02/12/2013

Nem o diamante azul devolve a paudurescência do velho rock brasileiro


(Por Diego Pignones)
Em A Bundamolização do Rock Brasileiro discorri sobre o fenômeno de endireitamento de alguns roqueiros fodões da antiga e da falta de QI de outros.
Sem querer dar uma de Pereio, mas… porra qual é a destes caras? Porra, eram rebeldes e agora viraram conservadores que discutem até pentelho em vagina alheia?
Antigos rockers dos anos 80 que tentam voltar aos holofotes, apelam para o conservadorismo, derrotismo e para o ódio anti-esquerdista. Nas palavras deles, país vive sob uma ditadura do proletariado (Stálin se revira no túmulo quando um roqueiro velho compara um projeto de centro-esquerda a comunismo). Ainda segundo estes, o Brasil não presta. Nem nunca prestou. O bom mesmo é ser gringo.
Pra tentar embasar suas análises fracas, rasteiras e tacanhas, rendem elogios ao Instituto Mises do Brasil e ao “filósofo” Olavo de Carvalho. E se alguém contrariar ou contrapontear, não tem debate. A culpa não é da ignorância e do analfabetismo político dos rockers geriátricos. O problema é que eles se colocam num patamar superior ao resto. Afinal, todo derrotista de direita sabe que brasileiro são burros e cucarachas.
O que torna a questão interessante é que o derrotismo é explícito, a guinada à direita idem. Mas o direitismo não é assumido.
O motivo de não assumir o direitismo é porque seria um modo de doutrinar a juventude para a direita, mas a direita não educa. Porque doutrinação é coisa de comunista. O melhor é semear a confusão e a dúvida. Então, por via das dúvidas, nenhum político presta. Some a esse tipo de discurso um nariz de palhaço, roupas de adolescente, um show no Rock In Rio, um roqueiro velho e a palavra ‘cara’ 450 vezes em uma frase. É isto que parte da juventude brasileira compra como modelo. (Sim. Desconstruindo o cenário é isto mesmo que temos).
É fácil, já tá pronto, não precisa pensar e é só reproduzir porque é cool.
A indústria não quer que a juventude pense. A indústria quer que a juventude consuma. Quer lucro. Quer capital.
Se a juventude se ligasse em motes que a indústria já lançou antes, veriam que tudo é de plástico e baseado em repetição publicitária. Antes a cena era de ralação e rebeldia. Mas o difícil de aturar são os filhinhos de papai, burgueses e os rebeldes filhos de diplomatas de Brasília tentarem se colocar como faróis do rock e do punk.
Conceitos e slogans como  Do it yourself! (Faça você mesmo!) ou (o melhor de todos) “não confie em ninguém com mais de 30 anos”, não  são conhecidos pelos jovens, porque o colocam pra pensar.



Velhos roqueiros como Lobão, Roger e Dinho Ouro Preto tentam se manter nos holofotes através da desinformação da juventude e do vácuo ideológico. Pintam cenários apocalíticos da esquerda no poder que em nada condizem com a realidade. E, em alguns casos, evocam os militares para consertarem a bagaça. Afinal, como todo bom derrotista afirma aos pés da imagem sagrada de Olavinho, o Brasil não presta.
Lobão virou um transformista completo. Compõe personagens de acordo com o meio e conforme lhe convém. Como toda criança burguesa mimada quando não consegue a atenção das visitas, caga no meio da sala. E se ainda assim não conseguir atenção, apela para o choque e come a merda recém cagada ainda quente. Isto pode ser visto em seus comentários sobre a política nacional.
O roqueiro afirmou que “há um excesso de vitimização na cultura brasileira. Essa tendência esquerdista vem da época da ditadura. Hoje, dão indenização a quem seqüestrou embaixadores e crucificam os torturadores, que arrancaram umas unhazinhas”. Típico discurso de indignado, que não apresenta embasamento em nenhum ponto. Isso porque a fala reflete apenas um ponto de vista, o dele mesmo. E, Lobão é, e sempre foi uma metralhadora giratória, então, pelo espetáculo e pelo sensacionalismo, gera notícia.
Em entrevista, Lobão toca novamente na questão da ditadura e se vitimiza: “Não acredito em vítima da ditadura, quero que eles se fodam. Eu fui perseguido, passei quatro anos perseguido por agentes do Estado. Por que eu tinha um galho de maconha? Me botaram por três meses na cadeia. Nem por isso eu pedi indenização ao Estado. Devo ter sofrido muito mais do que 90% desses caras que dizem que foram torturados.”
Novamente, discurso indignado, sem embasamento, apenas o ponto de vista do próprio cantor e muitos termos em primeira pessoa para se comparar, equiparar e se vitimizar (acredito, quero, eu, passei, eu, me, eu, pedi e devo, respectivamente). Mas, aposto que Lobão em três meses de cadeia não perdeu nenhuma unhazinha.
