Para entender o genocídio do povo palestino

Entrevista feita pela equipe de reportagem do Imprensa Popular com a militante da causa palestina Baby Siqueira Abrão. Entre outras afir...


Entrevista feita pela equipe de reportagem do Imprensa Popular com a militante da causa palestina Baby Siqueira Abrão. Entre outras afirmações, Baby - que é jornalista - afirma que "acordo militar entre Brasil e Israel é de uma violência sem tamanho, tanto em relação aos palestinos como a nós, por tornar partícipes involuntários de crimes como limpeza étnica, genocídio, assassinatos, torturas, destruição física e psicológica de seres humanos".


Confira a íntegra:

- As últimas eleições em Israel alteram o quadro local em algum aspecto?

Antes de entrar nas eleições propriamente ditas é importante dizer que o eleitor médio israelense, manipulado desde seu nascimento pela ideologia sionista, faz suas escolhas baseado naquilo que lhe é ensinado ao longo de sua existência. Nesse sentido, não se pode esperar dele senão apoio incondicional aos sionistas linha-dura, aqueles que defendem o uso da violência como solução para os problemas do país. A análise feita pela professora doutora Nurit Peled-Elhanam, da Universidade Hebraica de Jerusalém, por meio de uma análise detalhada nos livros didáticos de Israel, mostra como o racismo e o desprezo ao outro, ao diferente (o não judeu, o gentio, o goym) estão na base do sistema sionista de educação e conduzem o estudante a entender o mundo, em particular o mundo árabe, como inimigo que precisa ser vencido e, em muitos casos, exterminado. E como vencer e exterminar o inimigo senão pelas armas? É essa ideologia belicosa que fundamenta a educação do cidadão israelense, tanto na escola como fora dela, e na mídia. As escolas recebem visitas regulares de oficiais do exército, em palestras e programas destinados a reforçar tal ideologia; além disso, o exército mantém espaços para crianças para que elas possam conhecer e experimentar veículos, equipamentos e munição de guerra. No primeiro caso, são projetados filmes e vídeos dos conflitos provocados por Israel no Oriente Médio, e neles o país é apresentado como vítima, como obrigado a guerrear para defender-se de inimigos que o atacam – e que consegue vitórias. Vende-se, portanto, uma imagem distorcida e heroica dos conflitos e dos oficiais que deles participam. No segundo caso, as crianças, acompanhadas dos pais e orientadas por soldadas e soldados, têm um aprendizado básico do funcionamento das armas e dos veículos militares israelenses. Trata-se de uma educação pela violência, de uma indústria de violência, da violência vista como única solução para as questões políticas (um exemplo disso pode ser observado no vídeo realizado pelo israelense Itamar Rose:



Terminado o ciclo escolar fundamental e médio, o cidadão (e a cidadã) israelense é convocado para servir o exército, em que, durante três anos, exerce controle e repressão sobre a população palestina – que para eles é composta apenas por “árabes” que vivem não na Palestina, mas em territórios que, por “direito histórico”, pertencem a Israel. (Em Israel, a Torá – o Antigo Testamento dos cristãos – é considerada relato de fatos históricos e ensinada nas escolas como se fosse um documento da história, não um conjunto de narrativas religiosas; nesse sentido, como supostos “descendentes” de uma personagem mítica, Abrahão, os judeus teriam direito àquela região, que segundo a Torá lhes foi dada pelo deus judaico. Desde o século XIX os sionistas vêm usando essa justificativa falaciosa para roubar a Palestina e praticar limpeza étnica contra o povo palestino.)

São cidadãs e cidadãos médios assim, moldados desde a infância para servir aos propósitos do sionismo, que vão às urnas. Por isso não há nenhuma surpresa nos resultados: a coligação de extrema direita entre o Likud, o partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyau, e o Yisrael Beiteinu [Israel Nossa Pátria], do ex-ministro das Relações Exteriores Avigdor Lieberman, ganhou a maioria dos assentos no Parlamento, seguido pelo Yesh Atid [Há um futuro], partido do jornalista Yair Lapid, a estrela em ascensão da política israelense. E, se alguém esperava que Lapid fosse representar alguma novidade, acabou frustrado assim que foram anunciados os resultados das eleições: ele declarou que seu partido daria total apoio a Netanyhau – que deve ser reconduzido ao posto de primeiro-ministro – e a seu governo.

