são consideradas ofensivas e causam constrangimento às pessoas em geral, particularmente entre os negros –em alguns casos, podem ser razão de processo. Igualmente entre os deficientes.

ApC: em brigas no trânsito, era comum xingar o opositor com ofensas alusivas à sua orientação sexual ou à raça.

DpC: cenas assim já não são tão comuns (ou não deveriam ser), primeiro porque racismo é crime desde 1985 e a homofobia vai pelo mesmo caminho.

ApC: brincadeiras, piadas e apelidos vinculados à orientação sexual alheia eram tolerados e estimulados nas relações sociais e mesmo no ambiente de trabalho.

DpC: brincadeiras, piadas e apelidos inspirados pela orientação sexual alheia são considerados ofensivos em qualquer ambiente.

ApC: ser machista era considerado uma qualidade masculina, praticamente uma condição inerente ao homem heterossexual.

DpC: ser machista é considerado um defeito do homem, algo anacrônico e cafona.

ApC: era considerado superengraçado tirar sarro da aparência das pessoas: gorda, magra, alta, baixa, tudo era razão para apontar o dedo e rir.

DpC: tirar sarro da aparência das pessoas não tem a menor graça e tem até nome: bullying.

ApC: era normal chamar nordestinos de “baianos” (em SP) e “paraíbas” (no Rio), assim como associar comportamentos tolos ou de mau gosto a nordestinos: “coisa de baiano”; “coisa de paraíba”. Algo semelhante ocorria no exterior: os espanhóis, por exemplo, chamavam pejorativamente os sul-americanos de “sudacas”; nos EUA, os latinos eram “cucarachas”.

DpC: não é mais normal ser preconceituoso com nordestinos ou latino-americanos.

ApC: éramos trogloditas.

DpC: evoluímos – muito embora alguns ainda prefiram continuar a ser trogloditas.

(Escrito e publicado por Cynara Menezes)

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