07/08/2017

Punk: inglês ou americano? Los Saicos, banda peruana, pode ser a precursora do gênero



Onde começou o punk? Na Inglaterra com os Sex Pistols? Nos Estados Unidos com os Ramones? Com Iggy Pop and The Stooges? Com MC5? Kingsmen? Essa disputa interminável divide os fãs da banda de Johnny Rotten, os fãs de Joey Ramone e os dissonantes dessa bipolarização.

Provavelmente todo mundo está certo. Ou nenhum.

Em 2012, através do documentário “A Band Called Death” aprendemos que a música punk começou em uma pequena banda conhecida como Death. Fundada antes dos Ramones e dos Sex Pistols. O punk teria então nascido em Detroit, pelo grupo de três irmãos que são creditados, portanto, como não só a primeira banda de punk negro, mas possivelmente a primeira banda de punk dos EUA.



Porém, um documentário da plataforma Noisey está lançando luz sobre o que poderia ser uma das primeiras bandas punk… no mundo. Segundo o registro da Noisey, o punk surgiu na América do Sul, mais precisamente no Peru (!). O grupo em questão foi chamado Los Saicos (sim, pronuncia-se “Psychos”), formado por quatro caras Erwin Flores, Rolando Carpio, César “Papi” Castrillón e Pancho Guevara que tocaram juntos por aproximadamente dois anos na década de 1960 (uma década antes do consenso para o surgimento do punk). Com letras e músicas que mesclam fúria e leveza, a banda canalizava raiva e sensibilidade de garagem, a variada formação de músicos amadores combinou psychobilly, com garage rock e surf rock muito antes de o punk atingir as costas da Inglaterra ou os locais escuros da cidade de Nova York.

O resultado? Um proto-punk raivoso criado na mesma época em que os The Beatles estavam atravessando o Atlântico rumo aos Estados Unidos.

O título de “a primeira banda de punk do mundo” é discutível (e desencadeia debates com as mais diversas argumentações), mas a reivindicação de Los Saicos para o título tem crescido nos últimos anos quando músicos contemporâneos como The Black Lips citam o grupo peruano como influência. “Eles são os primeiros a tocar o que mais tarde se tornou punk”, disse José Beramendi, produtor do documentário de 2012 “Saicomania“, ao The Guardian. “Você espera esse som da América do Norte ou da Europa, mas não é algo que você espera ouvir na década de 1960 na América Latina”.

O novo local de nascimento do punk? O Cine Teatro Country no distrito de Lince, na cidade de Lima, no Peru.

“O punk rock é um pedaço de merda”, explica Erwin Flores, vocalista de Los Saicos no documentário da Noisey. “É música feita por músicos que não têm ideia do que estão fazendo, músicos tocam o que quiserem, e as pessoas que não têm ideia ficam entusiasmados com isso”.

Se considerarmos que os singles bem sucedidos da mesma época dos Los Saicos, “I Wanna Hold Your Hand” e “Oh Pretty Woman”, os peruanos foram, sem sombra de dúvidas algo diferente de tudo o que foi ouvido no período. Algo desconhecido, imprevisível e muito mais selvagem.

Basta ouvir ‘Demolicion‘ que se converteu no hino da banda, para entender do que falo. A canção começa como tantas outras composições de sua época: primeiro a bateria em primeiro plano e, em seguida, a entrada de uma guitarra a la experimentalismos de Dick Dale. E de repente entra o grito rouco de Flores “ta-ta-ta-ta-ta-ya-ya-ya” que começa uma espécie de argumento anarquista (Vamos botar a baixo da estação de trem / Vamos botar a baixo da estação de trem / Demolir Demolir Demolir / demolir, demolir a estação de trem) que quebra qualquer expectativa de uma música dançante ou romântica. O argumento é inconsciente, despreocupado e um vandalismo divertido. Uma mistura perigosa e irresistível. Destruir por destruir. Destruir para se divertir. Punk!


Um dos benefícios de ser o punk antes do punk é não ter que deixar a pele em encontros com a polícia ou a saúde em muquifos onde você vai se apresentar diante de 30 pessoas e você vai acabar brigando seriamente com faca, cacos de garrafas, correntes e bicudas de coturno com pelo menos metade deles.

Mas não foi assim com os Los Saicos. Não tiveram uma carreira meteórica e internacional como o Quarteto de Liverpool. Esses garotos de classe média, fingindo serem maus, mal tiveram tempo para alterar o nome da banda (o original era Los Sádicos mas esse era exagerado) e, em seguida, estavam lotando matinês do Cine Colón de sua cidade para se apresentar diante de uma multidão efervescida por aquele som tão incomum entre as bandas de seu país no momento: composições próprias. Eles começaram a aparecer a todo momento na TV e eles ainda têm o seu próprio programa, O Show dos Saicos. Para eles, ser punk antes do punk foi simplesmente chegar, tocar, berrar e vencer.