A única surpresa nas eleições foi a pouca votação recebida pelo partido Lar Judaico, de extrema direita, composto e apoiado pelos colonos ultraortodoxos que vivem ilegalmente em terras tomadas da Cisjordânia. Naftali Bennett, líder e ideólogo do Lar, disparou nas pesquisas de intenção de voto e chegou a ameaçar Netanyhau e o Likud, que despencavam. Esperava-se que o partido viesse a se tornar o segundo maior de Israel, mas as eleições mostraram que o apelo de parte da população – os colonos – não é tão forte como o da solução dos problemas econômicos da maioria dos israelenses, plataforma que levou o Yesh Atid, de Yair Lapid, ao posto de segundo maior partido de Israel.

Para os palestinos, o resultado das eleições significa ainda mais repressão, pois os três partidos vencedores não têm nenhum interesse em permitir o estabelecimento do Estado palestino. Na verdade, até mesmo os partidos ditos “de esquerda” têm dificuldade de aceitar a Palestina nos limites anteriores à Guerra dos Seis Dias – a campanha militar lançada por Israel para tomar a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, além de Golã, na Síria, e do Sinai, depois devolvido ao Egito –, de junho de 1967. E a repressão, o apartheid, têm o apoio da maioria da população de Israel, como comprovou pesquisa realizada pelos instituto israelense Maagar Mohot em dezembro de 2012 e publicada no jornal Maariv: 66% dos israelenses opõem-se ao Estado palestino, mesmo desmilitarizado.

Em resumo, tudo continua como antes: os palestinos contam apenas com suas próprias forças e a de seus apoiadores na sociedade civil internacional.

- Qual sua avaliação sobre o acordo Brasil-Israel no comércio de armamentos?

É um acordo inaceitável, em especial porque assinado no contexto de um governo de centro-esquerda, para o qual uma presidenta que participou da luta contra a ditadura fora recém-eleita. Há informações de que o acordo foi negociado por Nelson Jobim e a chefia do Estado-Maior do exército brasileiro, sem o conhecimento ou o apoio do governo, que se viu diante do fato consumado. Mas é difícil confirmar esse tipo de informação. Precisaríamos de um Bradley Manning dentro do Ministério da Defesa.

Israel testa suas armas, seus equipamentos, sua munição, seus compostos químicos militares e suas tecnologias de guerra no povo palestino. E utiliza esse fato como marketing para a venda dos produtos de sua indústria bélica – do ponto de vista dos negócios militares, os testes feitos em campo, em cobaias vivas (no caso, os palestinos), é um diferencial decisivo para o sucesso das vendas num mercado altamente competitivo e lucrativo. Mas penso que não foi esse fator que levou o governo brasileiro a assinar o acordo militar com Israel – e isso é muito preocupante, pois significa que o lobby sionista, muito ativo em todo o mundo, têm absoluto controle sobre um setor estratégico para o país. É fundamental, para a esquerda brasileira, saber a que áreas esse controle se estende e como é feito, pois é urgente neutralizá-lo.

E essa urgência, além de dever-se ao respeito e à solidariedade ao povo palestino, está ligada à firme oposição à violação dos direitos básicos de seres humanos (também no caso, os palestinos) e sua sujeição ao regime de apartheid; ao chamamento das organizações palestinas por boicote, desinvestimento e sanções a Israel (a campanha BDS, que vem crescendo em todo o mundo e que no Brasil é organizada pela Frente em Defesa do Povo Palestino); ao chamamento, desde 2011, por boicote militar ao Estado sionista. Para mim, é doloroso saber que o dinheiro dos meus impostos vai parar em mãos sionistas, que o utilizam para custear as atrocidades cometidas contra o povo palestino. Cada um de nós, no Brasil, é obrigado a dar sua cota para a limpeza étnica de uma população inteira, juntamente com a crueldade que isso implica no cotidiano dessa população. Para quem viveu lá, como eu, participando do dia a dia da comunidade de um vilarejo agrário e valente, Bil’in, o acordo militar entre Brasil e Israel é de uma violência sem tamanho, tanto em relação aos palestinos como a nós, por tornar partícipes involuntários de crimes como limpeza étnica, genocídio, assassinatos, torturas, destruição física e psicológica de seres humanos, assédio a crianças, uso de substâncias proibidas em tratados internacionais (que vão muito além do fósforo branco, incluindo até urânio), destruição dos meios de vida de um povo, confisco de sua cultura e de sua história, entre muitos outros.

