23/05/2017

Poesia não se explica - para Manoel de Barros


Quando comecei a lecionar artes para a Educação Infantil, não demorei a perceber o presente que ganhei. São tantas besteiras geniais, tanto olhar ímpar, tanta sinceridade no sentimento que encheu meu coração de artista! São tantas pessoas inspiradoras, tantos cantos inspiradores, dentes que caem, dentes que nascem – uma vitória!

Daí, numa certa aula, falei de forma inocente para as crianças:

- Poeta Manoel de Barros: corpo de velho, cabeça de criança!
- Como assim, professora? - perguntou Samuel.
- Não entendi?! Que engraçado! - exclamou Samara.
- Ela tá falando de poesia, que é coisa que não se explica, se sente - explicou Anita.

E entre tantos meninos que carregavam água na peneira, Anita destruiu suavemente o meu coração de amor!
Façam me um favor? Se inspirem:

AUTO-RETRATO FALADO
Manoel de Barros

Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no Pantanal de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o Pantanal onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

Texto de autoria de
ANNA POULAIN: arte-educadora, designer e artista visual. 
Formada em Belas Artes na UFRJ.


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