30/08/2017

Paralisia cerebral: Murilo superou o bullying, adversidades, e nos dá uma lição de vida

Rafael Ferraz, colunista do Tetraplégicos Unidos, hoje abre espaço para a contagiante história de vida de Murilo Pereira dos Santos, portador de paralisia cerebral, jovem de 18 anos e que já superou muitas barreiras neste mundo desigual

Rafael Ferraz - "Frequentando clínicas de reabilitação desde 2012, tive oportunidades únicas e muito enriquecedoras, como jamais pude imaginar. Além de conhecer outras pessoas com o mesmo tipo de lesão medular, podendo trocar informações e aprender um pouco sobre esse meu novo “mundo tetraplégico”, ainda me vi ao lado de pessoas com outros tipos de deficiência, com menos ou mais mobilidade que eu, com mais ou menos dificuldades no dia a dia. E é isso, o contato com as diversidades, que nos torna mais conscientes e menos preconceituosos e preparados para nos aceitar como somos.

Foi, por exemplo, numa clínica de reabilitação que conheci a Lígia Moysés, tetraplégica que me ensinou uma grande lição: “podemos fazer tudo o que quisermos independente da nossa condição. A única coisa que muda é que precisamos fazer algumas adaptações e tomar outros tipos cuidados. Mas é isso que nos torna especiais”. Foi graças a ela que realizei um antigo sonho: saltar de paraquedas. Também foi nessa mesma clínica de reabilitação que tive a honra de conhecer e receber a visita da Deputada Federal Mara Gabrilli e outras pessoas que jamais esquecerei, são muitas.

Mas foi na clínica onde faço fisioterapia e hidroterapia quase diariamente, há alguns anos, que tive o prazer de conhecer um jovem de fibra que é uma lição de aceitação, superação e otimismo. Paciente da minha fisioterapeuta, o jovem Murilo Pereira dos Santos, portador de paralisia cerebral, é alguém que, sem saber – ou não, afinal ele é inteligentíssimo – tem me ajudado muito a superar minha limitação emocional. Cheio de energia, vivendo muito mais do que sobrevivendo, o Murilo é mais que um exemplo, é prova de que uma deficiência não nos resume, nem é obstáculo para evolução. E por isso, ciente da importância de ter voz e poder minimizar qualquer preconceito, que apresento um pequeno relato da vida desse cara que me orgulho em chamar de professor". 

Murilo Pereira dos Santos - "Me chamo Murilo, tenho 18 anos e sou portador de paralisia cerebral, devido a um erro médico ocorrido no parto. O procedimento demorou para ser realizado e tive uma anoxia (falta de oxigênio) muito grande, o que comprometeu a parte motora do meu cérebro. 


Como se não bastasse a negligência, meus pais não foram avisados sobre o meu quadro clínico imediatamente, identificando minha deficiência somente alguns meses depois do meu nascimento, através de exames feitos por conta própria. Após o estabelecimento do diagnóstico, os tratamentos começaram: fisioterapia, hidroterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e equoterapia fazem ou fizeram parte do meu dia a dia.

Sempre frequentei a escola regular. Porém, houve alguns intervalos forçados. O primeiro aconteceu ainda na pré-escola, quando sofri bullying por parte de uma professora. Peguei trauma daquele ambiente e por isso, permaneci um ano afastado. Já o segundo intervalo ocorreu entre o término da pré-escola e o início do ensino fundamental. Meus pais rodaram a cidade em busca de um colégio para me matricular, mas a maioria colocou um milhão de empecilhos para me acolher, resultando em mais um ano longe do ambiente escolar. Atualmente, estou cursando o segundo ano do ensino médio.


