09/04/2014

Ingresso caro no Maracanã: culpa de quem?


(Por Arthur Muhlenberg)

Em conjunto com Thiago Gonçalves tentei analisar e desvendar alguns números nos borderôs dos jogos do Flamengo, uma observação, apenas. Não conseguimos nos conformar com os públicos e rendas do Flamengo nessa temporada. É assustador o prejuízo nas partidas com clubes de menor porte, no Maracanã. O valor do ingresso é um problema, mas está muito longe de ser o único, tenho CERTEZA. Nos perguntamos constantemente porque o ingresso é tão caro, e aparentemente, os clubes estão de mãos atadas, principalmente o Flamengo.

Analisando aos borderôs dos sete jogos que o Flamengo fez contra times pequenos no Maracanã em 2014, tiramos algumas conclusões. O Thiago analisou os borderôs das partidas contra Audax, Duque de Caxias, Madureira, Nova Iguaçu e Cabofriense pela Taça Guanabara e a 1ª partida da semifinal, novamente contra a Cabofriense. Estatisticamente, a amostragem é relativamente pequena para conclusões definitivas, apenas 6 jogos. Ainda assim, já é possível a observação, a comparação e a percepção do fracasso denominado “Cariocão Guaraviton 2014”, principalmente para os cofres do Flamengo e da FERJ (+ou-). Abaixo, uma tabela:



Um dos pontos surpreendentes na análise foi a “precisão” do ticket médio. Apesar da grande variância de público (de 2.073 pagantes contra o Madureira até 10.185 pagantes contra o Nova Iguaçu), o valor do ingresso médio pouco oscilou: 50,93 – 46,93 – 50,72 – 49,96 – 49,96 – 46,97. Como acreditamos em trabalho e pouco em coincidências, é provável que a diretoria tenha definido que o ingresso médio ficaria próximo de R$ 50,00. Nisso contribuiu a distribuição de ingressos vendidos pelos setores do estádio, talvez baseados em valores do ano passado, a previsão fez com que em média tenha sido atingida.

Dois outros dados chamaram bastante a atenção: as meias-entradas e as gratuidades. Mesmo com um público pagante baixo, esta excrescência das leis cariocas somadas a imposição do consórcio em detrimento de uma administração conjunta dos clubes, transformam os mesmos em vítimas nesse processo. Os próprios ajudam ao consórcio a definir os valores dos ingressos, meio que forçados a aceitar altas somas para que não tenham deficit. Forçados também a se evitar o prejuízo técnico, mais até do que financeiro jogar longe do Rio nem sempre é bom para o time. Para o clube é ótimo, jogar com torcida em todo lugar (não nos esqueçamos da estranha condução do “caso Engenhão”). O Flamengo em hipótese alguma jogaria em São Januário.

Os valores não atendem as necessidades e as expectativas, então o custo-benefício dos jogos do clube são desfavoráveis, em sua maioria. Os preços altos são praticados por outros clubes, não apenas o Flamengo, em outras cidades, estados. Não há uma diferença grande entre os valores praticados pelo Flamengo ou o Cruzeiro, por exemplo. Ambos dependem de concessionárias que administram os estádios em seus jogos, em Mineirão ou Maracanã. Neste momento não consigo visualizar qual será o caminho adotado no Brasil dos próximos anos, mas sinto que chegamos a um teto. Teremos um novo paradigma relacionado tanto aos valores recebidos, quanto a administração em si, o que refletiria diretamente no preço do ingresso.

Os contratos individuais foram firmados em alta, e estão em um teto, já que a copa é agora. Logo, logo. Sem trabalho específico, os clubes não conseguirão suplantar os valores nos próximos anos. Os impostos terão que ser pagos. Acabou a mamata. Isso também não impede uma lei que “alivie” aos clubes, um Proforte da vida. Diretamente sobre o ingresso, algumas questões se impõem para uma “escassez progressiva” do torcedor. Poderia enumerar algumas, como a violência ou a sensação dela, horário dos jogos, condições em que os jogos são disputados, fórmulas e campeonatos de interesse baixo, a “elitização” e a “remoção” do “torcedor tradicional” com aspas.

Observando a outras realidades, saindo um pouco do campo esportivo, nenhuma instituição em sã consciência aceitaria que em um espetáculo cultural 23% do público entre de graça, sem que essa entrada seja efetuada como distribuição de cortesias comerciais (com ou por parceiros), e/ou até 47% do total das pessoas dentro dos espetáculos entrassem pagando a metade do valor de face. Achariam piada. E das boas. No Brasil, principalmente no Rio de Janeiro, ficou “fácil fazer cortesia com o chapéu alheio”, como diria minha mãe.

Para tentarmos entender o que se passa, a grande dificuldade sentida na leitura dos borderôs foi encontrar uma “lógica comum” para aplicar. Inexplicavelmente, alguns cálculos não seguem um rigor matemático, como seria esperado. A conhecida e malfadada taxa de 10% da FERJ é inserida de formas diferentes em partidas diferentes. Ninguém sabe, é quase um mistério, saber se os 10% se dão sobre a renda bruta ou se depois de descontados os chamados “ingressos promocionais” (onde não ganhamos um centavo). Dá pra decidir e deixar claro, dona FERJ?

