12/05/2017

O outro lado do blues, da literatura e do rock – entrevista exclusiva com João Affonso


Compositor, escritor, poeta, enxadrista. Órfão de pai, começou a trabalhar ainda adolescente. Ao longo da vida, pôde realizar muitos de seus sonhos de infância e juventude. Parceiro fiel de Murillo Augustus, João Affonso nos fala sobre Londres, Rock And Roll, Literatura, Editoras e mais. Conheça o outro lado do Blues.

João Manoel Reis Ribeiro de Souza Gonçalves Affonso, mais conhecido como João Affonso, é letrista e parceiro musical do compositor de blues e one man band, Murillo Augustus. Advogado, especialista em Comércio Exterior, pós-graduando pela University of London, também é escritor, poeta e enxadrista. Amante da música e da literatura, João nos conta sobre suas parcerias, participação em livros, literatura russa e muito mais.

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Em primeiro lugar, obrigado pela entrevista. Vamos começar com o outro lado do blues. Nos dois discos lançados por Murillo Augustus (“Passando o Som” e “Bom Pra Cachorro”), das 19 músicas gravadas, 17 foram feitas em parceria com você. Antes desses trabalhos, você já tinha experiência em composição musical com outros parceiros? Você também é músico?

"Tocando mal guitarra" - João Affonso
JOÃO AFFONSO
Eu é que agradeço o espaço que vocês dedicam à música feita fora do mainstream. Minha parceria com o Murillo surgiu de uma forma muito natural. Em função do meu amor pela música, muitos dos meus amigos são músicos ou fãs de música com gosto similar ao meu. E músicos volta e meia precisam de letras para suas composições. Dessa forma, eu já colaborei com letras para canções de alguns deles, mas sempre de uma forma descompromissada, leve. A diferença do trabalho desenvolvido com o Murillo é a continuidade, que vem da nossa sintonia e alto astral. Eu sou o típico músico frustrado. Sei alguns rudimentos no violão, suficientes para juntar alguns acordes e encaixar uma melodia de voz, mas, via de regra, deixo essa arte para quem sabe, como o Murillo. Ainda que eu escreva e seja aficionado por letras, criar boas melodias é, na minha opinião, o ingrediente principal de uma composição, e um dom para poucos.

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Nessa parceria com o Murillo Augustus, quais são as suas principais inspirações ou referências musicais? Seja no blues realizado em solo brasileiro ou internacional.

Com Rick Wakeman, ídolo de infância
JOÃO AFFONSO
O balaio das minhas influências musicais é variado, vai de Leadbelly a Mozart, mas basicamente eu sou fã de rock. Entre os letristas, os principais são Bob Dylan, John Lennon e Roger Waters, nessa ordem. Em português, Chico Buarque, mestre supremo da rima e métrica, e os mineiros do Clube da Esquina, Marcio Borges, Fernando Brant e Ronaldo Bastos, são os meus herois. O blues é, para mim, uma coisa visceral, expressão de dor de um povo oprimido, humilhado. Gosto muito das letras de gente que sofreu o que cantou, como o Brownie McGhee. Nesse ponto, o folk leva uma certa vantagem, pois foi narrado por melhores “escritores”, como Woody Guthrie, Joni Mitchell, Leonard Cohen. Especificamente no caso do Murillo, eu diria que atuo mais como tradutor e intérprete. A persona dele é o fator principal. Ele é o maluco beleza, o cara que todo mundo adora, que num minuto diz coisas desconcertantes para, em seguida, subir no palco e tocar quatro instrumentos simultaneamente. E cantar! Tudo isso bem (risos)! Então o meu desafio é costurar esse estilo dele, divertido e despojado, em versos e rimas. E é algo não combinado. Aliás, nós dois nunca conversamos sobre isso (risos)! Claro que existem algumas exceções, poesias minhas que ele gosta e transforma em música, como “Mente Desperta” e “No Ano Que Vem”, que vai sair no próximo disco dele. “Onde Conhece Amor” também, é minha “visão de mundo”, influenciado pela melodia folk maravilhosa que ele compôs.

