Guerra na Síria: os perigos da multinacionalização das comunicações

Nos últimos dias, a guerra civil na Síria tem ocupado grande parte dos noticiários no mundo todo. Aqueles que, como nós, não vivenciaram ...


Nos últimos dias, a guerra civil na Síria tem ocupado grande parte dos noticiários no mundo todo. Aqueles que, como nós, não vivenciaram os acontecimentos diretamente, tomaram conhecimento deles a partir do recorte e da construção midiática dos fatos. Como ocorre sempre que há um desastre, uma guerra ou uma catástrofe, gerou manifestações de solidariedade e de revolta, principalmente nas redes sociais. Parte desses sentimentos vieram do conhecimento que temos sobre a Síria, uma bagagem construída quase que exclusivamente a partir daquilo que as agências internacionais de notícias consideram relevante, visto que 70% do material internacional publicado pelos jornais e noticiários de TV no Brasil é oriundo de grandes agências como Associated Press (AP), Associated France Presse (AFP) e Reuters. Entretanto, não se trata aqui de medir sentimentos, mas de compreender como as agências internacionais de notícias têm construído nossa visão de mundo e os perigos que a dependência desse tipo de informação pode configurar para o campo das comunicações.

Quando elas surgiram, há mais de 150 anos, passaram a configurar como veículo principal de disseminação da informação econômica em escala mundial. Hoje, ocupando o topo da lista das forças motrizes dos meios de comunicação, elas produzem e fornecem um volume inigualável de conteúdo, muito além de informações exclusivas do campo econômico. Combinado o extensivo trabalho de apuração e a ampla rede de fontes jornalísticas que têm a oferecer, a necessidade dos veículos de comunicação por conteúdos oriundos de agências noticiosas é compreensível. Compreensível também é a irrelevância de se debater os prós e contras da pauta gerada por elas, ou a validade de sua existência quando a globalização das notícias pode configurar algo bem mais crucial para a sociedade.

A importância das agências internacionais de notícias se deve à evolução que tiveram nos quase dois séculos de existência. Pode-se dizer que elas evoluíram de serem uma praticidade e conveniência para se tornarem uma necessidade absoluta. O trabalho desses “fornecedores de notícias por atacado” (Phil MacGregor, 2013) permeia desde mídia impressa até a online, indo da televisão até as versões para tablet ou smartphone. O fluxo contínuo de informações coletadas, redigidas e disseminadas por agências noticiosas é fundamental para o giro de conteúdo da maioria dos veículos. Ao voltar-se para qualquer boletim de notícias, em qualquer mídia, você provavelmente irá encontrar uma notícia originária de uma das maiores agências internacionais. Quanto mais perigosa a cena da notícia, seja zonas de guerra ou catástrofes, maior é a probabilidade de ser oriunda de agência.

Toda essa confiança mediática é atribuída à ética da notícia de objetividade e de neutralidade, conceitos que as agências internacionais de notícias advogam como cicatrizes de seu modelo de produção. E vão além. Para elas, sinais de partidarismo e preconceito também são excluídos (Phil MacGregor, 2013). Chris Paterson (2006), ao mesmo tempo que tenta justificar essas qualidades que as agências relatam, também faz um alerta. “Porque as agências de notícias devem agradar a todos os editores de notícias, em toda parte, eles devem trabalhar mais do que seus jornalistas clientes para criar a aparência de objetividade e neutralidade”. Essa maquiagem dos conceitos para torná-los aparentemente suficientes encontra em Pierre Bourdieu (1984), por exemplo, uma crítica acadêmica. Para ele a objetividade leva a uma notícia branda e chata, que não tem missão nem propósito para nunca ofender. E é essa a visão de mundo que as agências internacionais de notícias tem nos passado. No caso da guerra civil na Síria, uma visão muito superficial se considerada a complexidade que envolve os interesses internos e externos que envolvem aquele país.

Multinacionalização

A forma como estão estruturadas as grandes agências internacionais de notícias reflete os perigos da dependência absoluta por conteúdos desta origem. Como descreve Bernardo Kucinski (2007), cada grande agência forma um sistema industrial avançado que recobre e reproduz no campo das comunicações a multinacionalização e a concentração de capital características da expansão das multinacionais.

A partir desta conjuntura é preciso considerar que são elas que reproduzem a relação assimétrica centro-periferia e disseminam padrões de pensamento, valores culturais e codificações ou formas de representação da realidade. As agências estabelecem, ainda, o padrão e a estrutura de linguagem da notícias, tanto que passa a ser notícia apenas aquilo que é disseminado por esses canais, tornando os pequenos e médios veículos de comunicação apenas repetidores do noticiário das agências.

