25/06/2013

“Governo federal terá que tomar decisões drásticas”, afirma Arbex

José Arbex Jr., jornalista, começou na imprensa clandestina. Fazia um jornal contra a ditadura. Atuou também na imprensa do PT e em sindicatos. Chegou na Folha de S. Paulo em 1984 e saiu em 1992. Hoje está no jornal Brasil de Fato e na revista Caros Amigos, além de ser professor da PUC-SP e autor de vários livros, como Showrnalismo – a notícia como espetáculo. Nesta entrevista exclusiva ao Fazendo Media, ele comenta os últimos episódios que levaram milhões de pessoas às ruas em todo o país. No cerne da questão, acredita, está a revolta contra a super exploração do povo. “Não queremos a vida em catracas”, cita uma das palavras de ordem do Movimento pelo Passe Livre, estopim dos protestos.

Qual sua opinião sobre as manifestações promovidas pelo movimento pelo passe livre em SP?


A reivindicação central – não ao aumento dos R$ 0,20 – atendia a um anseio geral da população. Evidentemente, não se tratavam de “apenas” 20 centavos (com muitas aspas no “apenas”), mas sim do recado: estamos todos cansados da super exploração, do descaso das autoridades com a infraestrutura dos serviços públicos, da roubalheira indiscriminada, do cinismo dos patrões e dos políticos. Estava tudo embutido nos R$ 0,20. Eu acho que a palavra de ordem mais esclarecedora é esta: “não queremos a vida com catracas”. Está tudo aí, de forma explosiva e concentrada: todo o programa do Manifesto Comunista.

Qual sua opinião sobre as manifestações que vieram em seguida em todo o país?


Elas são o resultado de uma conjuntura explosiva. Basta comparar com outras situações em que a repressão policial era suficiente para amedrontar, impedir o desenvolvimento das manifestações. Agora aconteceu o contrário: a repressão policial não intimidou, mas aumentou a disposição de ir às ruas. Trata-se de uma situação conjuntural qualitativamente distinta, em que “os de cima já não conseguem mais controlar como antes, e os de baixo já não mais obedecem”, para usar uma expressão tomada de empréstimo de Vladimir Lênin.

Alguns analistas enxergam uma escalada de movimentos fascistas, não só nas redes sociais como nas ruas. Você concorda?

Parcialmente. Há uma óbvia polarização da sociedade. Os dois extremos se manifestam. Eu não ficaria nada surpreso se alguém descobrisse que há setores da polícia e do PCC envolvidos na organização dos skinheads e outros grupos extremados da direita.

Analistas dizem que o movimento de massas foi capturado pela direita. Concorda?

Em hipótese alguma. Isso é uma loucura total. Se a direita tivesse força para mobilizar 2 milhões de brasileiros e fazer tudo o que estão fazendo, ela já teria tomado o poder de assalto há muito tempo. Não. Isso está errado. Se alguém canta o hino nacional na rua e se envolve com a bandeira do Brasil, isso não significa, em hipótese alguma, que esse alguém seja, só por isso, de direita. Na hora de defender a própria dignidade, as pessoas se agarram a tudo o que esteja à mão, até mesmo ao crucifixo, se for o caso. Não vamos esquecer que os mesmos camponeses que apoiaram Lênin, em outubro de 1917, marchavam, alguns meses antes, em procissões convocadas pela Igreja Ortodoxa russa que pediam que Deus iluminasse o czar. Seriam camponeses de direita? Isso é um completo absurdo. As pessoas só se apegam a símbolos patrióticos como decorrência do fracasso da própria esquerda, que foi até agora incapaz de oferecer uma alternativa clara.

Como analisa a cobertura dos meios de comunicação de massa sobre os episódios?


Tenho a impressão de que vão tentar de tudo para preparar a campanha presidencial de 2014. Acho que há uma clara orquestração com o objetivo de desgastar o governo Dilma. Já começaram a fazer isso. Mas é um jogo perigoso, pois ninguém controla as manifestações. Ninguém.

Qual sua avaliação sobre as respostas dos governos estaduais?

Sofreram uma clara derrota. Mas o processo está no começo do começo.

Como avalia as últimas posições do governo federal a respeito (incluindo o pronunciamento da presidenta à nação)?

Creio que o governo federal está colocado diante de uma encruzilhada histórica: ou ele reafirma os laços com a direita, com o capital financeiro, com os empresários, com as classes dominantes, e para tanto terá que partir para a repressão, ou bem vai para a esquerda, abrindo um período de mobilizações ainda mais intensas. No primeiro caso, a opção à direita implicará o risco de estilhaçar a base social do PT e da CUT, particularmente os seus setores mais identificados com a própria origem do PT.

Você acredita em risco de ruptura institucional?

Sim, pois os dados estão lançados num contexto em que ninguém controla mais nada. Note que o governo enfrenta agora a alta do preço do petróleo, em parte devido à valorização do dólar sobre o real. Essa alta será repassada aos preços dos bens de consumo? E se não forem repassados, qual será a alternativa? As pressões internacionais tenderão a aumentar, pois o Brasil é um dos pilares dos Brics, que, por sua vez, são hoje fundamentais ao funcionamento da economia mundial. A situação é muito complexa. O governo federal terá que tomar decisões drásticas, e isso traz o risco da ruptura.

Você acha que as manifestações podem servir a algum agrupamento político para as próximas eleições presidenciais, em 2014? Qual?

Novamente, vai depender muito das respostas do governo federal. Ou bem vai capitular de uma vez diante da direita e intensifica a repressão – hipótese que não acho a mais provável – ou vai para a esquerda. Vamos ver.

É possível falar em “saldo organizativo” do movimento? O que você acha que vai acontecer daqui pra frente? Que cenários podem ser delineados?

Acho que a juventude, os trabalhadores e todos os que já puderam sentir as ameaças físicas representadas por uma direita fascistoide deveriam organizar comitês de bairro, de fábrica, em todos os locais, para organizar as próprias forças, desenvolver os debates e criar alternativas independentes e autônomas. Não quero, com isso, fazer coro com os que repudiam os partidos ou coisa parecida, mas me parece claro que está na hora de surgirem os conselhos populares. Os partidos, por si só, mesmo os mais combativos, não oferecem respostas orgânicas.

(Publicado em Fazendo Media)

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