31/08/2017

Teatro do Incêndio inaugura sede com espetáculo que evoca a sabedoria popular

O Teatro do Incêndio inaugura sua nova sede, no Bixiga, no dia 16 de setembro (sábado, às 20h) com a estreia do espetáculo A Gente Submersa, que tem texto e direção assinados por Marcelo Marcus Fonseca.

Esta é a primeira parte do trabalho de pesquisa do grupo sobre heranças e descaracterização da cultura e da sabedoria popular, pelo esquecimento das raízes que moldaram o ser brasileiro.

A montagem explora o que resta no cotidiano das pessoas dos ensinamentos populares, bem como da função social da dança e das festas tradicionais. Segundo o diretor, “em cena está a comida típica, o encontro, a música, a fé, o sincretismo. São elementos de celebração que se perdem no íntimo de pessoas que se ‘afogam’ nas cidades, imersas no conflito de viver ou cumprir a existência de forma burocrática”.


No enredo, vagando por um mundo apático, Lourdes, Benedito Messias e Fulozina são espíritos do interior do Brasil atrás de pessoas que os enxergue, enquanto distribuem afeto como trabalho. No caminho encontram uma comunidade formada por pessoas expulsas do convívio social, que resolvem levar a vida em festa. Aos poucos o sonho sucumbe à realidade.

A Gente Submersa reúne 23 artistas, entre atores e músicos que transitam pelo teatro, pela dança e por outras linguagens, amparados por composições originais e canções de domínio público. O figurino traz elementos de técnicas artesanais como renda filé, bordados, crochê e tricô, construindo memórias também nos corpos que ocupam o Teatro do Incêndio: um espaço em formato de arena triangular, mantendo as características arquitetônicas originais do local que tem sua própria história.


Marcelo Fonseca explica que, após realizar O Santo Dialético, peça sobre a perda da essência da formação do brasileiro, teve o desejo de trabalhar outro viés da nossa origem: como se deu a formação do brasileiro. “Fui buscar os saberes populares, as danças e as festas que vêm sendo esquecidas. A hereditariedade não nos é ensinada, está na genética. A necessidade de sobrevivência esconde o desejo de felicidade, tendo à frente o poder institucionalizado”. O dramaturgo ainda afirma que a peça ressalta que o importante são as pessoas, a observação do outro. “Não é o governo que transforma o mundo. São as pessoas! O espetáculo é uma celebração da vida, onde o profano e o sagrado estão em comunhão, pois a vida não é o cotidiano, não é o trabalho”, finaliza.

O enredo

A Gente Submersa traz duas tramas que se interligam, protagonizadas por dois trios de personagens, condutores da história. No primeiro estão três figuras alegóricas da sabedoria popular (Lourdes, Benedito Messias e Fulozina) vivendo uma fábula que se concretiza na cidade. São pessoas centenárias, velhos de espírito juvenil que atravessaram os tempos. Eles seguem pelo mundo, mas os lugares por onde passam e tudo o que vivem vai sendo apagado. Quando chegam à cidade se tornam invisíveis, ocupam um espaço, mas são expulsos pela polícia. Na trama paralela estão Maria Conga, Bina e Lilica, pobres favelados, moradores da periferia. Maria Conga, após matar o policial que a violentou, foge com a ajuda de Bina e Lilica para um lugar onde não podem ser encontrados, um lugar que poderia ser o fim do mundo, e fundam uma comunidade (quilombo).


O elo entre as duas tramas é feito pelo vendedor de relógios, um velho que guia o primeiro trio até o quilombo. Ele representa o tempo, a sabedoria e os ensinamentos dos mais velhos, dos nossos antepassados. Lourdes, Benedito Messias e Fulozina chegam, então, à comunidade onde são vistos e aceitos. Sem dinheiro, as personagens trocam conhecimentos. Enquanto Bina, professora, se dedica a ensinar as pessoas a ler e escrever, Lilica ensina a arte da costura. Já Lourdes, Benedito e Fulozina, ensinam cultura popular para os integrantes da comunidade, que passa a viver em um calendário de festas (congada, maculelê, jongo). Mas o desmatamento chega e destrói o quilombo mostrando o ciclo sem fim da destruição.

O novo teatro

A esquina da Rua 13 de Maio com Rua Santo Antônio é a porta de entrada para o Bixiga. O famoso casarão, que tem sua fachada tombada como patrimônio histórico do município, abrigou a antiga Boate Igrejinha, frequentada por nomes como Dalva de Oliveira, onde a cantora Maysa fez sua última temporada e Grande Otelo realizou o show em comemoração aos seus 50 anos de carreira. Mais tarde, se tornou o Café Soçaite, um dos principais redutos da boemia paulistana dos anos 80.

A parede externa de entrada do Teatro do Incêndio tornou-se um grande painel com a inscrição de 376 nomes de artistas de real importância na história cultural. Entre os homenageados, Tom Jobim, Cacilda Becker, Plínio Marcos, Flávio Império, Mário de Andrade, Carolina de Jesus, Maysa, Geraldo Filme, Roberto Piva, José Celso Martinez Corrêa, Batatinha, Ariano Suassuna, Darcy Ribeiro, Antônio Cândido, Ruth Rachou, José do Patrocínio e Lygia Clark.

A sede própria é uma conquista de 21 anos de estrada do grupo. O espaço foi comprado por Marcelo Marcus Fonseca, em março de 2017, e consolida-se, definitivamente, como um teatro para a cidade de São Paulo.

Antes mesmo da inauguração, período de reformas internas e obras de adequação, o no Teatro do incêndio já recebeu eventos de cultura popular com Dona Anicide Toledo e o Samba de Umbigada, o Bale Folclórico de São Paulo, a Comunidade Jongueira de Tamandaré e o toré da Aldeia Wassu Cocal em Rodas de Conversa promovidas pela companhia. Também aconteceram aulas abertas com a bailarina Vera Passos e o espaço ainda recebe, atualmente, dois coletivos teatrais em residência artística, além dos projetos permanentes e gratuitos do grupo: Sol-Te, oficina livre de teatro para crianças e adolescentes, e Iluminar, oficina criativa de cenografia, figurinos e iluminação, coordenada pelo diretor convidado Kleber Montanheiro.

Serviço

Espetáculo: A Gente Submersa
Com: Cia Teatro do Incêndio
Estreia: 16 de setembro. Sábado, às 20h
Teatro do Incêndio
Rua Treze de Maio, 48 – Bela Vista/SP. Tel: (11) 2609 3730 / 2609 8561
Temporada: 16/9 a 10/12. Sábados (às 20h) e domingos (às 19h)
Duração: 120 min. Gênero: Tragicomédia musical. Classificação: 14 anos.
Ingressos: Pague quanto puder.
Capacidade: 95 lugares. Acessibilidade. Ar condicionado.
http://www.teatrodoincendio.com/ / https://www.facebook.com/teatrodoincendio/


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