Pois é, além do absurdo de cobrar 10% da renda dos clubes, ainda distribuem “ingressos promocionais”. Pior, em alguns jogos calculam estes ingressos, noutros casos, não calculam. Isso joga contra a transparência, que sempre exigimos do Flamengo e que Flamengo Vasco e Fluminense pediram na “cisão”. Não há neste “documento” distribuído pela federação a “transparência” que um borderô sugere. Pior fica quando se constata a inclusão das taxas de transmissão de TV nos borderôs das partidas para “maquiar” prejuízos. Dos clubes. É óbvio. Confesso que foi a primeira vez que olhamos para uma série de borderôs com mais atenção e a lista de itens assusta. Abaixo a listagem de despesas e deduções:



O item “Aluguel do Estádio” não parece ter uma fórmula fixa, variando, provavelmente, de acordo com o público. No entanto, ronda sempre um valor muito próximo da metade dos lucros líquidos (sem contar ainda essa despesa), ou seja, Receitas – Despesas.

Reparem que só de despesas fixas, temos uma soma de R$50.129,98 + R$11,85 para cada ingresso vendido. São R$ 11,85 DE CADA TORCEDOR dentro do Maracanã. Essa lista esdrúxula que conta com a colaboração de governos, por meio dos impostos e também na IMPOSIÇÃO do consórcio, só reforça uma das minhas bandeiras: O FLAMENGO PRECISA DE SUA CASA! SUA CASA! Não é possível ficar refém de aluguéis, custos fixos, associação dos Escoteiros, dos cronistas profissionais do RJ. Passa do absurdo! Surreal! Sei que com o pagamento das dívidas, só daria para começar a projetar um estádio em 2016 e construir em 2017. Quem sabe? Sonho com uma casa do Flamengo até 2020. Seria espetacular!

Estádio à parte, o Flamengo e o consórcio precisam vender melhor os espetáculos, promover aos eventos. Logicamente, a federação também deveria fazer sua parte e não tem feito. A promoção das partidas é ruim, e ainda há uma clara posição tomada pelos torcedores nesse campeonato estadual, de descontentamento com o produto oferecido (esse estadual é uma porcaria!). Se somarmos todos os clássicos disputados em 2014, a somatória não lotaria UM Maracanã velho. Talvez o novo. Como já descrito acima, são inúmeros os fatores para a majoração do ingresso, como:
• As reformas no Maracanã, de 1999 até 2013, é um fator a qual considero importante para se pensar o aumento do custo. Anteriormente o administrador era o governo do Estado (Suderj), que tentava introduzir um “novo modo de se torcer”, retirando os torcedores que tradicionalmente torcem de pé, com cadeiras por todo o estádio.
• A Suderj tinha como principal receita o aluguel do estádio, reformado para o Mundial de clubes de 2000, os jogos Pan-americanos de 2007. O custo para o clube subiu;
• Para a copa do mundo de 2014, os clubes ganharam um “parceiro” a concessionária do estádio, com seus alugueis, taxas e percentagens correspondentes;
• Alta dos preços do mercado de entretenimento, superior a taxa de Inflação do período. Isso se deve ao “fenômeno” das meias entradas e gratuidades, somadas a própria inflação. Ocorreu também em teatros, parques, cinemas, que tem por si fenômenos específicos de cada setor, como a “shoppinguização” dos cinemas, por exemplo;
• As dívidas dos clubes, preexistentes e as que tem sido construídas no momento, como tem feito o Botafogo que parou propositalmente de pagar seus tributos;
• A “ruindade” e má utilização dos programas de sócio torcedores;
• Novos estádios com maior conforto e gama de serviços, que demandam custo maior para manutenção, tecnologia e instrumentos, entre outros. O que também não significa que estes serviços são prestados de modo satisfatório;

São muitos os motivos, poderia enumerar outros tantos. Os borderôs parecem demonstrar que o maior inimigo do Flamengo, tirando o consórcio e o passado do Flamengo é o próprio ST. Pela falta de fiscalização das carteirinhas de estudante (consórcio e Flamengo) e da própria lei que obriga o clube a dar desconto de “meia pra meia”, a meia entrada para o sócio torcedor. É nítido que nestes jogos o ST comum não é maioria em nenhuma das modalidades. Ou comparece ao Maracanã o torcedor que paga com meia-entrada, o que paga a entrada inteira (o maior “prejudicado) ou o ST-meia (grande beneficiado). LINK COM DADOS DOS BORDERÔS

Calculando com a “tabela do Prejú” (a tabela das taxas, impostos e descontos), para abrir o Maracanã é necessário R$105.000,00 aproximadamente, sem contar com iluminação e taxa de aluguel. Esse é o valor a ser pago pelo contrato vigente do Flamengo, com ZERO PAGANTE E ZERO PRESENTE (obrigado, Cabral). O menor valor que o Flamengo pode cobrar por ST ou qualquer outro torcedor para não tomar prejuízo é de R$ 25,00, mesmo assim colocando 11.000 pagantes no Maracanã (o lucro exato com 11.000 pagantes é de inacreditáveis R$760,00). Nos termos atuais, com o cenário atual é quase impossível que o Flamengo ganhe dinheiro. Esses caras andam fazendo milagre. Para nossa surpresa, o bicho é muito mais feio do que parecia.

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