Sim, tem que ter amor

Este não é um texto fácil de escrever. É um artigo embasado nas minhas vivências e experiências como um homem tetraplégico, apesar de te...


Este não é um texto fácil de escrever. É um artigo embasado nas minhas vivências e experiências como um homem tetraplégico, apesar de ter idealizado esta coluna para contribuir ao máximo com pessoas que tenham qualquer tipo de deficiência, ou nenhuma.

Ainda assim, de cunho emocional, espero poder colaborar com os leitores que buscam ter uma melhor convivência, sejam da família de alguém que precisa de cuidados, suporte ou auxilio no dia a dia, sejam tetraplégicos como eu, cuidadores ou enfermeiros, amigos ou namorados, ou qualquer um que conviva ou é alguém que do dia para a noite tenha perdido a capacidade de gerir a própria vida, após sofrer uma lesão medular, por exemplo, o que acaba influenciando não só no físico, mas principalmente no lado emocional.


Como escrevi por aqui em meu primeiro artigo (Tetraplégicos, uni-vos) sempre fui independente, mas de personalidade forte. Músico da noite, fotógrafo e jornalista, eu tinha uma vida bastante movimentada e achava que não precisava de ninguém. Então não foi, como ainda não é, fácil lidar com questões como precisar de alguém para toda e qualquer atividade, desde a hora de acordar até deitar para dormir. Eu, de manhã, só consigo abrir os olhos. Não consigo sair sozinho da cama, não consigo me trocar sem auxilio, nem tomar banho ou me transferir para a cadeira de rodas, ainda que eu tenha movimentos nos braços. Imagine os mais debilitados...

Desde 2011, quando eu caí duma escada do terceiro andar e fraturei a quinta vértebra cervical, que me deixou tetraplégico, tenho feito terapias de todos os tipos para manter e não perder os movimentos do corpo que ficaram preservados. No entanto, cuidando somente do meu corpo, deixei de lado outra parte muito importante e essencial para quem busca, além de qualidade de vida, consciência e controle emocional: a cabeça! Sim, a cabeça, responsável por gerenciar o lado emocional, autoconfiança, aceitação, autoestima, paciência e sentimentos que afloraram por estar enfrentando essas condições. Afinal, quem é perfeito?


Assim como sempre fui e sou uma boa pessoa, carinhoso e educado, eu também sempre me achei lindo, invencível... me achava “o tal”, querido e amado por todos – ainda que eu não fosse. Mas ao deixar de lado minha vaidade, tendo menos de um terço do meu corpo funcionando, ao me ver incapaz de tocar meu violão e fotografar, precisando de ajuda até na hora de ir ao banheiro entre outras dificuldades que ainda estou vencendo, comecei a me ver e agir como um cara intolerante, frustrado, grosseiro e às vezes estúpido, mesmo dependendo dos outros, mas contra minha vontade e minha natureza. Então, foram anos difíceis.

Eu, particularmente, sinto muita dor há muito tempo. Sofro diariamente há mais de seis anos com dores neuropáticas. São dores crônicas causadas pelos nervos que foram partidos, danificados, além das dores nos músculos que trabalham dobrado para auxiliar aqueles que não funcionam mais. Enfim, não se trata de apenas não andar, não conseguir fazer o que gosto, não ter atividades de lazer.

Eu sei e entendo que isso tudo é meu. E nada me dá o direito de destratar as pessoas, muito menos aquelas que cuidam de mim. Pelo contrário, é justamente por esse carinho, ao dividir seu tempo com quem precisa de cuidados que devo demonstrar reciprocidade, ou no mínimo gratidão e respeito. Mas não é simples assim. Na realidade, eu não enxergava isso. Nem praticava isso conscientemente.


A convivência é muitas vezes responsável por unir as pessoas, ou afastá-las. E é aí que devemos prestar atenção. Como na velhice dos pais, seguindo a ordem natural da vida, quando os filhos passam a cuidar dos seus pais, um jovem rapaz que tenha sofrido um acidente vascular cerebral (AVC), ou uma mulher vítima de um tiro com sequelas neurológicas, um homem com paralisia cerebral ou um tetraplégico, podemos voltar a necessitar de cuidados ou auxílios. Então, seja qual for sua situação financeira, com cuidador, enfermeiro, mãe, pai, ou irmão, se inevitavelmente vamos precisar de cuidados, então devemos ser um prazer em ser cuidados, acompanhados ou auxiliados por quem quer que seja.

Sempre em contato com a minha terapeuta, numa abordagem comportamental cognitivista, trabalhando com crenças e aprendizados, recebi um lindo vídeo. Nele, apesar de tratar-se de outro público, a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes, especializada em ajudar pacientes terminais a “aprender” a morrer, resume muito bem tal realidade: “Já que você vai dar trabalho, tem que ser um trabalho gostoso de ser feito”. E somente tentando ser “uma pessoa gostosa de ser cuidada”, eu fui ver que tudo pode fluir de forma diferente.


Ainda que não dependa, é claro, somente de quem está na condição de deficiente físico, intelectual ou múltiplo, o que também é fato, você já ouviu dizer, ou parou para pensar que, “recebemos de volta exatamente aquilo que damos para o universo”? Ou que “ganhamos das pessoas aquilo que oferecemos a elas”? Eu sim! E só agora as coisas estão mudando de verdade para mim.

De qualquer maneira, independente de crença, religião, controle emocional, condição financeira, ou física, no papel de quem é cuidado ou do cuidador, eu descobri com muito esforço e sofrimento, depois de anos, que só existe uma única verdade que me parece ser compartilhada por todos nós: amor. É com amor no trato, nas palavras e nas ações que tornamos tudo mais fácil.

Se isso não faz sentido para você, pode fazer para alguém que conheça. Enfrentar uma situação onde você se priva de algumas coisas da vida, além da imobilidade, dependência e falta de autonomia é algo muito difícil. Mas com amor, tudo fica mais fácil.

(Via Rafael Ferraz Carpi de Andrade Lima, jornalista e autor da coluna Tetraplégicos Unidos)



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