26/07/2017

Acho que vou de...., já defequei!


Um entrave na minha vida social pós-tetraplegia, assim como na de muitos cadeirantes em condições semelhantes, pessoas que sofreram AVC (acidente vascular cerebral) e outros tipos de deficiência, é o Intestino Neurogênico – outra consequência da lesão medular, como a Bexiga Neurogênica – tema do artigo anterior, “Tá na hora do cat!”. Então, também faz parte da reabilitação física, uma Reeducação Intestinal, seja para a prisão de ventre (muito comum entre nós tetraplégicos), como para evitar o intestino solto, por exemplo.


Particularidade íntima do lesado medular, o funcionamento do seu intestino depende da intensidade da lesão e da altura dela na medula (cervical, torácica, lombar). Então, um cadeirante pode ter algum ou nenhum controle intestinal e dos seus esfíncteres anais, assim como pode ter alguma ou nenhuma sensibilidade dos mesmos. Eu, por exemplo, tenho a sensação, mas não tenho o controle. Sinto previamente quando preciso ir ao banheiro, se estou com o intestino funcionando bem. Mas quando estou com o intestino solto ou com diarreia...

Mesmo com uma alimentação balanceada, comendo fibra, bebendo bastante água e ingerindo alimentos que ajudam no funcionamento intestinal, um lesado medular também perde o controle do intestino: a incontinência fecal. Uma pessoa literalmente enfezada, que não consegue eliminar as fezes, ou com medo de sentir vontade e não conseguir segurar até chegar ao banheiro, dificilmente sairá de casa. 


Como bem explica a Dra. Dariene Rodrigues no blog da 'Lado B Moda Inclusiva', "após uma lesão medular, o sistema nervoso não consegue mais controlar a função intestinal da mesma maneira como fazia antes. Para a maioria das pessoas, o processo digestivo é controlado a partir do cérebro por reflexos e ações voluntárias". Assim, dependendo do tipo de lesão, pode-se desenvolver o intestino reflexivo (espástico), ou o intestino arreflexivo (flácido).

O site 'Vida Sobre 4 Rodas' esclarece que o intestino reflexivo é resultado da lesão cervical ou torácica, que interrompe as mensagens entre o cólon e o cérebro:

"A medula espinhal ainda coordena reflexos do intestino. Apesar de não sentir a necessidade de eliminar as fezes, os movimentos peristálticos (movimentos involuntários impulsionados pela musculatura e coordenados pelo sistema nervoso autônomo no tubo digestório, iniciando-se no esôfago e terminando no reto) persistem. Neste caso o cólon responde com movimentos peristálticos reflexos para empurrar as fezes, quando ocorre o estímulo dígito anal ou químico". Já o intestino arreflexivo ou flácido, que é resultado da lesão medular no nível lombar e sacral, ou ainda em ramos nervosos intestinais, o site explica que, "neste caso haverá diminuição dos movimentos peristálticos e redução do controle reflexo do esfíncter anal."

Até aí, tudo bem. Pois quando nascemos com alguma condição especial de saúde, ou passamos a ser enquadrados como "deficientes físicos", nós ficamos bem cientes dessas novidades. Seja através de profissionais de enfermagem, leituras e pesquisas na internet, aprendemos o significado disso tudo e até encontramos dicas de alimentação e práticas que nos ajudam no dia-a-dia, tanto para eliminar as fezes, sem ficar com o intestino preso, quanto para evitar perdas com o intestino solto. 


No entanto, não é fácil encontrar informações que ajudem a enfrentar emocionalmente situações como algumas que já vivi: estava sentado numa mesa de bar entre amigos e minha namorada, quando senti que o meu intestino soltou e eu simplesmente fiz na calça. Não havia o que fazer, nem deu tempo de fazer nada. Tive que ir embora, contar com ajuda para me lavar e me trocar, e isso me trouxe a tona sentimentos de impotência, vergonha, tristeza, estresse e irritação.

E já que não é sempre que o nosso organismo funciona como esperamos, do mesmo jeito que podemos evitar perdas de urina, por exemplo, também podemos evitar o constrangimento da incontinência fecal. Então, se vai precisar de ajuda caso aconteça uma perda de fezes, tente não piorar a situação ficando arredio, mostrando seu descontentamento e inquietação pelo ocorrido e, assim, dificultando todo processo. Infelizmente não podemos controlar nossas funções biológicas, mas podemos controlar nossas emoções e aceitar aquilo que não depende só de nós.

