03/05/2017

Software livre, quadrinhos, animações: entrevista exclusiva com Leandro Ferra


Já pensou em usar somente software livre? E ainda produzir histórias em quadrinhos, curta-metragens e animações? E mais: viver disso? Você precisa conhecer Leandro Ferra, nosso entrevistado de hoje.

Leandro Ferra é sócio-diretor da Quadro-Chave Produções. Ilustrador, animador, designer, editor e roteirista, é também um defensor do uso de softwares livres.

Henrique (esq.) e Leandro (dir.).
Foto: arquivo Quadro-Chave
Entre palestras, cursos e aulas de inclusão digital, software livre, design, animação e cinema, Leandro está lançando dois interessantes projetos, o LineCatz e o Limbo, juntamente com seu sócio, Henrique Barone. Trabalhando com diversos projetos culturais, audiovisual e produção web há mais de 15 anos, Henrique também é roteirista, desenhista e animador na Quadro-Chave.

Nesta entrevista com Leandro Ferra, abordamos o software livre na produção profissional de audiovisual e histórias em quadrinhos, os dois recentes lançamentos, as animações em curta-metragem que estão rodando o mundo e muito mais. Confira:

COMUNICA TUDO 
Primeiramente, obrigado pela entrevista. Gostaria de saber se realmente é possível trabalhar somente com softwares livres na produção de audiovisual, animações e histórias em quadrinhos com qualidade profissional? Muita gente relaciona software livre com algo de segunda linha ou de menor qualidade. Isso é verdade, na prática?

LEANDRO FERRA
Na Quadro-Chave trabalhamos com design, ilustração, animação e interatividade, produzindo séries para web, quadrinhos, jogos e animações interativas. Tudo isso feito exclusivamente com softwares livres, desde o sistema operacional até os softwares de produção em cada projeto, isso há mais de 10 anos.

Então achamos que os nossos projetos confirmam a qualidade profissional das ferramentas, mas sabemos que existem preconceitos, sim, vou dizer preconceito. Como fazemos isso tudo há muitos anos é claro que ultrapassamos problemas e sofremos com algumas limitações passadas, mas digo passadas. 

Hoje em dia podemos confirmar que não temos limite nas ferramentas, o que acontece é resistência cultural, “o que é de graça é ruim”, “só é bom se pagarmos caro” e isso não só aqui no brasil, mas como sempre o Brasil está aprendendo isso mais devagar. Lá fora se tem uma liberdade de escolha maior, ser livre ou não já não importa tanto, mas sim se dá para trabalhar e se o software é bom. 

E uma coisa que acontece muito, principalmente no Brasil: como cada software tem uma maneira de lidar com a interface ou como se propõe ao usuário final, muita gente às vezes não quer pesquisar ou usar uma ferramenta diferente dos softwares comerciais por acomodação, e como criou uma rotina, exclui a possibilidade de usar softwares livres, muitas vezes por medo e insegurança e outras vezes por não considerar uma competição com o software comercial, mas software livre não é produto e isso é estranho em um mundo comercial.


Trailer do curta "Nódulo", com estreia prevista para meados de 2017

COMUNICA TUDO 
Os cursos, aulas e palestras que você ministra sobre softwares livres visa a inclusão digital também, habilitando qualquer pessoa a se tornar autônoma neste processo de produção ou é mais voltado para a exposição de funcionamento dos programas, etc?

LEANDRO FERRA 
Quando damos aula, temos em mente que não estamos passando apenas conteúdo, incentivamos sempre as pessoas a refletirem o que estão fazendo, com o que e como estão fazendo. O que elas entendem sobre mercado, sobre padrões, imposições. Ter a percepção de que tecnologias digitais vão sempre envolver questões socioculturais. Por isso, ajudamos as pessoas a entender que o uso de software livre vai além da questão técnica. 


É também muito importante para nós apresentarmos e discutirmos este assunto, pois o software livre evolui através de envolvimento, da participação das pessoas. Quando elas compreendem esta questão da liberdade elas ganham autonomia para pensar, produzir e participar. Além disso, já trabalhamos em várias frentes educacionais e com várias faixas de idade, e podemos afirmar sim que através de nossas oficinas você vai poder ter controle total do software que está usando, porque trabalhamos de forma conceitual onde todos poderão transferir conhecimento; cada ferramenta tem um conceito sendo comercial ou livre e isso é o mais importante. Já fizemos desde introdutória até cursos avançados e a curva de aprendizado com software livre é bem alta e isso facilita e acelera na hora de se educar uma turma.