Precisamos nos organizar mais e melhor para pressionar o governo brasileiro, tanto nas ruas, buscando ampliar o apoio à causa, como nos corredores políticos de Brasília. Precisamos criar urgentemente um lobby de defesa dos direitos das populações.

- Como avalia a solidariedade que o PCB vem prestando ao povo palestino?

Todo apoio à causa palestina é bem-vindo, e o do PCB tem ajudado muito no crescimento dessa causa no Brasil. Se vocês permitirem, eu gostaria de fazer uma sugestão. Há necessidade urgente de informação correta sobre a história da Palestina e sobre o que é realmente o sionismo, e o risco que esse movimento representa a todas e todos nós, cidadãs e cidadãos do mundo. Crises econômicas, guerras, desestabilização de países, fome, miséria, mudanças climáticas, tudo é resultado do capitalismo, que alimenta os sionistas e é alimentado por eles. O sistema bancário internacional, as corporações transnacionais, o complexo industrial militar, os principais grupos de mídia estão nas mãos de sionistas ou têm neles sócios com poder de decisão. Eles dominam o governo dos Estados Unidos e, em menor mas não menos preocupante escala, os de Inglaterra, França, Austrália, Canadá. Financiam congressistas, conseguem postos-chave na administração estatal, fazem leis – e isso não é segredo algum; eu mesma consegui várias dessas informações em sites sionistas, como o do AIPAC, disponíveis na internet para quem tiver a paciência de os consultar.

Tudo isso precisa ser discutido em seminários populares nacionais e internacionais, visando a criação de estratégias eficientes de resistência e de neutralização crescente do poder dos sionistas e de seus sócios formais e informais ao redor do mundo. Não podemos esperar mais. O cenário mundial está cada dia mais preocupante. Tenho algumas informações – que infelizmente ainda não posso divulgar – de arrepiar os cabelos das cidadãs e dos cidadãos mais céticos em relação à “bondade natural” dos seres humanos, como queria o sonhador Rousseau. Nem Hobbes poderia imaginar o Leviatã que está sendo criado. Precisamos nos organizar internacionalmente para impedir que ele vire realidade. Nesse sentido, minha sugestão é que o PCB convide outros partidos para debates nesse sentido, e que os movimentos sociais sejam também protagonistas. Enquanto permanecemos parados, eles avançam. Manifestações de rua, como no Egito, na Espanha, na Grécia, são fundamentais, mas não bastam para deter o monstro.

Outra sugestão é que o PCB ouça mais a população palestina e menos seus governantes, obviamente comprometidos com a solução que o mundo impôs à Palestina, de dois Estados. O povo palestino quer um Estado único, secular e democrático, com direitos iguais para todos, liberdade religiosa, volta dos refugiados. Um Estado sem sionismo, que é a fonte da tragédia palestina e do Oriente Médio. Para eles, a solução de dois Estados, além de ser imposição, não lhes faz justiça. E eles têm toda razão.

- O que mudou depois da aprovação da entrada da Palestina na ONU?

Mudou a intensidade e a quantidade dos atos praticados contra os palestinos pelo exército sionista, a mando do governo de Israel. A construção de novas unidades residenciais nas colônias exclusivamente judaicas construídas ilegalmente em território palestino é um plano antigo, mas seu anúncio foi feito depois do reconhecimento da Palestina como Estado observador das Nações Unidas para parecer represália ao êxito diplomático da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Em 2011, quando vivi lá, obtive informações de que o projeto é construir 10 mil unidades, em dez anos, só na parte oriental de Jerusalém, que seria a capital da Palestina. Isso é típico dos sionistas. Eles elaboram seus planos e engavetam quando o quadro internacional lhes é desfavorável, e então aguardam, ou provocam, ocasião propícia para desengavetá-los, dando a impressão de que foram pensados como reação a essas ocasiões propícias, quando eles podem responsabilizar os palestinos por alguma ação de resistência, inclusive armada – que é legal e justificada pelo direito internacional, mas apresentada ao mundo pela mídia sionista como terrorista e de “deslegitimização” de Israel (um Estado ilegítimo, diga-se, por ter sido criado unilateralmente, à margem da Carta da ONU e da legislação internacional). É o caso do muro, que começou a ser construído em 2002, supostamente, para impedir a entrada de grupos armados em Israel, mas que já estava previsto desde antes da Guerra dos Seis Dias como projeto de expansão colonial israelense, e o objetivo era o confisco de terras palestinas, como a prática comprovou.

