03/12/2012

O Tupi, o Guarani, o Nheengatu e o Português


A partir de hoje, reunirei uma série de textos e informações sobre nossas línguas ancestrais, o tupi, o guarani e o nheengatu. Inclusive aceitarei de bom grado sugestões, materiais, vídeos e o que mais tiver.

Tudo começou anos atrás, quando li O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. O livro é fabuloso, denso, apaixonado, inteligente e, como costumo dizer, obrigatório para qualquer pessoa que pretenda dizer: "eu sou brasileiro".


Em suas páginas descobri o tal do nheengatu, entre muitas outras coisas maravilhosas. Fiquei fascinado. Algumas semanas atrás, depois de muitas leituras e estudos sobre história brasileira e os índios, resolvi iniciar  um estudo sobre tupi-guarani (que não é exatamente uma língua) e nheengatu. Na verdade, tive e tenho muita dificuldade para encontrar material como livros, dicionários, etc, principalmente gratuito e digital. Mas como estou fazendo isso por esporte, não tenho pressa.

Conversando com dezenas de pessoas desde a leitura do livro, percebi que quase ninguém ouviu falar sobre essas línguas genuinamente brasileiras, nem mesmo na escola. Sendo assim, resolvi criar uma tag ou Marcador (Tupi Guarani Nheengatu), com o qual agruparei textos sobre essas línguas.

O primeiro texto que reproduzo foi publicado em 2008, no Estadão.

Sotaque vem do nheengatu, a língua brasileira

Por Valdir Sanches, Lagoinha (SP) - O Estadao de S.Paulo

Caipira é aquele que fala o dialeto caipira. É português, mas com palavras tupi e sotaque da língua brasileira. A língua brasileira é o nheengatu, que existiu no Brasil até ser proibida por Portugal, no século 18. Seu nome parece coisa de índio, e é. O nheengatu incorpora a fala dos índios tupi, que ocupavam o litoral brasileiro. Na verdade, até hoje, quem se refere ao Ibirapuera, fica jururu, come abacaxi ou se pendura num cipó está se expressando nessa língua.

Há algum tempo, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso usou a expressão "chega de nhémnhémnhém", estava falando puro nheengatu. No Brasil Colônia, era falada fluentemente em uma grande área do País, que ia de Santa Catarina ao Pará. A elite também se expressava por meio dela, embora não em todos os setores. Durante os processos, o juiz dispunha de um intérprete.

"Tivemos uma língua brasileira até o século 18", diz o professor José de Souza Martins, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP. "Só os portugueses, que eram estrangeiros, falavam português."

A língua foi criada no século 16 pelos jesuítas, destacando-se o Padre Anchieta. O fundador de São Paulo era lingüista. Para se entender com os nativos, classificou o tupi e criou uma gramática da língua geral. Ou seja, o nheengatu. "Uma língua de travessia, não é português, nem índio, eram ambas", diz Martins. O português, nesse caso, era o que hoje chamamos arcaico. Convidava-se uma dona para uma função, em vez de uma senhora para um baile. E dizia-se coisas como agardece (agradece), alevantá e inorância.

Os índios tinham dificuldade em falar palavras portuguesas como os verbos no infinitivo. E também palavras com consoantes dobradas (rr) ou terminadas em consoante. Além disso, colocavam vogal entre consoantes. Mulher, colher e orelha viraram muié, cuié e oreia. De sua dificuldade com o "erre", vem o "pooorta", reflexivo, com a língua tocando o céu da boca. Martins esclarece que "o dialeto caipira não é um erro, é uma língua dialetal". Mais do que isso: "É uma invenção lingüística musical e social."

Os brasileiros viviam muito bem com ela, até que, no reinado de d. José I (1750 a 1771), Portugal a proibiu. O veto veio em um decreto do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Bania o ensino do nheengatu das escolas. A decisão foi acatada nas salas de aula, mas o povo continuou falando no dialeto caipira. O tempo acabou por impor o português, mas o dialeto puro resiste.

Ainda é falado em alguns pontos da fronteira com o Paraguai. E, em São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas, a 860 quilômetros de Manaus, uma lei de 2002 tornou o nheengatu língua co-oficial do município. Na contramão do decreto do marquês, determina que seja incentivado seu ensino nas escolas, e o uso nos meios de comunicação (o tucano e o baniva também se tornaram línguas co-oficiais).

E ficou o "caipirês" da roça. Por essas bandas, ensina Martins, a língua se multiplica. "Quando o novo aparece, o caipira inventa, a partir da matriz da palavra, algo que tem sentido para ele." Há certo tempo, Martins e um grupo de estudantes apresentaram questões a algumas pessoas. Perguntaram a um homem: "Você concorda ou não concorda?" O homem não entendeu. A pergunta foi sendo repetida, sem sucesso, até que um dos estudantes mudou a forma: "Você concorda ou disconcorda?" Deu certo.

4 comentários:

  1. Hum! Interessante esse negócio do caipirês. Não sei se você sabe, mas estou ensinando português a um americano. Comecei com ele do zero. Ele só falava inglês. Por não terem certos músculos da língua não treinados para o português, os falantes do inglês tem uma tremenda dificuldade na pronúncia de alguns sons, principalmente o "r".

    Algo bem parecido com o que acontece com os índios e o português.

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    1. Legal. Algo semelhante acontece conosco quando vamos aprender as línguas naturais indígenas ou o nheengatu e vice-versa. Essa origem do "caipirês" é muito interessante. Fantástico.

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  2. Excelente artigo!! Ótimo para divulgarmos nossas preciosas línguas indígenas gerais, que são um tesouro tanto em termos linguísticos como no aspecto da identidade histórica brasileira! Muito obrigado!

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    1. Eu que agradeço pelo interesse na cultura e na história do Brasil. Algo que temos que manter vivo em nosso povo. Abraços e obrigado.

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