11/08/2017

Capoeira, literatura, música, pedagogia e mais na entrevista com Michel Saraiva - Indiano


Capoeirista, contador de história, percusionista, Michel Saraiva foi apelidado como Indiano pelo Mestre Grilo (Luiz Antônio de Abreu Coelho Novo), do Grupo Capoeira Artte Nobre. Formado em Pedagogia, músico, compositor, lançou o EP 'Camaleão' com o grupo Clarear. O trabalho foi abordado no post Você precisa CLAREAR os ouvidos com o CAMALEÃO, aqui no #ComunicaTudo. 

Palestra 'Qual a sua motivação' - Bombeiros Civis 2017 

Palestrante oficial dos Bombeiros Civis, professor de capoeira, educação física e recreação em três diferentes escolas, Michel sempre sonhou em ser escritor, um projeto que sonhava realizar aos 40 anos de idade aproximadamente. Mas hoje, com apenas 26 anos, está prestes a lançar seu primeiro livro, Poemas para Gingar, tendo um segundo já pronto e um terceiro sendo escrito agora. Além de tudo, ainda tem um fato curioso: foi atropelado duas vezes por ônibus nos últimos anos, no Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva ao Comunica Tudo, ele nos fala sobre tudo isso e um pouco mais.

Sindicato dos Securitários, 1997 - Michel em destaque, ao fundo

Comunica Tudo – Primeiramente, obrigado pela entrevista. Com apenas 26 anos, você já acumula tantas atividades que imagino a agitação do seu cotidiano. Mas levando em consideração que você é professor de Capoeira e está prestes a lançar um livro intitulado Poemas para Gingar, com a mesma temática, nota-se que a arte, dança ou luta da Capoeira é uma atividade central em sua vida. Como você a conheceu e como ela foi ganhando espaço contigo?

Michel Saraiva - Desde pequeno, creio que por volta de 3 anos de idade, recordo ver meus tios Hugo Saraiva e Carla Gama envolvidos com a Capoeira e diversos capoeiristas que frequentavam minha casa e a da minha avó paterna, na Região dos Lagos. Eles brincavam de jogar Capoeira, tocavam berimbau e faziam Maculelê com jornais enrolados. Eu assistia a tudo muito admirado, mas sem uma compreensão cognitiva maior. Arriscava os primeiros movimentos e pedia ao meu pai que me colocasse na luta. Porém, naquela época, era raro ter Capoeira pra essa faixa etária. 

Roda de Capoeira. Movimento 'escorpião'

Então minha primeira aula teve de ser adiada até o ano de 1996, quando no extinto Colégio Maranhão, na Adolfo Bergamini - Engenho de Dentro, o Professor Grilo, hoje Mestre Grilo, iniciou turmas de Capoeira para crianças a partir de 5 anos e adultos. A Capoeira pra mim nesse período funcionava como uma atividade esportiva, que além de trabalhar minha ansiedade de berço, desenvolvia outros aspectos no meu campo físico e emocional, que só mais adiante pude, em parte, compreender. 

Movimentação 'L' - Capoeira

No período entre 12 e 15 anos de idade estive afastado da Capoeira e me conectei com muita coisa negativa. Vivia uma vida desregrada. Foi aí, em meio a uma reflexão de como resgatar uma vida digna e decente, que veio a vontade de regressar à Capoeira. Voltei a treinar em uma escola no Morro da Camarista, com a Contramestre Água Viva, aluna do Mestre Grilo, sem pretensão nenhuma de um dia ser Professor. Foi pelas mãos dessa mulher que, além de amor e disciplina, recebi minha primeira graduação, que me permitia dar aula. Porém, só 2 anos após esse fato, que compondo uma música em um bar na favela do Jacarezinho, me deparei comigo mesmo ministrando uma aula pra cerca de 20 alunos que ali estavam e indagavam sobre a arte, o berimbau, etc. 

Contramestre Água Viva e Michel Saraiva - Indiano

Em 3 meses sabia que era aquilo que eu queria. Escrevi um projeto chamado "ser criança", consegui o patrocínio da marca Enjoy e comecei ali mesmo, no Jacaré, minha trajetória como docente nesse ramo. Logo após me dar a corda que marca esse início como Professor, a Contramestre Água Viva parou durante um tempo por motivos familiares, então voltei a treinar com o Mestre Grilo e hoje treinamos juntos. De lá pra cá, coleciono as alegrias e desafios desse ofício. Mas sou muito feliz comigo mesmo e eternamente grato à Capoeira por ter vida e pela vida que tenho.

Comunica Tudo – E quando surgiu o sonho de ser escritor? Que tipo de livro você sonhava escrever?

Apresentação Maculelê

Michel Saraiva - É engraçado lembrar. Não lembro exatamente o momento em que isso começou a surgir, mas tenho guardado cerca 10 "livros" que escrevi entre 6 e 8 anos. Por volta dos 12 anos fui vencedor de concurso de poesias e não me recordo de ter parado. Venho sempre escrevendo algo desde que fui alfabetizado, porém a maioria dos escritos já foi pro lixo.