O texto da coletânea compilação Los Saicos — Wild Teen Punk from Peru (clique na capa para ouvir), escrito por Paul Hurtado de Mendoza, resume perfeitamente o que provoca escutar hoje em dia a música do grupo peruano:

“Los Saicos praticaram o luxo de seu ódio visceral sem qualquer mordaça e conectaram com o público em geral. Conjugaram raiva, arrogância, anarquia, com letras que iam diretamente ao ponto e um talento musical primitivo (nenhuma das suas canções tem duração superior a 2:30 minutos) na mais clara atitude do punk da costa oeste da América do Sul. Seu rolo selvagem não tinha absolutamente nada a ver com o que foi feito ao mesmo tempo pela Argentina (Sandro y Los De Fuego, Brasil (Renato e Seus Blue Caps) ou no México (Enrique Guzmán y Los Teen Tops) … Eles foram uma ameaça social.”

Eles tinham um som cru, de garagem, e aparentemente, alcançaram essa sonoridade sem nunca ouvir qualquer garage rock americano autêntico. Eles, no entanto, conhecem todas as grandes bandas da invasão britânica. Muita gente afirma que eles realmente inventaram o punk, dentre eles Legs McNeil, autor do livro Mate-me Por Favor, diz que eles o fizeram.


Uma parte enorme da estética Los Saicos deriva dos gritos demolidores de Erwin Flores. Sem isso, eles não são tão diferentes das outras bandas garage, exceto por suas letras niilistas, é claro. Segundo Flores, seu primeiro show na frente de um público elegante foi inicialmente recebido com silêncio atordoado – e depois, após uma pausa, aplausos arrebatadores. Você pode entender a reação de choque do público apenas lendo os títulos sombrios das músicas como “Salvaje” (Selvagem), “Camisa de Fuerza (Camisa de Força), “Fugitivo de Alcatraz ” e “El Entierro de Los Gatos” (O Enterro dos Gatos).

No som da banda se percebe Elvis Presley, rock’n’roll clássico e influências mais recentes (Beatles incluído) nos temas mais inofensivos, mas há aquele algo misterioso despertado pelo inconsciente coletivo que coloca a música dos Los Saicos a muitos passos a frente do que se produzia na época. Flores conta que os engenheiros de som não entendiam o que eles queriam fazer (o movimento rock’n’roll ainda era bastante desconhecido no Peru) e que dá as canções não só essa textura cavernosa, mas também um sentimento muito grato de experiência imprevisível, tentar algo novo que ninguém sabe bem onde vai terminar. O resultado final é deliciosamente falho e o toque amador, sem dúvida, é parte do charme, assim como os seus temas (fugas de prisões e manicômios) relativamente perigosas no contexto da época.

A banda foi punk na natureza efêmera de sua existência: vítimas de egos dentro do grupo e modismos, sua discografia é resumida em apenas seis singles com seus lados B e, de fato, a última (“Besando a Otra“/”Intensamente“) foi gravado por apenas dois componentes e em um selo diferente algumas semanas antes da desintegração total da banda.

Parece que, lentamente, o grupo começa a ser colocado em seu devido lugar de mérito. Lux Interior, do The Cramps, era um fã declarado e há alguns anos na Espanha todos os seus singles foram compilados em uma coletânea pela Munster Records em boxset com livro incluído que imitava meticulosamente os detalhes e informações desses vinis originais tão escassos que fez com que esses caras fossem durante anos um segredo.



Os Los Saicos se reuniram recentemente, já sem Rolando Carpio (co-autor da maioria das músicas), que morreu em 2006. Eles realizaram alguns shows na Espanha, no Funtastic Drácula Benidorm, e de fato tem que esta foi uma festa mesmo onde eles se atreveram a tocar uma música nova que nunca fora ouvida. E eles conseguiram também rodar pela Argentina, o que lhes rendeu um novo momento de glória. Ninguém se lembra deles em 1977 e eles não foram nem mencionados quando tudo explodiu naquele som rápido, pesado e violento. Mas em 2006 o prefeito de Lince ordenou que uma placa fosse colocada no cruzamento das ruas Miguel Iglesias e Julio C. Tello afirmando que o punk nasceu naquele local. Pouco a pouco, os Los Saicos recebe um pouco do retorno daquilo que eles plantaram com mais de uma década de antecedência.



Aos meus ouvidos tem algo que soa punk junto do surf, psychobilly e garage. E não me admiraria em nada que Los Saicos tocassem no CBGB, consigo ver Kristal bater o pé na audição e um banner de fundo de palco com uma Macchu Picchu com pichações, colagens, posters e stickers DIY, mas sem lhamas de moicanos, poncho e coturnos. Acredito que o título que pode ser outorgado aos Los Saicos é o de “Avós do Punk”, é possível encontrar no som deles as bases mais próximas do que mais de uma década depois viria a ser o punk.

E aí? É punk? Não é? Comente.

Assista ao documentário da Noisey.



(Via Diego Pignones)


VOCÊ é muito importante para nós: queremos ouvir sua voz. Deixe um comentário após 'Related Posts'. Apoie o #ComunicaTudo: clique nas publicidades ou contribua. Saiba mais através do email marceloaugustodamico@gmail.com

0 comentários:

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.