Agora, a metralhadora giratória enferrujada de Lobão tenta rugir em coluna na revista do Grupo Naspers, aquele que apoiou o Apartheid na África do Sul e que detém 30% do Grupo Abril. Pois é. O ex-roqueiro fodão trabalha para o sistema. Mesmo que no passado ele tenha tentado comprar uma briga com a indústria fonográfica em relação à venda de álbuns, direitos autorais, preço do CD e numeração unitária.
Será que um dia ele terá colhões pra se levantar contra seus patrões? Não.
Contra a indústria fonográfica não rolou mais nada. Depois de alguns discos independentes lançados durante a luta contra os conglomerados exploradores de artistas, saiu um Acústico MTV pela Sony/BMG quando a concessão da emissora ainda era do Grupo Abril.
Não era de surpreender a ida de Lobão para a Vejinha.
Não é mérito.
É a recontratação de um empregado por conveniência.
A revista precisa de ares novos.
O rottweiler da publicação tá ficando velho e banguela.
É aí que entra Lobão.
Lobão não foi fagocitado pelo sistema. Ele se aposentou do personagem rebel rocker e apresentou uma nova persona: o neoconservador hipócrita.
Virou um farol conservador que destila ódio contra a esquerda brasileira e contra opositores do sistema, na base do ‘faça o que eu digo e não faça o que eu já fiz. Preferencialmente, esqueça o que já fiz.’
Sinceramente é triste ver um cara que no passado escreveu letras interessantes, estar alinhado com a direita rançosa e revanchista. Inclusive fazendo seus joguinhos.
Mesmo sabendo que isto tudo seja uma persona, é triste ver o cara se prestando a este papel.
Não me surpreenderei se um dia o autor de “Panamericana” virar um stalinista de marca maior… por conveniência pessoal, é claro.
Nos anos 80, tínhamos o rock de primeiro escalão (com músicos e bandas como Lobão, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso, Titãs e Ira) e o rock de segundo escalão (que era meio terra de ninguém e trazia bandas como Inimigos do Rei, Sylvinho Blau Blau e Capital Inicial). Deste período a única banda que foi capaz de se reciclar e de se modernizar, a ponto de ficar atualizada, foi o Capital Inicial.
A atualização veio com um grande desafio, Dinho, um senhor de quase 50 anos, tinha que PARECER ter jeito de jovem e falar como jovem. Não precisava SER jovem, basta emular.
Por isso, o “jovem” de Dinho é meio tosco e, na dúvida, ele coloca “cara” em todas as frases (mesmo que não seja necessário).
Mas, pra fazer rock’n’roll não é preciso saber matemática ou ser um Professor Pasquale. No entanto, o vocalista do Capital Inicial, também quer ser um líder político. Desde as manifestações de junho, Dinho também vem dando vazão ao que imagina ser sua veia política. Numa verborragia pseudo-anarquista-adolescente-que-ligou-o-foda-se.
Durante o show de sua banda no Rock in Rio, Dinho Ouro Preto fez um discurso em que atacou os políticos e Brasília. “Esse Natan Donadon, cara, esse primeiro presidiário congressista, cara, o próprio congresso, cara, por ter mantido o cargo desse sujeito, falou, cara…”. E logo após, lascou uma “canção de protesto” intitulada “Saquear Brasília”, que rima “hipocrisia” com “todo dia”.
A veia política de Dinho se manifestou, também, em “Viva Revolução”, composta em homenagem aos protestos de junho. Nela, Dinho vaticina: “tudo vai ser diferente, o estranho vai ser normal/Vai ser uma comoção internacional”. E escreveu um “manifesto” que fora republicado na página dos Anonymous.
Em um show em Porto Alegre, Ouro Preto, em momento politico-filosófico, afirmou que o estádio Beira Rio estava sendo reformado com verbas públicas.
Dinho errou. Foi desmentido. Porque, na verdade, as obras são realizadas em parceria entre o clube e a Andrade Gutierrez. Pediu desculpas, “É motivo de vergonha para mim por ter falado de um assunto sem estar totalmente informado. Peço desculpas”, escreveu na conta do Capital no Facebook.
Esse deveria ter sido um sinal pra que ele busque informações antes de se manifestar.
Se Lobão e Roger (o Derico do Danilo) agora são personas assumidamente de direita, Dinho faz a linha do jovem semi-alfabetizado politicamente, afinal,  “Todo governo é ruim. A gente descobriu que gostava de falar mal de qualquer governo. Fosse ele de direita ou de esquerda, todos são iguais. A regra básica é: nunca confie em político”, disse.
A emulação de um jovem, a verborragia e a falsa rebeldia faz Dinho subir ao palco de um festival que é um portfólio de marcas e corporações, e posar de punk, bater em políticos, no Sarney, no Donadon e tentar insuflar a revolução no Brasil a partir da infiltração dos protestos do transporte coletivo.
Porém, o Ouro Preto do revolucionário Dinho tem uma origem que contradiz seu posicionamento anti-políticos e a favor dos protestos de junho (aquele dos 0,20 centavos). O vocalista do Capital Inicial vem de uma família de diplomatas e descende do Visconde de Ouro Preto. Afonso Celso de Assis Figueiredo, ainda não era Visconde (era Ministro da Fazenda do Império Brasileiro), quando criou um imposto de 20 réis sobre o preço das passagens de bonde no Rio de Janeiro. E em 1880, desencadeou a Revolta do Vintém.
