28/04/2014

"Você gostaria de morar aqui?"



"Você gostaria de morar aqui?" é a primeira contribuição de Pablo Pascual García para o Comunica Tudo, fotógrafo e jornalista espanhol que atualmente reside em São Paulo.

Ao entrar na favela Esmaga Sapo, na zona leste de São Paulo, entra-se em outro mundo. Naquele beco da desolação existe uma dimensão desconhecida para os cidadãos comuns.

Há um mês, a favela sofreu um incêndio que acabou com todas as coisas, e a esperança de 500 famílias que ficaram desabrigadas, sem nada; apenas as cinzas que sujam, de um preto que não sai nem do chão, nem dos poucos colchões que conseguiram salvar. Nem mesmo a comida está limpa, assim como as roupas e as caras das crianças...

Foto: Pablo Pascual García
Um clima de destruição afoga tudo. Só é possível ver os estreitos caminhos de terra que eram as ruas, as madeiras queimadas que já foram casas e a fumaça dos pequenos fogos ainda acesos. Isso é tudo, nada mais.

Os moradores não têm tempo a perder. E com essa lembrança recente de quem, com medo, viu o fogo passar, começam a reconstruir os barracos. Há poucas madeiras, então tudo serve para se transformar em um teto para dormir.

As mulheres se reúnem para avaliar o conteúdo de dezenas de sacos plásticos do que conseguiram salvar.

Foto: Pablo Pascual García
Todos trabalham em comunidade, unidos, dando força uns aos outros. Quase não se falam. Um olhar é suficiente. As crianças brincam alheias ao que está acontecendo. Pulam, jogam bola no chão, vestem e alimentam os seus bonecos... É o futuro da comunidade, destas famílias; mesmo pra quem não gosta, é o futuro do Brasil.

Do outro lado do rio, um canal de água suja e fedorenta passa no canto da Favela. Dezenas de famílias ocupantes se recolhem abaixo do viaduto, tentando tirar o frio de outono dos corpos, arrumando um lugar para descansar até poder voltar aos novos barracos.

A cozinha também é improvisada e é dela que sai a comida para todos, isto é, quando conseguem alguma coisa para comer. Uma escola próxima é a única que ajuda, segundo os próprios moradores. "Quando tem arroz, arroz. Se doam feijão, feijão com arroz. Quando não tem nada, a gente não cozinha e ninguém come", diz a cozinheira.

Segundo os moradores da Favela, a prefeitura só apareceu um dia, deu alguns colchões, uma cesta básica para cada família e nunca mais apareceu. Prometeu voltar, mas só prometeu.

As famílias têm que reconstruir tudo o quanto antes, sob o risco de serem despejados de lá. E irão para onde? Essa é a pergunta. "Mudar de lugar não é a solução", diz Ronaldo, a liderança da Favela. "A solução é a mudança de políticas, não levar a Esmaga Sapo para outro lugar. Ninguém quer morar aqui, só que não temos outro lugar. Você gostaria de morar aqui? A gente precisa de casa, isso aqui não é normal acontecer no país da Copa. Só com um pouquinho desse dinheiro que estão levando as empreiteiras daria para ajudar muitas pessoas como nós."

Foto: Pablo Pascual García
Depois de percorrer a desolação daquele lugar, fotografando em silêncio para não incomodar, é hora de voltar para casa. Arrumo as minhas coisas e digo “tchau!” para as famílias que ficam lá, aguardando mais uma noite. Uma caminhada até o Metrô Penha e pronto, já saí daquela realidade, rumo à minha casa. Lá me espera a geladeira cheia, o computador para editar as fotos e escrever algumas linhas, uma cama confortável... Agora que termino este texto, não consigo tirar da cabeça a pergunta do Ronaldo, "Você gostaria de morar aqui?". Não Ronaldo, com certeza não. Nem eu, nem nenhum ser humano.

(Foto e texto por Pablo Pascual García)

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