Um dos nossos maiores inimigos, o preconceito, sempre esteve muito presente no meu dia a dia. Além do caso de bullying acima citado, houve mais um ataque. Em 2014, me transferi para outra escola. Logo no primeiro ano no novo espaço, os insultos iniciaram-se. Através da internet e do anonimato, recebi dezenas de mensagens com conteúdos cada vez mais pejorativos. Tal violência psicológica me abalou intensamente, gerando a necessidade de acompanhamento clínico. Costumo dizer que o preconceito é o principal empecilho que nós, portadores de deficiência, enfrentamos em nosso dia a dia. Isso porque ele afeta nosso ponto central: a autoestima. Muitas vezes, durante o segundo caso de bullying que sofri, cheguei a me questionar sobre a minha própria capacidade, acreditando naquele conteúdo absurdo que eu estava lendo. Esse é justamente o objetivo dos agressores e a essência do bullying: rebaixar as vítimas, fragilizando-as.


Sempre fui apaixonado por esportes, principalmente pelo futebol. Aos 11 anos, com o auxílio do meu pai, montei meu primeiro time, o Amigos do Mu. Desde então, criei uma relação quase que inexplicável com a várzea. Em 2015, recebi o convite de alguns amigos para participar da comissão técnica do Kana, que disputa a série prata do campeonato varzeano da cidade. Esse foi o modo que encontrei de me incluir no esporte o qual amo. As modalidades adaptadas sempre foram muito distantes da minha realidade, devido à estrutura local ser precária nesse aspecto. Porém, no início de 2017, veio a esperada notícia: uma associação para promover a prática de esporte adaptados iria ser criada, a API (Associação Paradesportiva Ituana). Foi então que, através da bocha adaptada, tive um contato efetivo com o esporte pela primeira vez, alimentando um sonho de chegar a uma competição.


Escrever também é outra paixão que sempre tive. Nessa ação, uma segunda pessoa ou o celular me ajuda, já que sou incapaz de executá-la manualmente. Em 2016, recebi uma sugestão de um professor: criar um blog no qual eu contasse minhas vivências, a fim de contribuir para a vida de outras pessoas, portadoras ou não de deficiência. Então, dei ao blog o nome de Sem Barreiras. Tal projeto me proporcionou uma evolução gigantesca, porque embora eu aborde temas que fazem parte do meu cotidiano, nunca tinha parado para refletir sobre muitos deles.

Existem diversos empecilhos na vida de uma pessoa portadora de deficiência, mas o ponto crucial é a aceitação própria. O modo como cada indivíduo se enxerga irá moldar sua trajetória, suas qualidades, defeitos e, principalmente, determinar a sua capacidade diante da sociedade. Muitas opiniões alheias distorcem a visão sobre nosso grupo, gerando assim um estereótipo frágil. Fato pelo qual somos quase sempre subestimados, diminuindo as oportunidades do grupo em todos os sentidos.


Enfim, são inúmeros os empecilhos que existem na vida das pessoas portadoras de deficiência, mas eles não podem ser vistos como barreiras insuperáveis. Temos que lutar diariamente pelos nossos objetivos, direitos, desejos acima de tudo pela nossa vida. Desistir é um verbo o qual não pode jamais fazer parte do nosso vocabulário. Essa é a mensagem que quero deixar. Espero ter contribuído, de alguma forma, com a vida de cada um (a) de vocês!!"

Blog do Murilo, Sem Barreiras - https://sembarreirassite.wordpress.com

(Via Rafael Ferraz, jornalista e autor da coluna Tetraplégicos Unidos, com Murilo Pereira dos Santos)


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4 comentários:

  1. Sou muito grato por conhecer pessoas tão especiais e evoluídas como o Murilo. Só tenho a agradecer pelas oportunidades de reflexão e motivação que a vida proporciona! Agradeço o editor do Comunica Tudo, Marcelo D'amico, por este espaço e também pela confiança, e muitíssimo obrigado, caro Murilo! Grande amigo e professor. ✨❤

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    1. Eu que agradeço a você, Rafael, e ao Murilo, pelo brilhante relato e exemplo de vida. E que esse pequeno post seja apenas uma semente de coisas maravilhosas para vocês dois.
      Obrigado!

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  2. Fiquei muito emocionada com a história de vida do Murilo e da força de vontade dele de ir a luta. Foi muito bacana Rafael vc ter postado a história dele. Parabéns a vcs dois.

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  3. Obrigado Sandra, ele é mesmo um campeão, bem-humorado e feliz!!! ❤🙏🏼

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