28/01/2014

A banda Abrakadabra e sua apologia ao estupro


Um clipe da banda baiana Abrakadabra provocou revolta em mulheres e homens de todo o Brasil na última semana. Intitulada “Tigrão Gostoso”, a letra da música diz: “abre a porta logo que eu quero entrar, não adianta se esconder, o tigrão vai te pegar. (…) É na hora do espanto que o bicho vai pegar. Toma, toma, então toma.” O clipe é ainda mais aterrorizante, começando em um local deserto e escuro, onde uma mulher corre amedrontada do vocalista da banda, derrubando seus pertences e gritando.


A música é indubitavelmente sobre forçar o ato sexual, ou seja, sobre estupro. Uma das coisas mais preocupantes é a naturalidade da produção com relação a música, tanto dos próprios músicos quanto de seus patrocinadores. Enquanto sorriem e rebolam, os membros da banda afirmam que consideram o estupro algo normal, tão natural que pode ser um tema divertido para entretenimento e lazer. É difícil acreditar que o conteúdo e a temática da obra tenham passado ingenuamente despercebidos, o que torna ainda mais perturbador que a letra tenha sido composta, o clipe publicado e dinheiro investido, mesmo que a música trivialize e estimule o sofrimento de milhares de mulheres.

Após tomarem conhecimento da nota de repúdio assinada por entidades dos movimentos sociais, a página da banda publicou uma imagem de alerta para a violência contra a mulher. No entanto, não houve qualquer pedido de desculpas pelo que fizeram, tampouco qualquer mensagem de conscientização contra a violência sexual, como se uma simples foto pudesse reparar os danos causados pela publicação do vídeo. Caso os rapazes não tenham sido orientados por um advogado, o que eles fizeram é apologia ao estupro, publicada abertamente na internet.

Não adianta dizer que são contra a violência misógina uma vez que todos concordaram em participar de algo que estimula o estupro. Uma foto de mulher com olho roxo não anula o caráter distorcido, direcionado para uma masculinidade agressiva, em moldes de dominação e imposição sexual. Os homens da Abrakadabra e seus apoiadores precisam aprender o conceito de consentimento, questionar seus padrões do que é ser homem e modificar seus comportamentos machistas. O estupro acontece porque a mulher é desrespeitada fundamentalmente e sem descartar pensamentos machistas, que objetificam as mulheres, jamais haverá mudança.

É complicado medir os danos causados pela banda e pelas empresas que apoiaram o vídeo, pois a raiz do problema é incômoda: eles realmente acreditavam que podiam compor uma letra sobre estupro e mostrar uma mulher sendo atacada sem que sofressem nenhuma consequência. Lamentavelmente, eles não estão tão longe da realidade, pois a própria Secretaria de Políticas para as Mulheres reconhece em suas publicações a necessidade de efetivar punições para estupradores, sendo os crimes contra as mulheres os menos denunciados. A mera ideia de reabilitação dos agressores fica em um campo de idealização, pois o tema é recebido amplamente com muita hostilidade.

Fatos recentes são evidência de que os integrantes de bandas não pensam duas vezes antes de praticarem estupros coletivos contra suas próprias fãs, como no caso da banda New Hit. O fato de que eles também não sentem a menor vergonha em gravar uma apologia ao estupro enquanto dançam e riem não deixa dúvidas de que é preciso voltar as atenções urgentemente para as adolescentes e jovens mulheres de nosso país.

Clara Flores, integrante do Núcleo Maria Rogaciana e da Marcha Mundial das Mulheres, falou um pouco sobre o ocorrido: “assim como no caso New Hit, em que muitas pessoas apontaram as meninas como culpadas por terem entrado no ônibus ou por estarem usando roupas curtas ou se comportando de uma forma considerada ‘vulgar’, no caso do Abrakadabra novamente as mulheres são colocadas como culpadas”. O depoimento dado pelo vocalista em resposta à nota foi lamentável, onde disse que pretendia fazer uma campanha para ensinar as pessoas a não andarem sozinhas em ruas escuras. Segundo Clara, na opinião do vocalista, “ao invés de ensinar os homens a não estuprarem, devemos ensinar as mulheres a não serem estupradas”.

Apesar de tudo, Clara ressaltou o apoio de diversas entidades e movimentos no Brasil, que fez o fato ganhar bastante visibilidade nacional. “Embora os integrantes permaneçam, em seus depoimentos, esquivando-se do debate, afirmando não terem enxergado a apologia, incapazes de fazer a autocrítica, para nós, o maior saldo foi trazermos para a ordem do dia o debate sobre a violência, problemática tão grave, que cotidianamente ceifa vidas de tantas mulheres no Brasil, mas que permanece extremamente invisibilizada”. Um clipe musical que faz apologia a um crime tão severo como o estupro não pode jamais passar batido – é importante que as pessoas não se calem e continuem denunciando esse tipo de acontecimento, para quem sabe em um futuro não tão distante a violência contra a mulher seja desnaturalizada e desconstruída.

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