COMUNICA TUDO 
Antes de abordar os novos projetos, gostaria de saber um pouco sobre algumas produções como a animação “Máfia do Mercado”, exibida em 6 países além do Brasil; o curta-metragem “O Santo e o Cão Esquisito” que foi premiado e o jogo para web e dispositivos móveis “Tux Resista”, também participando de festival internacional. Conta um pouco destas experiências e o que isso somou para a Quadro-Chave enquanto produtora.

LEANDRO FERRA 
O curta-metragem “O Santo e o Cão Esquisito” foi o primeiro projeto que trabalhamos na Quadro-Chave em 2006, um projeto de curso da faculdade de dança da UFRJ da Cláudia Vasconcelos. Fomos indicados para participar da pré-produção, direção de arte e pós-produção. Ali foi o início de tudo e temos um carinho muito grande por essa produção, mas foi um desafio interessante.


O Santo, O Cão e O Esquisito from Quadro-Chave Produções on Vimeo.

"Máfia do Mercado" começou com a letra de música escrita pelo Henrique Barone, num momento mais punk da sua vida (risos). Ed Carlos¹, um músico e parceiro nosso, ao saber da letra, apareceu no dia seguinte com a melodia pronta. Curtimos muito a música e aí tivemos a ideia de fazer um videoclipe, uma vontade que a gente já tinha há algum tempo. Não tínhamos ideia do retorno, mas participamos de festivais bem legais, no México e na Romênia, chegamos em finais de categorias e fomos convidados para sessões especiais com o curta. Isso foi bem legal, bem acima do esperado.

O "Tux Resista" é a nossa maneira de mostrar ao mundo, de forma bem humorada e dinâmica, como o software livre pode ser usado para produção e inserir o uso no contexto da história, ou seja, brincar com os assuntos mantendo o discurso. No início, fizemos como um projeto teste utilizando tecnologias web, que teve um retorno, chegamos a ir no evento em Brasília, a SBGAMES 2012. Apresentamos o jogo num estande e percebemos que poderíamos fazer mais com esse projeto, por isso, neste ano de 2017, estamos reformulando e levando o jogo a um patamar mais alto e com participação maior da comunidade. Repensamos o roteiro, refazendo a história e as fases do jogo, e pretendemos lançá-lo no meio do ano.

COMUNICA TUDO 
Recentemente vocês lançaram o Projeto Limbo, que é uma espécie de revista de histórias em quadrinhos gratuita e atualizada diariamente. Como surgiu a ideia para este projeto e por que disponibilizar totalmente free e online?

LEANDRO FERRA 
Sim, o limbo é um Revista online, mas ele é atualizado semanalmente. É um projeto que temos há algum tempo com uma página do facebook e percebemos que poderíamos ampliá-lo para um site. A ideia é que o limbo se torne um selo independente aos poucos, publicando quadrinhos. 

Site do projeto Limbo: http://limbo.quadrochave.com
Sobre ser free, bem, pretendemos ganhar com publicidade e também publicar livros de coletâneas e quadrinhos com histórias completas como graphic novels, para vender no site. Além das histórias semanais, o primeiro número do limbo (uma coletânea do que está no site mais 25 páginas inéditas) estará no Social Comics (o Netflix dos quadrinhos) e também poderá ser adquirido no site, mas nunca deixaremos de alimentar o site com histórias independentes. Por exemplo, neste momentos estamos com três histórias em produção, uma com roteirista externo: então a ideia mesmo é ter uma parte dos nossos projetos com intermídia (isso quer dizer que algumas de nossas animações ou jogos terão histórias em quadrinhos SPOILER) dentro de nossos projetos, variando as mídias e o limbo é uma plataforma boa para publicarmos.

COMUNICA TUDO 
O mais novo projeto de vocês, o Line Catz, está buscando apoio financeiro para sua realização por completo. É uma série animada para web focada em gatos, seu estilo de vida, hábitos e também cuidados com o animal. Como pretende incitar no público a conscientização social, incluindo questões como adoção, etc?
LEANDRO FERRA 
A ideia é a sensibilização inicial através da participação do público contando histórias para gente e nós criarmos episódios ilustrando esta história, mostrando de forma natural que o amor com os animais tem que ser levado em conta. 

Muita gente adota e depois em uma viagem ou algo parecido acaba largando o gato ou o animal, muitas vezes também por achar que ele não se adapta à casa ou ao meio que vive. Cuidar requer dedicação e o que queremos é mostrar com humor que as coisas que acontecem são naturais, que a rotina leva a um amor maior, e através do site poderemos mostrar e interagir com o público, com eles comentando e apoiando o projeto para que ele se torne uma ponte também para projetos sociais que ajudam os animais. 

