05/03/2013

Carnaval carioca e francês: desencanto

Foliões brincando o Carnaval, atrás do Cordão Carnavalesco de Dunquerque. Foto de Emmanuelle Leroy Cerquiera.
Um vídeo, onde um grupo de foliões cantam “les touristes on n’aime pas ça” (Nós não gostamos de turistas) critica a multidão de turistas sem nenhuma preparação que a cada ano participa da folia carnavalesca de Dunquerque.

Dunquerque é o palco de um dos maiores carnavais da Europa (video em francês com legendas em inglês): com cerca de 200.000 participantes, tem duração de três meses completos. Entretanto, a Secretaria de Turismo não contabiliza mais que mil pernoites de hotel no auge da festa, “les Trois Joyeuses” (Os Três Dias Felizes, pt). Onde estão os outros turistas? Hospedados e iniciados por amigos dunquerquenses, eles voltam frequentemente de ano em ano, seduzidos pela folia do Carnaval.

O vídeo, compartilhado quase mil vezes no Facebook, foi filmado quando o Cordão Carnavalesco de Dunquerque animava o Carnaval, em 10 de fevereiro de 2013. De acordo com os comentários, o que incomoda não é a presença de turistas e sim a falta de preparo dos foliões, sobretudo a falta de respeito aos regulamentos, proibições e tradições.

Jules Verge diz:
Sem turistas, o carnaval de Dunquerque não seria o que é hoje. Não estou dizendo que vai desaparecer porque sempre existirá este belo Cordão com verdadeiras estruturas carnavalescas dunquerquenses, mas mesmo assim, um pouco de hospitalidade para nós, turistas, é sempre bem-vinda! Sou um deles, venho de Douai e tenho uma grande admiração por esta festa, então, por favor, que os dunquerquenses nos recebam com as boas-vindas que merecemos!


Trecho do Regulamento do folião educado editado pela Prefeitura de Dunquerque

Julien Vandemoere acrescenta:
Eu não sou de Dunquerque, mas de Lille, há 10 anos participo do Trois Joyeuses, desde o início, eu fui muito bem iniciado pelos dunquerquenses, observei, escutei, estudei o carnaval dunquerquense e em 10 anos de carnaval, estou pronto, evoluí rapidamente no caminho certo.

Já em 1998, os foliões notavam que as gerações mais jovens não estavam respeitando o regulamento e referências do carnaval de Dunquerque. Seguiu-se então um grande movimento apoiado pelas associações carnavalescas e pelo município para orientar os novatos e ensinar a eles que o excesso só é permitido dentro dos limites do respeito [“l’excès dans le respect”] por meio da publicação dos regulamentos do carnaval, da conscientização nas escolas, da prática de dar as boas-vindas aos turistas e lembrar a eles o que não é permitido.

Os sites da internet dedicados aos novatos, atualmente, possibilitam que os futuros foliões se preparem: planejamento da fantasia, revisão de canções, explicação das diferentes etapas do carnaval (bailes, bandas, pré-bandas, pós-bandas, Chapelles, rigodon…) [NdT: Chapelle: casa aberta para os foliões, com comida, música, bebidas e banheiro / Rigodon: modalidade de dança]. Veja, por exemplo, o site mincoin.fr.

Situação única em Dunquerque? Não! Em Nice, os “purs et durs” [NdT: tradicionalistas, conservadores] reclamam de uma certa padronização do carnaval, marcada pela influência do carnaval brasileiro.

O jornalista comunista Le-patriote reclama:
Máquina de dinheiro. Este carnaval não consistiria apenas na emissão de ingressos de lugares confortáveis em arquibancadas caras? Ninguém mais se diverte. Nós nos contentamos em nos sentarmos nas arquibancadas, assistirmos carros alegóricos passando ou andando calmamente ao longo de um percurso delimitado por grades, [percurso] em parte disfarçado sob os olhares sossegados de policiais, sorrindo educadamente aos turistas que vêm até Nice, ver o mais belo carnaval do mundo.

Carro alegórico da escola de samba Beija-Flor no desfile de 2013. Foto de Emmanuelle Leroy Cerquiera

No Rio de Janeiro é a mesma coisa: o desencanto tomou conta dos foliões. Zeca Pagodinho, famoso cantor de pagode brasileiro, lamenta em entrevista à Folha de São Paulo que a alma popular do carnaval tenha se dissolvido na influência do fluxo maciço de turistas e na abertura internacional das grandes escolas de samba:

Não tem Carnaval. Vou gostar de quê? Não tem nada. Roubaram tudo, sumiram com tudo. Acabaram com tudo o que é da cultura. Tudo. Não sei que doideira deu nesse mundo aí.

Então, por que o Carnaval, símbolo de fraternidade, compartilhamento, simpatia e calor humano provoca tanto mau humor? Medo de misturas? Nostalgia do passado? Medo de perder para sempre as tradições? Um recuo diante da globalização e das trocas?

Provavelmente, um pouco de tudo. O Carnaval, festa vibrante, que vem de longínquas épocas do passado, é enriquecido de acordo com os critérios dos lugares onde é realizado, do período em curso e do movimento de ideias. Ele tornou-se hoje o símbolo da divisão das tradições locais em um mundo globalizado. É um desafio a ser restaurado, mas com humor e criatividade, a folia só tem a ganhar.


Escrito por Emmanuelle Leroy Cerqueira · Traduzido por Inês Pontes · Veja o post original [fr]
Postado no Global Voices

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