Apresentação Samba

Minha paixão por livros vem de berço também e lembro-me de pegar livros extremamente complexos pra minha faixa etária e fingir que estava lendo, provavelmente para impressionar o meu pai. Aos 12 anos, lembro que meu pai me deu um livro chamado Aos Pés do Mestre que Krishnamurti escrevera quando tinha 12 anos também. Me apaixonei completamente. Outro amor incondicional foi quando conheci Osho através de seus livros. Outro indiano, como eu (apelido de Capoeira) e Krishnamurti que falava à alma. Uns consideravam o livro como auto-ajuda, mas pra minha graça, habitualmente encontrava-os nas estantes de Psicologia e Filosofia. Isso me fez, aos 14 anos, começar um livro analisando/explicando parábolas bíblicas, que se perdeu quando o computador velho do meu pai veio a óbito.

Congresso Nacional Afro-Brasileiro

De lá pra cá, talvez influenciado pelo realismo de Schopenhauer e sempre perambulando pela Psicologia e Filosofia com Freud, Jung, Sartre, entre outros, percebi que essa tarefa exigia uma dose de empirismo pra se tornar boa aos meus olhos e aos olhos do público. Foi a partir desse momento que passei a ler e a viver mais, entendendo que pra se tornar um bom escritor eu precisaria de bagagem, de experienciar, no mínimo de uma boa história a ser contada. O sonho sempre foi escrever algo próximo a que Krishnamurti e Osho escreveram. Pode ser que um dia, quando meus cabelos brancos derem credibilidade para tal feito, eu escreva. Por enquanto registro meu olhar através de poemas e incorporo aos meus personagens, falas e vivências que são o sumo da minha aprendizagem nessa trajetória curta, mas cheia de peripécias.

Michel e alunos no Colégio Superação

Comunica Tudo – Apenas para registro: adoro todos os autores citados. Aos 12 anos venceu um concurso de poesias e agora está prestes a lançar um livro: Poemas para Gingar. Quais autores são sua influência e leitura na poesia?

Michel Saraiva - Não consigo lembrar precisamente de onde partiu esse gosto em particular. Meu pai escrevia poesias, porém tive pouco contato com as mesmas e o único livro de poesias que li foi após ganhar esse concurso, dado pelo meu avô. Desde cedo fui obrigado pelo meu pai a destrinchar parte dos clássicos da literatura brasileira. Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Gilberto Freyre, entre outros. Em algum momento nesses livros certamente esbarrei com poemas e poesias. Porém, creio que o gosto veio mesmo através das músicas, especialmente de Capoeira e Rap, que sempre gostei. Diria, então, que minhas influências são Racionais, Sabotage, RZN, Gabriel o Pensador, MV Bill e Marechal, além dos autores literários que "fogem" dessa especificidade. Ultimamente, o contato que criei com o samba, com certeza vem colaborando e tece esse pano de fundo que me inclina a escrever poemas. Mas sem dúvida a Capoeira e o Rap são a base disso tudo.

Projeto Social. Ano: 2017

Comunica Tudo – Poesia e capoeira: vamos falar sobre o livro Poemas para Gingar. Como surgiu o projeto deste livro, realizado em parceria, e como esta sendo essa experiência?

Michel Saraiva - Por ser pedagogo e estar sempre em contato com a educação infantil e os diversos livros que têm direcionado para esse âmbito, percebi que os livros sobre Capoeira eram muito defasados, uns dizem que a Capoeira veio da África, outros tratam a Capoeira como sendo uma dança, entre outros inúmeros equívocos que me surpreendeu. 

Batizado Alegria - aluna especial, PCD

Quando fiz o curso de contador de histórias, surgiu a vontade de fazer um livro sobre a Capoeira, mas uma narrativa em forma de poemas. Inclusive tenho o poema que refletiu essa vontade que por acaso não foi escolhida por nós para integrar esse primeiro livro. A ideia ficou adormecida, porém conheci a Ana Carolina, Pocahontas, quando a mesma há cerca de 2 anos entrou para o grupo de Capoeira que eu pertenço. Certa vez, ela sabendo que eu escrevia músicas, pediu que desse uma "olhada" em alguns poemas. Dei sugestões nos mesmos e mandei alguns pra que ela analisasse também e recebi muitas dicas dela também. Chegamos naturalmente a conclusão que precisaríamos passar isso adiante, escrevemos mais e selecionamos os poemas que achamos melhores e que retratavam bem esse contato com a Capoeira. Foi uma experiência fantástica e esse é apenas o primeiro fruto dessa parceria.

Centro Educacional do Méier, Rio de Janeiro

Comunica Tudo – Você tem um segundo livro já escrito e um terceiro em produção. Pode nos dizer sobre o que são estes livros e quando pretende lançá-los?

