03/09/2013

EUA têm mais negros na prisão hoje do que escravos no século XIX


Os índices sociais - que incluem emprego, saúde e educação - entre os afrodescendentes norte-americanos são os piores em 25 anos.

O presidente norte-americano, Barack Obama, participou na quarta-feira, em Washington, no evento comemorativo pelo 50º aniversário do emblemático discurso “Eu tenho um Sonho”, de Martin Luther King Jr. - considerado um marco da igualdade de direitos civis aos afro-americanos. Enquanto isso, entre becos e vielas dos EUA, os negros não vão ter muitos motivos para celebrar ou "sonhar com a esperança", como bradou Luther King em 1963.

De acordo com sociólogos e especialistas em estudos das camadas populares na América do Norte, os índices sociais - que incluem emprego, saúde e educação - entre os afrodescendentes norte-americanos são os piores em 25 anos. Por exemplo, um homem negro que não concluiu os estudos tem mais probabilidade de ir para prisão do que conseguir uma vaga no mercado de trabalho. Uma criança negra tem hoje menos probabilidade de ser criada pelos seus pais do que um filho de escravos no século XIX. E o dado mais assombroso: há mais negros na prisão atualmente do que escravos nos EUA em 1850, de acordo com estudo da socióloga da Universidade de Ohio, Michelle Alexander.

“Negar a cidadania aos negros norte-americanos foi a marca da construção dos EUA. Centenas de anos mais tarde, ainda não temos uma democracia igualitária. Os argumentos e racionalizações que foram pregadas em apoio da exclusão racial e da discriminação em suas várias formas mudaram e evoluíram, mas o resultado manteve-se praticamente o mesmo da época da escravidão”, argumenta Alexander no seu livro The New Jim Crow.

No dia em que médicos brasileiros chamaram médicos cubanos de “escravos”, a situação real, comprovada por estudos de institutos como o centro de estudos sociais da Universidade de Oxford e o African American Reference Sources, mostra que os EUA têm mais características que lembram uma senzala aos afrodescendentes que qualquer outro país do mundo.

Em entrevista à Opera Mundi, a professora da Universidade de Washington e autora do livro “Invisible Men: Mass Incarceration and the Myth of Black Progress”, Becky Pettit, argumenta que os progressos sociais alcançados pelos negros nas últimas décadas são muito pequenos quando comparados com a sociedade norte-americana como um todo. É a “estagnação social” que acaba por trazer as comparações com a época da escravidão.

“Quando Obama assumiu a Presidência, alguns jornalistas falaram em “sociedade pós-racial” com a ascensão do primeiro presidente negro. Veja bem, eles falaram na ocasião do sucesso profissional do presidente como exemplo de que existem hoje mais afrodescendentes nas universidades e em melhores condições sociais. No entanto, esqueceram-se de dizer que a maioria esmagadora da população carcerária dos EUA é negra. Quando se realizam estudos sobre o aumento do número de jovens negros em melhores condições de vida esquece-se que mais que duplicou o número de presos e mortos diariamente. Esses não entram na conta dos centros de estudos governamentais, promovendo o “mito do progresso entre os negros”, argumenta.

Segundo Becky Pettit, não há desde o começo da década de 1990 um aumento no índice de negros que conseguem concluir o ensino médio. Além disso, o padrão de vida também despencou. Além do aumento da pobreza, serviços básicos como alimentação, saúde, gasolina (um bem considerado fundamental para os norte-americanos) e transportes públicos têm preços inacessíveis para muitos negros de baixo rendimento. Mais de 70% dos moradores de rua são afrodescendentes.

Michelle Alexander, por sua vez, critica o sistema judiciário do país e a truculência que envia os negros em massa para as prisões. “Em 2013, vimos o encerramento de centenas de escolas de ensino básico em bairros maioritariamente negros. Onde vão estudar essas crianças? É um círculo vicioso que promove a pobreza, distribui leis que criminalizam a pobreza e levam as comunidades de cor para prisão”, critica em entrevista ao jornal LA Progresive.

Artigo publicado no portal Opera Mundi.

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