Voltando às mudanças, aumentou o número de ordens de demolição de casas palestinas, agora espalhadas em toda a Cisjordânia, e de tomada de terras dos palestinos sob a justificativa de que as áreas onde elas se situam vão se transformar em campos de exercício militar. Aumentaram as incursões do exército de Israel nas vilas palestinas e aumentou a violência dos soldados. Intensificou-se ou reiniciou-se o uso de munição letal até mesmo em locais onde ela não era mais utilizada, como Bil’in. Thiago, um amigo que recentemente esteve lá, testemunhou e fotografou: balas mortais estão sendo atiradas na população desarmada. Aumentaram o número e a violência dos ataques dos colonos, que agora invadem pátios e casas palestinas para ameaçar e atemorizar seus moradores, além de queimar plantações, arrancar oliveiras – isto é, destruir os meios de vida da população das vilas, predominantemente agrárias –, agredir e atirar pedras em crianças e adultos, sempre sob a proteção do exército de Israel, que os acompanha para garantir que seus crimes sejam plenamente executados.

É uma situação de terror cotidiano e absoluto. Os palestinos ficam à mercê da sorte, porque, pelos acordos de Oslo, a segurança nas áreas B e C – que correspondem às zonas urbanas e rurais dos vilarejos palestinos, mais de 60% da Cisjordânia – é responsabilidade de Israel. Então a ANP, mesmo que quisesse, não poderia proteger o povo palestino que habita essas regiões. Os ativistas internacionais, as câmaras fotográficas e de vídeo são o único escudo daquela população, porque os colonos e os soldados não querem ser filmados nem fotografados nem reconhecidos porque sabem que, quando esse pesadelo terminar, eles terão de enfrentar o Tribunal Penal Internacional (TPI).

Por outro lado, a ANP teme levar Israel ao TPI. Já podia ter feito isso, mas ainda nem aderiu ao Estatuto de Roma, que criou o TPI, condição necessária para denunciar o Estado sionista na corte internacional. As organizações de direitos humanos da Palestina iniciaram uma campanha nesse sentido, e contam com advogados e juristas trabalhando para verificar a melhor maneira de fazer com que os criminosos de Israel sejam responsabilizados e punidos por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade – porque tudo isso acontece na Palestina. Mas a ANP permanece na imobilidade.

Há pouco tempo ela ameaçou ir ao TPI caso Israel construísse casas e prédios na zona conhecida como E1, em Jerusalém. Se esse plano sionista for executado, os palestinos da Cisjordânia não terão mais acesso a Jerusalém. Além disso, a Cisjordânia ficará dividida em duas partes, a norte e a sul, e algumas vilas serão quase totalmente bloqueadas, formando pequenas “Gazas”, prisões a céu aberto. Por aí se vê que a ANP pretendeu usar o TPI como moeda de barganha contra Israel, o que é no mínimo vergonhoso.

- O novo governo egípcio vem ajudando mais na solução da questão?

Não. Apesar das expectativas nesse sentido, o governo egípcio está cada vez mais comprometido com Israel (leia-se EUA) e isolado pela população egípcia. Recentemente Morsi, o presidente, quase caiu: abandonou o palácio, cercado por populares, e bastava que eles o tomassem para criar uma crise enorme lá. Eles não fizeram isso, porém. Permaneceram do lado de fora.

