19/06/2017

#DepressãoComunica - relato de uma leitora


Recebi na semana passada, por email, o relato de uma leitora a respeito da coluna #DepressãoComunica, da doença, da admiração pelo Comunica Tudo e mais. Li várias vezes antes de responder, emocionado e com os olhos em lágrimas. 

Esta é a terceira postagem da coluna #DepressãoComunica. Renata Oliveira, a leitora do Comunica Tudo e autora do email, permitiu a reprodução integral do texto: brilhante, sensível, coerente, belo, para dizer o mínimo a respeito. Sabendo que é difícil falar sobre depressão, com depressão, em depressão.

Agradeço mais uma vez por compartilhar a experiência conosco. Precisamos falar sobre depressão. Por motivos particulares e nem tão difíceis de imaginar, tenho vontade de abandonar este projeto, o Comunica Tudo: cansaço, desânimo... Mas este email, mais uma vez, me fez repensar tudo isso. E até agora, cá estamos.

Sem mais. Leiam o relato de Renata Oliveira:

"Oi, Marcelo, acompanho o #ComunicaTudo faz tempo, e muitas vezes o seu blog foi uma referência importante pra mim, apesar de nunca ter interagido, provavelmente por timidez. (talvez uma ou duas vezes)

Passei por uma depressão. Na verdade, não sei se já passou, ou se o medo de que ela volte, de certa forma, ainda seja uma permanência disso em mim.

Começo a me colocar em movimento e ver as coisas com certo distanciamento, o que não impede, ainda, disparamentos de coração ao escrever ou falar sobre o assunto.

Gostei da sua iniciativa de criar esse espaço no blog. Porque a depressão é individual, mas também é sintoma do tempo em que vivemos, é uma forma atual de sentir dor. Talvez em outros momentos as dores tivessem outros nomes ou outras formas. O que vejo é que essa coluna é totalmente coerente com o restante do seu trabalho, já que te vejo estabelecendo relações potentes com a atualidade e buscando estar no presente. A depressão é uma forma de doer contemporânea.

E acho que, além da sua iniciativa ser boa, seus dois textos tem uma medida muito bacana.

Penso muito nisso, em como falar da depressão sem o tom confessional do "pequeno segredo sujo" que vai definir o que sou... ninguém é um depressivo, mas pode ser alguém num estado de depressão. E isso é muito difícil. Primeiro porque temos memória e fazemos comparações com outros estados, de menos dor, de mais movimento, de maior afirmação.

E, além dessa comparação pessoal entre estados de ser, existe uma cobrança social em relação à depressão, que ajuda a manutenção do silêncio sobre ela. Uma desconfiança contínua em relação a quem vive essa doença, que se manifesta em posturas, muitas vezes não ditas, mas que dizem que seria tudo uma questão de vontade, determinação, que se você quisesse não estaria assim. Coerente com uma sociedade que aceita que cada um seja empreendedor de si.

E, pra piorar um pouco mais, uma característica da depressão é exatamente essa dúvida sobre si mesmo. O olhar de desconfiança do outro “gruda” mais em você, no caso da depressão. É mais difícil tocar o foda-se, a dúvida do outro reforça a sua. Não sei se isso acontece com você.

Mas talvez isso me ajude a explicar o quanto estive, na depressão, cercada por algumas pessoas assediadoras e invasivas, que adoravam definir o indefinível, que queriam suprir minhas dúvidas, não ajudando a construir um caminho, mas oferecendo (impondo?) seu pacote de verdades e passando ao ódio quando eu não conseguia engolir o pacotão. E isso reforçava o ciclo, se sentir odiado pode ser “prova” de que você é realmente ruim e blábláblá...

É difícil mesmo encontrar a medida para falar da depressão sem cair num tom confessional, ou mesmo vitimista. Não que falar sobre depressão seja vitimização, mas o fato é que a depressão afeta radicalmente a linguagem.

Não se reconhecer na sua língua, não ter mais uma língua, desgostar, ou não se reconhecer no que se diz, eram sensações constantes pra mim. Uma fala que se desculpa, ou que de repente é mais afetada ou agressiva que deveria, reatividade, uma tendência à redundância, ou uma espreita constante pela resposta do outro para prosseguir, ou necessidade de afirmação continuada... são estragadores da linguagem e do estilo. É difícil falar estando em depressão. Por tudo isso, falar da depressão quando se está deprimido parece, de saída, comprometido ao fracasso. É normal se calar. Eu tinha um diário e isso foi imprescindível pra me segurar e pra tentar reencontrar a minha língua.

Também ruim é a abertura para diálogos que não são aqueles que gostaríamos de estabelecer, a seta que erra o alvo e atinge um outro lamuriento, que goza na lamúria - e geralmente não está com depressão. O depressivo, acredito, não goza com a lamúria. O depressivo quer se livrar da dor.

Eu vivia num estado permanente de ressaca moral, sempre desconfiada de não ter usado as melhores palavras, ou ter sido rude, ou não ter sido clara, ou ter sido ridícula, ou equivocada... imagine conviver com alguém que pergunta, a todo momento a respeito do que disse, ou de como se comportou... a depressão afasta as pessoas. O depressivo é chato mesmo.

Não sei exatamente o que faz com que algumas pessoas bacanas ainda permaneçam. Mas, o fato é que elas permanecem. É como se em algum lugar ainda houvesse uma fagulha da pessoa bacana que já havíamos sido um dia.

Até porque é sabido que o deprimido não é qualquer um. O deprimido, muitas vezes, já foi o mais empolgado, o empreendedor, o propositivo, o que acreditava no que o mundo pode trazer e que quer, também, trazer algo pro mundo. Alguma fagulha disso deve ficar em algum lugar e fazer com que alguns ainda acreditem em você. Isso é maravilhoso e me sinto muito grata a todos os que ficaram.

Talvez essa seja a primeira vez em que me percebo escrevendo, ou pensando, sobre a depressão “de fora”. Acho que tem um pouco de distanciamento aqui, sim.

Talvez o fato de te admirar e tentar escrever um texto pra você tenha feito com que eu encontrasse um tom um pouco mais próximo do que acredito que deva ser.

E, sabe? Apesar da dor, acho que a depressão – depois de um processo, a partir do momento em que já possibilita algum distanciamento - traz uma oportunidade de nos reconstruirmos em outros termos que talvez muito poucas coisas na vida possibilitem. Tenho pensado sobre isso.

Mas já é outra conversa,
Força aí! Tô torcendo por você,"

#DepressãoComunica: nova coluna do #ComunicaTudo. Nela, relato minha experiência pessoal com a doença (em tratamento), crescente no mundo todo e causadora de males inimagináveis. Quer falar sobre sua experiência? Mande-me email: marceloaugustodamico@gmail.com - precisamos falar sobre isso.

(Via Marcelo D'Amico com Renata Oliveira)


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4 comentários:

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