Não sei se tinha o #VemPraRua, mas a população protestou. Gritando “Fora o vintém”, a população espancou condutores, esfaqueou e matou os burros e mulas que puxavam os bondes, virou os bondes e arrancou os trilhos ao longo da Rua Uruguaiana. Os números de mortos e feridos não é unânime, tem-se uma estimativa de entre 15 e 20 feridos e entre 3 e 10 mortos. O ministério caiu, e o novo ministério revogou o tributo.
O cara não tem como escolher os parentes, mas, vamos falar sério: como é que filho de diplomata vai ser rebelde e protestar contra o sistema?
Outro exemplo de ex-rocker fodão que endireitou é Roger (o Derico do Danilo). O vocalista do Ultraje virou um Vovô Simpson direitoso que detona o Brasil, reclama de tudo e coloca a culpa nos corruptos. Porém, o ‘proprietário dos 172 de QI’, nunca menciona os corruptores. A jornalista da Carta Capital, Cynara Menezes, em “A volta do filho (de papai) pródigo ou a parábola do roqueiro burguês“, sintetiza, “Os brasileiros, segundo Roger, são um “povo cego, ignorante, impotente e bunda-mole”. Sofre de um complexo de vira-lata que beira o patológico. Ao ver a apresentação bacana dirigida por Daniela Thomas ao final das Olimpíadas de Londres, tuitou, vaticinando o desastre no Rio em 2016: “Começou o vexame”. Não à toa, sua biografia na rede social (@roxmo) é em inglês.”
Sim, Roger é mais um que endireitou, ligou o foda-se e se acha capaz de fazer análises políticas coerentes.
O que une Lobão, Dinho e Roger e justifica seu alinhamento com a direita reaça do país, é a origem burguesa. Depois que passa a adolescência e a juventude se esvai, “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.
No entanto, acredito que além da origem burguesa, se trata de três novos personagens montados com o intuito de chocar.
Afinal, vende mais jornal e revista e um site tem mais acessos com os descalabros direitosos de Lobão e Roger e com os devaneios pseudo-punk-anárquico de Dinho, do que com o fato de Caetano Veloso estacionar o carro no Leblon.
Enquanto os faróis do rock n’roll estiverem voltados para a direita e se importando com holofotes, o velho rock brasileiro perderá sua paudurescência.
E a estas alturas do campeonato, a juventude sem ter contato com as opiniões ácidas e pontuais do passado, segue comprando meros produtos inócuos, insípidos, inodoros e irrelevantes. Pois, na cena comercial da música, não existe mais rock de contestação.
Nem mesmo aquele rock que fala de carros velozes, bebedeiras, aventuras sexuais, pernas sensuais em meias arrastão e cintas-liga.
Talvez, seja porque tudo isso mate o velho e ofende a moral e bons costumes.
Nem o comprimidinho do diamante azul devolve a paudurescência do velho rock brasileiro.
A salvação pode ser encontrada através da internet. Tem muita banda/artista independente ou contestador que, por estar fora do sistema, podem fazer um som mais puro e contestar quem quiser. É o caso de bandas como: Redska (Cesena), Sdemoika (Castiglione del Lago), Talco (Marghera), Eu’s Arse (Udine), Los Fastidios (Verona), Banda Bassotti (Roma), Peter Punk (Roncade), Ska-P (Madrid), Boikot (Madrid), Non Servium (Madrid), Reincidentes (Sevilla), Los Muertos de Cristo (Sevilla), Gatillazo (País Basco), Soziedad Alkoholika (País Basco), Berri Txarraki (País Basco), La Polla Records (País Basco), Creve Nuit (Pépieux), Louis Lingg And The Bombs (Paris), Monalisa Overdrive (Bordeaux), Red Horizon (Moscou), Los Calzones (Buenos Aires), Thetestables (Mendoza), Bersuit Vergarabat (Buenos Aires), Buitres e Trotsky Vengarán (Montevideo).
E pra não dizer que falei apenas de punk, rock, ska, patchanka e hardcore, tem Liliana FelipeModena City Ramblers e Bandabardò.
-”Ah! Mas não tem esses sons no Brasil.” Dirão os derrotistas.
Ao contrário, tem sim bandas/artistas independentes/contestadoras no Brasil. É o caso de Fabrício RamosFaichecleresOs ReplicantesFlanders 72AgrotóxicoAs MercenáriasGarotos Podres, entre inúmeros outros.
O ouro está na cena independente. Porque a indústria não massificou o som independente como um produto enlatado segundo seus desígnios, dogmas e marketing.
É aonde a ralação é diária e o suor é misturado com a terra da estrada.
Isto sim é que é rock n’roll. 
E sempre é bom reforçar:
“Não confie em ninguém com mais de 30 anos.”
A propósito, Roger Moreira, 57 anos. Lobão, 56 anos. Dinho Ouro Preto, 49 anos.

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