Nossa intenção é possuir um cadastro para o projeto e também interagir com esse lado, mostrando suas necessidades, indo ao local e fazendo reportagens, mostrando a realidade e como os usuários do site podem ajudar aos projetos, assim criando uma ponte através do uso do audiovisual. 

A animação tem um poder de conscientizar através de pequenos gestos. Temos intenções de ir em escolas, levar os projetos que estarão cadastrados no site para as escolas, para conscientização, ou seja, usar a animação como um gancho para assuntos essenciais dentro do contexto de adoção e cuidado de animais. Mas para isso precisamos da ajuda de todos para fazer isso acontecer e a plataforma apoie.se nos ajuda nesse sentido, criando um clube de usuários que sempre estarão contribuindo para o projeto.


COMUNICA TUDO 
Aos criadores de animações e histórias em quadrinhos ainda iniciantes, quais as dicas que você pode passar, além dos softwares livres e muito empenho, sobre como conquistar espaço nesta área? Como e onde lançar material autoral?

LEANDRO FERRA 
Hoje em dia com a internet, é um pouco mais fácil fazer com que as pessoas te conheçam, e se ela tiver um bom material, pode ganhar um público independente. Aqui no Brasil, nos últimos anos, o país se transformou e hoje em dia muitas editoras menores estão se juntando, colocando roteiristas e ilustradores em coletâneas, fazendo uma ponte que não acontecia muito por aqui, mas tem comunidades e sites como o Social Comics que facilitam na publicação do material e você ainda consegue ganhar dinheiro através de visualizações do seu material. 

É claro que tem que ter um tempo separado para isso e ritmo nas publicações, nunca parar de publicar porque todos querem muito material novo. Sempre lendo muito. Leia muitos quadrinhos e literatura em geral, isso faz com que você possa contar histórias mais ricas. Muita gente acha que viver numa bolha e criar um mundo é legal, mas você tem que achar seu traço, estudar como os artistas encaixam em quadros certas imagens de suas histórias, muitas vezes de forma genial, e estudar a relação entre os quadros, isso é muito importante. 

Com relação às animações é basicamente a mesma coisa, só que vídeo é mais fácil de viralizar, as pessoas assistem muito pelo celular e tem que levar isso em conta. Não se isolar, sempre estar pronto para críticas, mesmo que elas muitas vezes não sejam justas.



COMUNICA TUDO 
Antes de finalizar, gostaria de agradecer pela entrevista. Também quero aproveitar para perguntar: quais são os planos da Quadro-Chave para este e o próximo ano? Teremos mais projetos para serem lançados?

LEANDRO FERRA
Sim, teremos, além do linecatz e do limbo, estaremos lançando duas animações em curtas metragem: o "Nódulo" que está em processo de finalização e possivelmente "A Chance", outro curta de animação provavelmente no segundo semestre e o jogo "Tux Resista" (dessa vez reformulado). E dentro do projeto limbo lançaremos até o segundo semestre três histórias em quadrinhos completas, não seriadas, no site. Obrigado pela oportunidade de falar de nossos projetos e do que acreditamos.




Ed Carlos¹ - Musico, compositor e produtor musical nasceu no Rio de Janeiro e quando adolescente mudou-se pra Brasília onde conheceu as principais bandas da época que faziam sucesso no Brasil e exterior. No inicio de carreira tocou em bandas punks nos porões da capital até conhecer o blues, que mudou sua maneira de tocar, compor e mais tarde produzir músicos e bandas.Atualmente faz parte do projeto Mola Mestra de música autoral cantando e tocando guitarra e produzindo alguns artistas da região dos lagos onde mora.
Na quadro-chave fez uma parceria importante no curta/clipe Máfia do mercado mostrando toda sua veia punk na trilha do clipe, e em outros projetos atua sempre fazendo trilhas sonoras para animações e jogos, usando sua pegada blues e jazz já fez trilha para alguns episódios no Linecatz e fez a música tema para série Podre Vida. O próximo passo da parceria é no curta metragem Nódulo que entrará com 3 músicas no curta metragem.
Também tem um canal do youtube chamado Sala de Casa Produções onde ele convida artistas para seu home studio para debater e mostrar que existe talento muito além de nossos ouvidos.


LINKS

Quadro-Chave: http://quadrochave.com

Limbo: http://limbo.quadrochave.com

Line Catz: http://linecatz.quadrochave.com

Podre Vida: http://podrevida.quadrochave.com

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