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Ainda falando em letras, você é um apaixonado pela literatura. Vi que “Cem anos de solidão” está entre seus livros preferidos (para mim também). Mas você também gosta de literatura russa, poesia e muito mais. Fala um pouco dessa influência literal em sua vida.

Em Londres, com a filha, Amanda
JOÃO AFFONSO
Em meios às dificuldades de ser um adolescente pobre e introspectivo, órfão de pai, que teve que trabalhar desde antes da puberdade, eu tive a grande sorte de ter uma excelente biblioteca em casa. Os livros foram tudo que meus pais não venderam (risos)! Assim é a vida, justamente as coisas mais valiosas têm o menor valor comercial. Como eu não entendia nada do que se passava e ninguém tampouco entendia o que eu queria dizer, os deuses da literatura (junto com os da música) ajudaram a moldar minha personalidade: Camus, Sartre, Gabo, Machado. Alguns desses livros ainda estão comigo, aquelas mesmas edições que eu li e reli. Viraram amigos de uma vida. Anos mais tarde, já casado, travei conhecimento com muitos outros amigos, entre eles os mestres russos, que hoje em dia são os meus prediletos: Gogol, Tolstoi, Dostoiévski, Turgueniev. Entre os poetas, gosto tanto dos românticos, como Neruda, quanto dos perturbados, como Pessoa.

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A literatura russa, segundo minha opinião, parece mesmo ter um algo a mais, sobre qualidade textual, densidade. Você considera que algum escritor(a) europeu ou das Américas tenha atingido o mesmo patamar dos russos?

Casa do Ringo Starr, Liverpool
JOÃO AFFONSO
O único escritor que me parece tão completo quanto os russos é Machado de Assis. Ele tem todo o arsenal: qualidade de texto, profundidade psicológica, humor refinado, criatividade e grande conhecimento da natureza humana. Foi o grande gênio brasileiro da literatura, na minha opinião. Dentre os grandes expoentes do mundo ocidental não-russo, Dickens, Faulkner, Flaubert, Steinbeck e outros, têm algumas ou todas essas qualidades, mas não no mesmo patamar dos mestres russos.

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Falha minha, dentre tantos outros lugares, não ter incluso o continente africano na última questão, lugar tão rico de onde veio Mia Couto, na literatura, e Fela Kuti, na música, só para citar dois exemplos que considero importantes . Embora você já tivesse citado o Camus, a África também tem muito a ver com o blues, nosso grande tema aqui...

Menos 10°C em Amsterdam
JOÃO AFFONSO
Perfeito! Dá pra dizer, sem dúvida, que vem da África a raiz de quase tudo que apreciamos no universo do rock. A cultura, o ritmo, o lamento, a contestação, que surgiu com os escravos que chegaram às Américas, desenvolvida depois nas plantações de algodão do sudeste americano no final do século XIX, que culminou nos primeiros ícones do blues, como Robert Johnson e Muddy Waters, e foi acabar nessa fusão maravilhosa com a música country chamada rock’n’roll. A pedra fundamental está na África: os Stones amavam os bluesman americanos, os Beatles idolatravam os roqueiros dos anos 50, como Chuck Berry e Little Richards, Bowie cansou de reverberar a Soul Music em seu trabalho. E um outro lado do som africano, sem a passagem pelo Cotton Belt americano, mas um pouco influenciado por ele (!!!) pode ser apreciada em discos fantásticos, como o “Graceland”, do Paul Simon, e os trabalhos solo do Peter Gabriel, entre outros. Aliás, o ser humano vem da África (risos).

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Aproveitando essa viagem mundo afora, Londres me parece ser uma cidade muito especial para você, muito querida. Isso tem somente relação com a música e a literatura? Ou há outros motivos?


