05/02/2013

A estratégia midiática do crime organizado


A onda de atentados registrada em Santa Catarina desde a semana passada (27/1-3/2) tem todas as características de uma resposta midiática do crime organizado a um evento que praticamente passou despercebido pela imprensa.

No dia 18 de janeiro, agentes prisionais do Presídio Regional de Joinville atacaram com balas de borracha e jatos de gás pimenta presos imobilizados num pátio (ver vídeo). A retaliação veio pouco mais de uma semana depois, com uma sequência coordenada de 43 ataques a delegacias, prefeituras e incêndios de ônibus em 15 cidades do estado.


O incidente no presídio foi tratado burocraticamente pela imprensa catarinense, que preferiu bater firme na denúncia da insegurança e na cobrança de ações por parte da polícia. É a forma tradicional e gasta de lidar com uma situação que tende a se tornar cada vez mais frequente porque o crime organizado já deu todos os sinais de que responderá com ataques tipo guerrilha a qualquer incidente registrado em cárceres onde existam organizações de presos.

É uma clara estratégia que busca impacto midiático para questões que o governo tenta ocultar, com a ajuda da imprensa. Trata-se de uma ação em que o objetivo é conquistar corações e mentes, mais do que ver quem é mais forte ou quem bate melhor. A reação do governo e da polícia foi a mais convencional possível. Ambos conhecem o que está por trás dos ataques a ônibus, mas preferiram o recurso tradicional de prometer o uso da força contra os delinquentes, mesmo sabendo das limitações estratégicas dessa estratégia.

A imprensa catarinense, logo após os primeiros ataques do crime organizado, partiu com força para a cobrança de ações do governo, amparada no horror e no medo da população. De certa forma ela acuou as autoridades,em vez de exigir medidas que fossem ao cerne do problema. Ela também se deixou levar pela rotina e ficou na cobrança de ações imediatas.

É claro que ao ver os incêndios a população das cidades catarinenses onde ocorreram ataques reagiu contra os delinquentes. É uma reação imediata e natural, mas a imprensa e o governo deveriam saber que a situação era mais complexa do que simplesmente responder com a força.

Quando a imprensa cobrou respostas das autoridades, estas em vez de neutralizar a ação do crime organizado, reconhecendo a gravidade dos incidentes no presídio de Joinville para punir os responsáveis,preferiu minimizar o episódio com uma discreta punição aos agentes acusados de violação dos direitos dos presos.

Dar ao incidente uma dimensão midiática esvaziaria a revolta dos dirigentes do crime organizado e contribuiria para criar na população a percepção de que a reforma do sistema penitenciário é muito mais eficiente – em termos de neutralizar o poder do crime organizado – do que as barreiras móveis, que servem mais para tentar transmitir à população a ideia de que a polícia está fazendo alguma coisa do que para capturar agentes do crime organizado.

A imprensa sabe que a situação é complexa e que é parte de uma batalha midiática por corações e mentes da população no contexto crítico da insegurança urbana. Por isso ela é também responsável por evitar o passionalismo numa situação como esta. A crise no sistema penitenciário está na origem da onda de atentados, a segunda em quatro meses em Santa Catarina, e que tem tudo para se transformar numfenômeno endêmico em todo o país.

Basta os líderes do crime organizado ordenarem que adolescentes ataquem ônibus em lugares ermos para implantar o pânico na população e o nervosismo nos comandos políticos e policiais. A crise não será solucionada no campo de batalha das ruas, mas no ambiente midiático. A arma do governo é mostrar que vai enfrentar com seriedade e transparência a delicada questão da reforma do sistema penitenciário. Ele desloca o eixo da discussão do passionalismo gerado pelos incêndios para a reflexão envolvendo a sociedade.

Mas enquanto as autoridades agirem prometendo apenas mão dura contra o crime, os principais beneficiados serão apenas os grupos organizados nos presídios brasileiros.

Um comentário:

  1. http://ndonline.com.br/joinville/noticias/47604-agentes-que-agrediram-detentos-formavam-equipe-especial-para-operacoes-nos-presidios-de-sc.html

    Agentes que agrediram detentos formavam equipe especial para operações nos presídios de SC
    Envolvidos em caso de tortura serão ouvidos nesta segunda-feira (4) pela corregedoria do Deap

    O Departamento de Administração Prisional promete punir os agentes penitenciários envolvidos no caso de tortura ocorrido no Presídio Regional de Joinville. As imagens capturadas no dia 18 de janeiro pelo circuito interno mostram agentes desferindo tiros de borrachas contra cerca de 70 apenados. Os presos aparecem agachados, nus e de costas, durante operação pente-fino. O supervisor da equipe foi afastado e as atividades do grupo de operações nos presídios suspensas. Dez agentes já foram identificados, segundo o departamento.

    O diretor do Deap (Departamento de Administração Prisional), Leandro Lima, disse que chegou a ser informado sobre um conflito entre presos e agentes em Joinville. “Aconteceu durante operação onde encontramos materiais ilegais, como sempre encontramos. Mas eu não sabia que o conflito tinha sido daquela ordem”, esclareceu. Pelo menos 14 pessoas aparecem nas cenas com roupas pretas. Segundo o diretor, participaram da ação agentes do Presídio de Joinville e membros da equipe que realiza operações integradas de segurança prisional nas unidades do Estado. Leandro descartou que o mesmo tipo de conduta venha sendo adotado atrás dos muros dos outros 49 estabelecimentos prisionais de Santa Catarina. “Foi um fato isolado. Os responsáveis já foram intimados e prestarão esclarecimentos a Corregedoria da Secretaria. Até o momento não existem indícios de que esteja ocorrendo o mesmo em outras unidades”, afirmou.

    No ano passado foram realizadas 212 Operações Integradas de Segurança Prisional. A maioria delas acompanhada pelo diretor do Deap. “Fiquei chocado com as imagens. Acompanho a maioria das operações, mas nesse dias estava em Chapecó ajustando os preparativos para inauguração de uma nova unidade”, declarou.

    Em nota, a Secretaria de Justiça e Cidadania repudiou a atitude dos agentes, alegando que é condizente com a postura profissional do cargo ações que demonstrem uso excessivo e desnecessário da força. Nesta segunda-feira, membros da corregedoria se deslocam para Joinville, onde colherão depoimentos e mais informações sobre o episódio. As intimações foram emitidas no último sábado.

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