24/02/2014

Sobre os Black Blocs e o Brasil


Os blequibloques só apareceram no Brasil depois que a polícia atacou barbaramente as manifestações, instigadas pela mídia e por políticos apavorados. Alguém percebeu que as primeiras manifestações que ressoaram no país – e que foram brutalmente reprimidas pelas polícias estaduais - não apresentavam nenhum grupo de "combatentes civis"? Os blequibloques surgiram como uma reação à violência do Estado contra sua população insatisfeita em manifestação contra os desmandos e crimes da sociedade contra sua maioria, sem acesso a direitos básicos constitucionais e cada vez mais espremida por interesses empresariais que tomaram as instituições públicas e as levaram aos crimes contra a humanidade naturalizados no cotidiano. Manifestações pacíficas foram violentamente atacadas pelas forças de segurança, sem nenhum motivo, apesar das alegações posteriores, mentirosas e repetidas na mídia. Eu estava lá e vi, ninguém me contou. Em várias manifestações, as primeiras bombas partiram da polícia. E os tiros. Como se disse e repetiu por lá, “do nada”.E agora a mídia (e esses políticos de merda) querem atribuir a violência nas manifestações a esses grupos. Manifestantes pagos, essa é boa... na ditadura se usou o mesmo expediente, apresentava-se uma ou outra declaração de alguém preso – que teria recebido dinheiro pra “se manifestar”- e a mídia fazia o resto, martelando que todos os manifestantes são pagos por forças do mal. Ora, uma olhada nas manifestações e se percebe o ridículo da idéia mentirosa. A gari paraense que, mesmo fugindo das manifestações, morreu por inalação de gás lacrimogêneo; o camelô de 70 anos, na Central do Brasil, atropelado por um ônibus ao fugir das bombas da polícia; o rapaz que passava pela manifestação na Paulista e nem participava, morto por um tiro das forças de segurança; os caras que caíram do viaduto em belorizonte, fugindo da cavalaria em carga; os mortos, mutilados e feridos vários pela repressão oficial às manifestações de um povo enganado, sabotado, roubado em direitos e patrimônio público, além de explorado até o talo, tudo passa batido e a mídia diz que o vandalismo vem dos manifestantes. Como conter o desprezo?

Não tem medida a estupidez de não enxergar o vandalismo criminoso do Estado no cotidiano da maioria das pessoas. Quem vê seus parentes mais velhos serem tratados com desprezo pela saúde pública, quem convive com a arrogância brutal dos “agentes de segurança pública”, quem precisa usar qualquer serviço público, inclusive os privatizados, como transporte, energia, fornecimento de água e tantos outros, sabe na própria pele que democracia é uma grande mentira. Sabe, mas não sabe que sabe, porque tem roubadas as condições de se instruir – o ensino público não é mais que uma fachada, no fundamental e no médio – e de se informar – a mídia foi construída privada e estendida por todo o território nacional, numa estratégia óbvia de roubar as consciências. No entanto, a intuição sente. E grupos de informação, de comunicação periférica, comunitária, estão se formando, ainda pouco a pouco, mas com uma força contagiante.

Esquerda governista e direita opositora se unem na grita contra os blequibloques. (Sei que há esquerdistas que negam ser o governo de esquerda, mas isso é outra discussão). A direita, com seu ódio irrefreável contra tudo o que ameace a estrutura social, apavorada com a falta de cabeças pra cortar e criando pretextos pra investir mais e mais na repressão (aos movimentos populares de insatisfação) a que foram reduzidas as “forças de segurança pública”. A esquerda, em seu vício intelectual autoritário, rejeita tudo o que não pode ou consegue controlar, na sua velha ilusão de “conduzir as massas”, em seu velho cacoete de dominar – e, sobretudo, sobrepor a teoria à prática. As chamadas esquerdas me parecem velhas, desinformadas, míopes, medíocres, acuadas, repetindo velhos erros e vícios, com o medo das periferias misturado com um sentimento de superioridade imposto nos “cursos superiores”. Não aprenderam os códigos de comunicação dos mais pobres, sua integração afetiva, sua percepção intuitiva e alimentam sentimentos de superioridade falsa, condicionada pelas convenções. Daí não poderem ter o respeito devido às multidões de excluídos, não conseguirem falar a língua da maioria e atribuir a responsabilidade pela incompreensão ao próprio povo. Tampouco conseguirem entender a dinâmica e o procedimento dos blequibloques.

(Trecho retirado do original publicado em Observar e Absorver)

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