Tá na hora do cat!

Além do que parece óbvio, não andar, nós, tetraplégicos, paraplégicos e outros tipos de deficiências, também temos em comum a bexiga ne...

Além do que parece óbvio, não andar, nós, tetraplégicos, paraplégicos e outros tipos de deficiências, também temos em comum a bexiga neurogênica, que uma rápida pesquisa na internet revela como sendo uma disfunção da bexiga urinária, “devido a uma doença do sistema nervoso central ou nervos periféricos envolvidos no controle da micção. A bexiga neurogênica pode ser hipoativa (incapaz de se contrair, não esvaziando adequadamente) ou hiperativa (esvaziando por reflexos incontroláveis).”

Usando um linguajar popular, alguns cadeirantes, sejam eles com para ou tetraplegia – mas principalmente aqueles que sofreram uma lesão na medula, completa ou não – não têm controle do xixi, salvo exceções, é claro. Por isso aprendemos, ou pelo menos devíamos aprender algumas técnicas e formas de prevenir esse constrangimento, com profissionais de saúde e enfermagem.


Basicamente, o ser humano tem dois esfíncteres, interno e externo, em se tratando da bexiga urinária. Quando ela está cheia, o esfíncter interno se abre involuntariamente e sentimos a vontade de fazer xixi. É aí que seguramos, voluntariamente com o esfíncter externo, até chegarmos ao banheiro. No entanto, sem controle da altura da lesão para baixo, a pessoa não consegue segurar e a urina simplesmente sai. E fazê-lo na frente dos outros pode ser algo constrangedor, ou não, dependendo de como cada um trabalha questões como aceitação, enfrentamento e controle emocional.


Nossos rins funcionam normalmente conduzindo a urina através do ureter até a bexiga, trabalhando em média a cada quatro horas, quando ingerimos uma quantidade relativamente normal de líquidos – visto que cada um tem uma capacidade de armazenar X mililitros de urina na bexiga. Assim, o Cateterismo Vesical Intermitente, carinhosamente chamado de cat por nós, é uma prática comum e eficaz: trata-se de introduzir uma sonda pela uretra, seja homem ou mulher, a cada quatro horas, para esvaziar a bexiga por completo e assim manter-se seco, limpo, sem correr o risco de fazer xixi na calça. 


Ainda assim, como nem sempre o nosso corpo funciona como esperamos, algumas perdas (de urina que sai sem querermos) são comuns. Por isso, até existem remédios que retém líquidos, absorventes geriátricos e fraldas, sonda externa com bolsa coletora e uma ingestão de líquidos sem excesso, que também ajuda a evitar esses pequenos acidentes. 


Mesmo eu, com a pouca experiência adquirida desde quando fiquei tetraplégico em 2011, até hoje passo por momentos de embaraços. Como recentemente, durante uma sessão de fisioterapia, quando escapou um pouco de xixi na frente da fisioterapeuta. Ela, acostumada e ciente dessa possibilidade, soube lidar com o ocorrido de forma a amenizar o meu constrangimento. Mas já fiz pior. Deixei o banco do carro de uma ex-namorada molhado... aí sim, quase morri de vergonha. Por outro lado, durante uma tarde de cervejada, há amigos que ajudam até na hora de abrir a torneirinha da bolsa coletora, na grama, pra caber mais xixi (risos)!



Sobre esse tema, em conversas nos grupos do WhatsApp, por exemplo, há aqueles que levam numa boa e outros que se desesperam. “Já aconteceu comigo várias vezes. Eu começo a ficar com raiva e a me xingar... Odeio quando acontece isto comigo”, me disse certa pessoa. Outra cadeirante comentou como reage: “Não sei te dizer (como evitar essa situação), mas já aconteceu algumas vezes comigo. Eu começo a rir, levo na esportiva, mesmo morrendo de vergonha”. Já com uma pessoa, que no caso nasceu com mielomeningocele e hidrocefalia essa situação é bem tranquila – talvez pela experiência de uma vida inteira fazendo o cat. “Minha família e esposa me ajudaram nisso. Já fiz xixi em diversas ocasiões. Mas eu lido bem com isso e sempre tiro de letra”, revelou um desses contatos.

A vida é cheia de detalhes. Quem tem movimentos nas mãos consegue fazer o cat sozinho. Eu, tetraplégico, sem movimento dos dedos não consigo. Nessas horas é importante o auxílio da família, parceira (o), namorado (a), esposa (o), cuidador (a), enfermeira (o) ou quem for. E uma coisa é certa: assim como quando somos bebês, ou bem velhinhos, fazer xixi na calça é uma realidade de grande parcela das pessoas com alguma deficiência física, seja o lesado medular, para ou tetraplégico.



Logo, se essa é também a sua realidade – que não depende de você para ser mudada – sugiro que gaste energia naquilo que pode ser evitado: fazendo o cat na hora certa, não abusando de líquidos e diuréticos, usando o medicamento receitado pelo médico, fazendo acompanhamento com urologista ou ginecologista, usando sonda externa com bolsa coletora e buscando informações em postos de saúde, clínicas de reabilitação, escolas de enfermagem e com profissionais da saúde. Eu já me privei de muita coisa temendo isso tudo. Eu levei anos para me aceitar. Mas não deixo mais que esse tipo de coisa me impeça de viver, ser feliz, sair e aproveitar por aí. Se hoje a minha vida é assim, tenho mais é que me adaptar: me prevenir, sim; deixar de fazer, nunca mais.

Entendendo o cat

Com as mãos higienizadas, material estéril e luvas descartáveis, pode ser aplicado um pouco de lidocaína ou xilocaína® na uretra com uma seringa, para lubrificar e ajudar a introdução de uma sonda (ou cateter) pelo canal, até a bexiga. Ao esvaziar a bexiga, o cateter deve ser retirado e descartado.

(Via Rafael Ferraz Carpi de Andrade Lima, jornalista e autor da coluna Tetraplégicos Unidos)

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