Por estarem intimamente ligadas a países centrais, as agências não conseguem equilibrar a cobertura dos problemas econômicos do Terceiro Mundo, em comparação ao dos países dominantes. Assim, disseminam uma linguagem que fortalece projetos econômicos do centro, como o neoliberalismo, por exemplo.

Na versão em inglês da obra Mecanismo de Intercâmbio de Notícias Internacionais e Regionais, Oliver Boyd-Barrett (1992) alerta que mesmo que as agências possam vir a assegurar o ideal liberal ocidental de troca de informações “plena e livre”, em todo o mundo, esse resultado pode ser obtido ao preço de uma homogeneização de notícias, tão perigoso e indesejável quanto a multinacionalização da comunicação. Basta olharmos para a seção de internacional de qualquer veículo de comunicação para entendermos o caráter unificado da cobertura da maioria dos veículos, como se tivessem sido orientados por uma única pauta e redigidos pelo mesmo editor (KUCINSKI, 2007).

Alternativa

Na tentativa de amenizar esta tendência, Phil MacGregor (2013) aponta uma saída: fornecer meios nacionais mais fortes ou agências mais regionalmente baseadas, além de ONG’s e agências lotadas em países periféricos. No Brasil podemos levantar uma série de exemplos nestes formatos.

Agência de Notícias das Favelas é um exemplo interessante fora dos grandes fluxos de informações do capital por estar lotada em uma favela e por tratar de temas voltados para as periferias. É por isso que a trago como exemplo. Ela foi fundada em 2001 no Rio de Janeiro por André Fernandes, que percebeu que havia uma demanda da grande imprensa por informações originadas na favelas – numa época em que o controle territorial dessas comunidades pelo tráfico impedia repórteres de entrarem lá por conta própria. Hoje a ANF conta com 300 colaboradores e alimenta não só veículos da mídia alternativa, como o Portal Vermelho, a TVT, o Geledés, a revista Forum o jornal A Nova Democracia, mas também da mídia comercial e local, como o portal SRZD, além de blogs e mídias sociais. Também é reproduzida pela mídia comunitária e por entidades da sociedade civil, como a Cooperativa Desacato (SC) e a Rede Mobilizadores e produz o jornal mensal A Voz da Favela, com tiragem de 50 mil exemplares.

Para Oliver Boyd-Barrett (2010), o quadro pessimista do monopólio de notícias tem como sombra principal agências como a chinesa Xinhua ou, ainda, o poder da mídia indiana, tida como uma nova e dominante influência na provisão de notícias nas próximas décadas, rivalizando com a China.

Contudo, a análise que pode ser feita é a de que isso reduziria a influência e a homogeneização das agências tradicionais e, em contrapartida, reduziria também o impacto das notícias ocidentais sobre as audiências orientais. Ou seja, só os produtos de mídia de países emergentes podem desafiar a posição de agências internacionais, mesmo o equilíbrio de vantagem estando longe da realidade.

Entretanto, no Brasil, não há qualquer sinal de que as agências internacionais de notícias possam deixar o topo do monopólio da informação. Na contramão de uma possibilidade de não dependência de agências noticiosas tradicionais, o Jornal do Brasil, um dos veículos mais importantes da imprensa do país, voltará a ter edição impressa a partir de maio deste ano – em 2010, depois de 119 anos circulando em papel, o JB deixou passou a ter apenas versão digital – alimentado por agências de notícias em suas seções de Internacional, Esporte e Política.

A expectativa que fica é a de que agências alternativas possam configurar entre o leque de agências que serão usadas pelo novo JB.

(Via Siliana Dalla Costa, Mestranda no POSJOR/UFSC)
Referências
BOYD-BARRETT, O. & THUSSU, D. Contra-Flow in Global News: International and Regional News Exchange Mechanisms. London: J. Libbey, 1992.
BOYD-BARRETT, O. Assessing the prospects for an Asian reconfiguration of the global news order. Global Media and Communication, Vol. 6 (3) pp. 364-365, 2010.
BOURDIEU, P. Distinction, a Social Critique of the Judgment of Taste. London, Routledge, 1984.
KUCINSKI, B. Jornalismo Econômico. São Paulo, Edusp, 3 ed., 2007.
MacGREGOR, P. International News Agencies: Global eyes that never blink. In: FOWLER-WATT, K. and ALLAN, S. (orgs). Journalism: New Challenges. Centre for Journalism & Communication Research Bournemouth University, 2013.
PATERSON, C. News Agency: Dominance in International News in the Internet. Centre for International Communications Research, papers in international and global communication, 2006. Disponível aqui.

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