Michel Saraiva - O segundo livro ainda perambula pelos poemas. Conta a história do Maculelê por intermédio do mesmo para conduzir o leitor em uma narrativa excepcional com bastante poesia e ritmo. Traça a origem dessa luta-dança que teve como berço nosso país para se manifestar. É um conto interessante, com bastante fundamento e significado. Por incrível que pareça também é um tema novo no universo literário e por esses motivos foi escolhido para ser explorado nesta obra.

Trecho do terceiro livro de Michel Saraiva (Exclusividade #ComunicaTudo)

Já o terceiro, ainda em produção, segue uma linha bem diferenciada. Talvez a melhor forma de me fazer entender nesse momento é dizendo que esses dois primeiros são meus filhos, já o terceiro sou eu. O terceiro livro é uma ficção pro universo literário, porém retrata parte de tudo que vi, vivi, absorvi e agora procuro resignificar através da escrita. Ainda não tem nome. O nome do arquivo está como "Botando pra fora", pois foi uma proposta do meu analista escrever sobre esse "lado B" da minha própria personalidade. Paçoca e/ou Douglas Felipe é o personagem principal que vai crescendo em meio à um ambiente horrivelmente sedutor, que lhe traga e educa ao mesmo tempo. Tem um pouco de humor, violência, sexualidade, psicologia, filosofia, enfim, um pouco de tudo que a vida pode nos ofertar. Sem pretensão, percebo que vem se tornando uma crítica, uma vitrine do nu e cru social que me faz refletir bastante e tenho a certeza que fará os leitores percorrerem os becos e vielas se despindo do preconceito e conhecendo um pouco mais.

1º colocado no III Encontro de Camaradas 2017 com a música-poema 'Me leva Capoeira', que está no livro Poemas para Gingar

A pretensão de lançamento do segundo livro é para o ano que vem. Já o terceiro deve esperar mais um pouco, espero que no começo de 2019. Três de janeiro pra ser mais exato. Gostaria de lançar no meu aniversário, contém um simbolismo muito grande nisso pra mim. Mas não limito a isso. Ambos serão lançados, isso eu posso te garantir.

Palestra Racismo e Mito Racial CIEP Saracuruna

Comunica Tudo – Gostaria muito de agradecer por esta entrevista. Gostei muito. Mas não posso terminar sem antes perguntar: que história é essa de ser atropelado duas vezes por ônibus (risos)? Como isso aconteceu?

Michel Saraiva – Primeiramente o prazer é recíproco. Através de perguntas precisas, pude voltar no passado e me conhecer melhor, lembrar de momentos que teceram meu presente e reconhecer o significado de tantos outros que só com o passar do tempo a gente pode, em parte, compreender. Não acredito que tudo possa ser cognoscível, mas em relação ao que é, você me ajudou nisso.

Recuperação primeiro atropelamento

Essa satisfação que os ônibus têm em me dar férias que eu não pedi e trazer com elas um pouco de amadurecimento começou em 21 de fevereiro 2015. Estava na Rua Santa Fé, de skate, às 8h00, indo para a primeira aula de Inglês num sábado lindo, quando o ônibus que me fechou, ultrapassou e não jogou seta pro sentido que viraria. Pegou na minha lateral, me jogando no chão e passando por cima do meu joelho e pé - a roda traseira é dupla. Esfacelou meu joelho, ferrou meu pé e costela. Mas enfim, se não acredita em milagre se torne um. Eu me tornei um e voltei a dar aulas, jogar Capoeira, fazer tudo dentro do limite de sequelas minímas que ficaram em decorrência do caso que aconteceu. 

Aula na escola Tobias Barreto
Atualmente, pouco mais de dois anos depois, dia 07 de junho pra ser mais preciso, enquanto me dirigia de bicicleta para dar aulas no Méier, através da Rua Dias da Cruz (sim, utilizo o máximo possível de transportes alternativos e não poluentes) um ônibus que não respeitava o espaço de 1,5 m, pra completar a façanha, jogou pra cima de mim seu peso todo, e eu procuro acreditar que não foi propositadamente, me derrubou e pra fechar com chave de ouro, ou melhor dias da cruz, ele passou por cima do meu pé, esfacelando o mesmo, fraturando e fissurando. Mas como disse antes, eu não sou atingido apenas por ônibus, também tenho o sortilégio de ser atingido por milagres e essa semana, faltando 3 dias pra completar 2 meses do acidente, eu já voltei a dar aulas devagar (risos).

Michel Saraiva no Facebook: http://facebook.com/capoeiracomindiano/

(Via Marcelo D'Amico)


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2 comentários:

  1. Estou apaixonada pela matéria, do Michel Saraiva, ainda novo e já carrega um legado que marcou e mudou muitas a vida de muitas pessoas. Um rapaz com um futuro brilhante. Parabéns ao Comunico que publicou uma matéria informação que agrega valores Cultural e social com ética e profissionalismo.

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    1. Muito obrigado por prestigiar o trabalho.

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