Jacqueline Scherer e a filha, Alana
É claro que essa é uma triste realidade, mas, como eu já disse, é melhor gastar energia com aquilo que depende de você. Então, se você sofre com intestino preso por ser tetraplégico como eu, por exemplo, a paulista de 24 anos Jacqueline Scherer é um excelente exemplo de quem soube se adaptar. Tetraplégica há três anos, divorciada e vivendo em Cascavel (PR), ela dá uma verdadeira lição do que e como fazer:

"Eu tenho que fazer massagem (na barriga) todo dia, e abdominal todo dia de manhã. Como eu sou magrinha, dá pra sentir bem o meu intestino, então também faço muita massagem na hora do banho. Mas para mim, só isso já ajuda. E tento manter uma alimentação equilibrada", revela a mãe da pequena Alana, que se acidentou quando sua filha tinha só seis meses.

Como me contou a Jacqueline, que recorre ainda a laxantes (substância que provoca contrações intestinais, que levam o indivíduo a defecar) de fraca intensidade quando essas práticas não dão certo, os grupos específicos no WhatsApp podem ser fontes de importantes informações:

"Eu controlo (o intestino) com alimentação certa e fica tudo tranquilo. Bom, eu nunca tive um acidente não, mas também não sei o dia de amanhã", confessa um desses contatos. Outro colega sugere: "evite remédios, coma muito mamão e laranja, coma o bagaço dela também, isso tudo acompanhado com abdominal, massagens e exercícios que ajudam também". 


Por outro lado, conversando num desses grupos, um rapaz me confessou ter ficado 20 dias sem conseguir eliminar as fezes. Nessa mesma conversa, uma garota escreveu: "tomei lacto-purga esses dias. Foi muito bom". Mas sempre lembrando que, além de laxantes, purgantes ou purgativos existem alimentos e manobras que ajudam a defecar, assim como a lavagem intestinal ou enteróclise, clister ou enema, que consiste na introdução de grande quantidade de liquido no intestino através do reto.

Eu já deixei de fazer muita coisa fora de casa, sair com as pessoas, visitar os amigos, viajar para outra cidade ou participar de festas e churrascos, por medo de passar por esse tipo de incidentes. Mas não deixo mais! Se não posso mudar minha condição física, faço o que está ao meu alcance para diminuir as chances disso acontecer. Depois de fazer cocô na calça algumas vezes e, cansado de me isolar em casa, eu passei a cuidar da minha alimentação, evitar comida muita oleosa, não exagerar nos doces, a beber mais água, praticar exercícios físicos e principalmente, a me aceitar como sou. 


Assim como quando somos bebês ou velhinhos e não temos controle da bexiga e do intestino, a tetraplegia também tem consequências do tipo. E então eu comecei a me questionar: será que vale mesmo a pena me privar de ser feliz por causa disso? Eu prefiro ter alguns cuidados com a alimentação e reeducar meu intestino do que me abalar emocionalmente quando acontece incidente. Eu decidi viver sem medo daquilo que não depende só de mim, fazendo a minha parte e encarando essas questões fisiológicas com naturalidade.

Leia mais sobre "orientações gerais para a reeducação intestinal do lesado medular", pela Dra. Dariene Rodrigues, clicando aqui.

Verduras, cereais integrais e derivados (farelo de trigo, aveia e pães integrais), sementes oleaginosas (linhaça, castanhas, gergelim,amêndoas) e as hortaliças em geral (todos os tipos de folhas verdes) também ajudam a regular o intestino.

Fontes:

O intestino neurogênico do lesado medular (ladobmodainclusiva.com.br)
Lesão na medula, possíveis complicações (www.vidasobre4rodas.com.br)
Incontinência intestinal, tratamentos e causas (www.minhavida.com.br)
Intestino neurogênico (enfermagemnaatualidade.blogspot.com.br)
Lavagem intestinal ou enteróclise, clister ou enema (estudandoenfermagemblog.wordpress.com)
http://blogeficiencia.blogspot.com.br/p/intestino-neurogenico-incontinencia.html


(Via Rafael Ferraz Carpi de Andrade Lima, jornalista e autor da coluna Tetraplégicos Unidos)

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4 comentários:

  1. Ótimas dicas! Obrigada pelo depoimento e esclarecimento Rafael!

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    1. Eu que te agradeço por acompanhar e participar com comentários...

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  2. E seus resultados apareceram super rápidos, né lindo!? Bastou melhorar a alimentação e ingerir mais água <3

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    1. É bem isso "Unknown" vulgo Silvana G., rsrs. Mas então, sim, aparecem rápido. Mas é só desandar com a alimentação que já era, o corpo responde.

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