Por que as versões alternativas da chacina da família de PMs não se sustentam

As teorias conspiratórias em torno do caso são fruto da nossa necessidade de explicar o extraordinário As pessoas que estão colocando em...

As teorias conspiratórias em torno do caso são fruto da nossa necessidade de explicar o extraordinário

As pessoas que estão colocando em dúvida a versão oficial de que não teria sido o garoto Marcelo o autor dos disparos que mataram seus pais, Luís Marcelo Pesseghini e Andréia Regina Bovo Pesseghini, e mais dois parentes, têm divulgado versões ainda mais lacunosas, típicas de teorias conspiratórias.

Em matéria de crime, estamos sempre esperando a hipótese ordinária e fechamos os olhos para o extraordinário. No âmbito do processo penal, isso pode levar a erros graves, simplesmente porque não se cogita uma situação extravagante.

Após tantos casos recentes de homicídios contra policiais executados pelo PCC, se uma família de PMs é dizimada em sua casa, é natural que todos imaginem o ordinário, que as vítimas foram mortas a mando da facção criminosa. Quando as investigações indicam que provavelmente tenha sido uma criança de 13 anos, que matou sua família e suicidou-se, nossas expectativas são frustradas. Talvez fantasiemos um fato como esse e apenas esperamos que as investigações confirmem essas fantasias.

As críticas feitas à versão oficial não são insuperáveis. As objeções sobre a capacidade para atirar e dirigir foram superadas pelos depoimentos de que o garoto atirava com o pai e diariamente retirava o veículo da garagem, pois já sabia dirigir.

Os comentários de familiares de que o garoto seria incapaz de cometer essa atrocidade é mais do que óbvio, pois jamais se suspeita de algo assim, sobretudo se a pessoa suspeita é amada. É estarrecedor, mas uma criança de 13 anos é capaz de um ato tresloucado desses, de matar seus pais e cometer suicídio.

Além disso, quais seriam as outras hipóteses? Inicialmente, falou-se em agentes do PCC. No entanto, sabemos todos que os membros da facção são toscos, normalmente matam com muitos tiros, de modo mais violento que estratégico. Basta lembrar das execuções cometidas em 2006 e no ano passado, todas truculentas e nas ruas. Nunca houve um crime com essas características.

Cogita-se também que poderia ser um membro da própria polícia, insatisfeito com um dos colegas. Mas, convenhamos, também não se conhece que a polícia militar tenha treinamento para esse tipo de execução. Que existe na polícia militar gente capaz de matar é indiscutível e tenho criticado muito isso em vários artigos. Contudo, tais execuções são feitas também com truculência, simulando troca de tiros, e não há registros de casos semelhantes no Brasil.

A versão de que a mulher teria denunciado policiais não ficou claro. A primeira versão do Cel. Wagner Dimas foi muito vaga, pois não teria propriamente delatado, mas no “contexto que nós estávamos levantando, ela confirmou alguns detalhes”. Ou seja, ele não afirmou precisamente que ela tivesse delatado. Depois, a PM divulgou nota afirmando que não há qualquer procedimento na Corregedoria que tenha Andréia Pesseghini como testemunha.

Afirma-se que há lacunas na versão oficial. No entanto, como seria possível que alguém entrasse na casa sem arrombar, sem deixar vestígios, não fosse ouvido por ninguém, pegasse a arma da mulher, e desse um tiro em cada vítima? E como o menino teria ido à escola depois da morte do casal e regressado para ser morto? Alguém teria esperado o garoto? Ele sabia da morte?

De qualquer modo, o que parece certo é que, se não foi o menino, foi alguém com acesso à residência. Claro que pode haver uma reviravolta no caso. Mas até o presente momento, todas as versões alternativas tem o figurino de teorias conspiratórias e possuem muito mais perguntas que a versão oficial.

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