Em Londres, com a esposa, Alexsandra

JOÃO AFFONSO
Londres é um sonho de criança. Algo que parecia, então, inalcançável, utópico. Antes mesmo do amor pelo rock progressivo e pelos Beatles, dessa ideia da peregrinação aos estúdios Abbey Road, esteve sempre presente a idolatria que veio da literatura, de lugares que aparecem em clássicos como “Um Conto de Duas Cidades” ou “Drácula”, mas, principalmente, do cânone sherlockiano criado por Sir Arthur Conan Doyle. Desde garotinho eu sou apaixonado por tudo que envolve o grande detetive! E o 221B da Baker Street sempre foi um local sagrado no meu imaginário. Esse foi o motivo de querer conhecer a cidade. Mas o desejo de poder voltar lá sempre que possível adveio principalmente da constatação de como o dinheiro público pode ser utilizado em prol da... população (risos)! Parece piada essa perspectiva, no Brasil, mas a grande diferença entre grandes cidades como Londres e São Paulo é o respeito pela res publica. As coisas não são perfeitas, mas funcionam muito bem. E, embora ainda exista xenofobia, é uma cidade onde você escuta dez idiomas diferentes no mesmo dia, de uma forma harmoniosamente caótica. Essa cosmopolitização é tranquilizadora, digamos assim... E tem os pubs e as Cask Ales, é claro (risos)!

"Quando conheci o Murillo" - João. (Da esq. para a dir.: Murillo Augustus, João Affonso,
Rogério Santos, Valdyr Daldon, Luiz José Rodrigues e Rodrigo “China” Rizzi)

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Antes de finalizar nossa conversa, gostaria de saber um pouco de sua participação em livros impressos. Você tem algum material publicado, correto?

Em Stonehenge

JOÃO AFFONSO
Quando adolescente, em Santos, eu publicava material de conteúdo anárquico, subversivo, sob pseudônimos (risos). Isso acendeu em mim a vontade de escrever, mas eu guardava minha poesia no computador, por insegurança. Mais recentemente, publiquei em diversas antologias de contos e poesias. Falta lançar um romance, mas eu me recuso a pagar para publicar, porque acredito que, se uma editora já teve o lucro esperado antes mesmo dos livros chegarem às prateleiras, ela não sentirá necessidade de investir, batalhar, para que seu trabalho tenha sucesso. Por isso, o material que eu entendo ser de melhor qualidade continua inédito. Meu sonho atual é conseguir tempo para montar um site apropriado para poder externar esses impulsos de forma espontânea. Aproveito a oportunidade para dizer que durante a nossa entrevista visitei diversas vezes o Comunica Tudo e achei genial, realmente inspirador. E, sendo apaixonado por números e estatísticas, não pude deixar de notar que em breve chegarão à respeitável marca de um milhão de views. Parabéns!

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Muito obrigado. Neste mês de maio completamos 9 anos de vida, embora durante este período, houve um tempo de 'hibernação' do Comunica Tudo, comandado por coisas como o nascimento do meu filho mais novo, depressão, cirurgia: assuntos que pretendo expor no site.

Gostaria muito de agradecer pela entrevista. Adorei esta conversa e espero que alguma editora faça contato para publicar um livro seu. Para finalizar, o que você pode adiantar ao público sobre o novo trabalho em parceria com o Murillo Augustus, a ser lançado em breve.

João Affonso no Muro de Berlim

JOÃO AFFONSO
Eu é que agradeço pela oportunidade, foi um imenso prazer. Parabéns pelo aniversário do site! Que continue firme e cada vez melhor.

Barcelona
Eu ouvi as gravações instrumentais das primeiras faixas e está arrasador! O cara chamou uma turma de feras para tocar com ele e eu tenho a impressão que será o melhor dos três trabalhos. Estamos no processo de finalização e adaptação das letras às melodias e, para ser sincero, já temos material inclusive para o próximo álbum. Muita coisa boa ficará de fora desse!




João Affonso/contato: joao-affonso@uol.com.br


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3 comentários:

  1. Marceleza, como carinhosamente Murilo te chama, a entrevista é maravilhosa! Quantas referências pra arte! As palavras de João me deram inspiracao artística para movimentos de resistência! Muito obrigada!

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    1. Entrevista sensacional. João Affonso é um grande cara, grande pessoa, grande artista. Conteúdo rico demais. Adorei fazer.

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