A passagem para o Egito, na cidade de Rafah, sul de Gaza, continua fechada para grande parte da população palestina. Para passar por ela a pessoa precisa preencher determinadas exigências, que incluem idade, sexo, profissão, filiação partidária. Ou seja, o controle continua existindo, agora sob a aparência de uma pequena “liberdade de movimento”. Outro ponto negativo, que nem mesmo o governo de Mubarak ousou, é pôr fim aos túneis subterrâneos que ligam Gaza ao Egito e pelos quais os gazenses conseguem ter acesso a alimentos, algum material de construção, eletrodomésticos, bens básicos. Também é por eles que entram os componentes das armas usadas pelas brigadas de Gaza, inclusive dos foguetes que foram atirados em Jerusalém e Tel Aviv como reação ao ataque militar israelense a Gaza, no final do ano passado, e que derrubaram ao menos dois aviões israelenses que atiravam contra a população da faixa costeira palestina. Destaque-se que esses foguetes foram decisivos para que Israel buscasse o cessar-fogo, articulado pelo governo egípcio a pedido de Barack Obama. Sem eles, como o pessoal de Gaza poderá se defender? Sem os alimentos que entram pelos túneis, como terá o suficiente para comer?

Por outro lado, a Irmandade Muçulmana, organização a que pertencem Morsi e seu partido, vem mudando de posição política, procurando aproximação com o Catar, a Arábia Saudita e seus parceiros, as potências ocidentais. Isso se reflete na postura do Hamás, filhote da Irmandade, hoje bem mais moderada, e sua ação sobre as brigadas independentes de Gaza, que têm respeitado o cessar-fogo – exceto pelo foguete lançado no sul de Israel como protesto pela morte do prisioneiro Arafat Jadarat, em 23 de fevereiro. Mas Israel não respeita o cessar-fogo: já cometeu mais de uma centena de violações ao acordo.

Essa posição do governo egípcio soma-se aos demais motivos que o levam ao isolamento total, a ponto de uma cidade egípcia ter se declarado “território independente”, onde “a Irmandade não manda”. No Egito as coisas estão bem complicadas, mas seu governo, definitivamente, não ousa nem ousará opor-se a Israel.

- Como está se dando o debate entre as propostas de dois Estados na Região - Israel e Palestina - e a de um estado único, laico, multiétnico, onde viveriam palestinos, árabes, judeus e pessoas de outras origens?

Os intelectuais de esquerda palestinos e israelenses defendem a solução do Estado único, secular e democrático – ODS, One Democratic State – em toda a Palestina. Esse projeto é antigo e ganhou força em 2007, quando, num encontro nos Estados Unidos, foi elaborado um documento nesse sentido. Em 2011, na Palestina, esses intelectuais começaram a organizar a base do Estado, com planos de debates nas vilas, da escrita de uma nova Constituição, elaboração de um site, enfim, ações práticas. Em dois dias, mais de quatrocentos intelectuais palestinos (da Palestina e da diáspora) e israelenses haviam assinado o novo documento de apoio ao ODS. Escrevi matéria sobre isso para o Brasil de Fato.

Mas ativistas da Europa silenciaram esse debate ao organizar a campanha “Bem-Vindo à Palestina”, cujo objetivo era desafiar o governo israelense no aeroporto de Tel Aviv, o Ben Gurion, mostrando ao mundo que, além do bloqueio a Gaza, também havia bloqueio na Cisjordânia. Parênteses: você só entra em Israel se esconder o fato de que irá à Palestina. Se disser a verdade, terá de voltar para casa. Os ativistas resolveram que iriam dizer a verdade e Israel montou uma operação de guerra para recebê-los, prendê-los e deportá-los. Tudo isso exigiu um grande esforço da parte dos intelectuais palestinos envolvidos no ODS e o trabalho se perdeu. É a mania de os ativistas internacionais tomarem decisões sem consultar os palestinos e sem respeitar o timing local...

Logo depois disso houve a intensificação do movimento rumo à ONU, para o reconhecimento do Estado da Palestina pela entidade, e mais uma vez o ODS foi sacrificado. Mas o movimento está se reorganizando. Além dos intelectuais, a maioria dos palestinos é a favor do Estado único. Eu já tinha sentido isso nas conversas que mantive nas vilas, nas ruas, nos ônibus, nos mercados. Em julho de 2011 uma pesquisa realizada em Gaza e na Cisjordânia comprovou que a grande maioria da população quer o Estado único. Um documento de um intelectual de esquerda que daria palestra no Fórum Social Mundial Palestina Livre, e que foi impedido de vir porque só ganhou passagem quem recebeu a aprovação da ANP – a esquerda ficou de fora, empobrecendo o debate e as propostas no fórum – propõe que os palestinos se encarreguem da “questão judaica”, o que significa não só compartilhar a Palestina com os judeus como estar ao lado deles e defendê-los se estiverem sob risco – algo que os palestinos já faziam antes de os sionistas aparecerem por lá, no final do século XIX.

Quanto a dois Estados, na prática é uma solução inviável. O território palestino está recortado, fragmentado, quase todo tomado por colônias e estradas exclusivas para judeus, com postos militares de controle, muros... Enfim, não há a menor possibilidade de contiguidade de território. E para ir de um cantão a outro é-se obrigado a passar por território confiscado e anexado por Israel – isto é, em território estrangeiro, inimigo, que não permite a passagem de palestinos por ele.

Parte da direita israelense também quer o Estado único, mas controlado por sionistas. Políticos do Knesset já elaboraram projetos de lei para continuar no comando quando Israel anexar oficialmente a Cisjordânia e só aguardam ocasião propícia para apresentá-los. Um deles cria conselhos políticos locais nas cidades de maioria palestina, e os palestinos só poderão votar para esses conselhos. Nas eleições majoritárias, apenas os israelenses votariam, garantindo o poder para o sionismo. Ou seja: as leis de Israel, que já estabelecem o apartheid, seriam complementadas por outras, para evitar que, como maioria – hoje o número de palestinos na Palestina histórica (o que inclui Israel) supera o de israelenses –, a população palestina não ameace o domínio sionista.

- Como vê o conflito que se desenvolve na Síria?

O conflito na Síria faz parte do projeto de domínio imperialista naquela região do planeta, da configuração do que os especialistas do império chamam de Novo Oriente Médio. A desestabilização vem obedecendo ao cronograma traçado desde os anos 1990 pelosneocons dos EUA: Líbia e Síria eram os primeiros da lista, seguidos do Líbano, de alguns países africanos-chave para o controle das águas do Nilo e do Irã. O objetivo é o domínio dos recursos naturais (óleo, gás, minérios e matéria-prima da indústria de drogas), da água e, recentemente, das terras agriculturáveis da Ásia e da África, que vêm sendo compradas em grandes extensões por gigantes como Bunge, Cargill, Monsanto.

O que começou como protesto popular não violento por liberdades e direitos, na Síria, transformou-se numa guerra patrocinada pelas superpotências, que financiam mercenários e armas. Supor que uma população reprimida e desorganizada politicamente pode manter dois anos de luta armada incessante é ingenuidade, para dizer o mínimo. Mas alguns grupos defendem que está em curso uma “revolução” na Síria. Mais do que ilusão, esse é um desserviço à resistência ao imperialismo.

- Qual tem sido o papel dos Comitês pela Palestina? Qual o saldo do último encontro nacional?

Em algumas vilas os comitês estão divorciados da população, enquanto em outras eles a representam e contam com apoio popular. Viajei muito pela Palestina, estive nas vilas e procurei ouvir ao máximo seus habitantes. Percebi um distanciamento crescente dos moradores em relação aos comitês. Há todo tipo de críticas, de manipulação política a desvios de verbas recebidas da ANP e de organizações internacionais, passando por decisões unilaterais. Minha tentativa era mostrar a esse pessoal que, sem participação popular, os comitês continuariam agindo sozinhos e a causa palestina ficaria comprometida. Mas não convenci ninguém. Senti as pessoas muito céticas, muito desesperançadas.

Fiz essas colocações no grupo que integro com o pessoal dos comitês populares palestinos e com ativistas internacionais que os apoiam, e eles ficaram de discutir isso no encontro. Mas ainda não tive contato com os líderes, com tempo e calma suficiente, para saber como a discussão foi encaminhada. Prometo trazer a informação assim que a tiver, completa e detalhada.

(Publicado no Portal do PCB)

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