Metal, stoner, instrumental: música e arte na entrevista exclusiva com Bruno Pinho

Bruno Pinho é baixista, compositor e letrista. Integrante da banda de metalcore, Maieuttica , criada em 2005 e em plena atividade, t...


Bruno Pinho é baixista, compositor e letrista. Integrante da banda de metalcore, Maieuttica, criada em 2005 e em plena atividade, também tem um projeto solo paralelo, o Mayan Pine, "com grande influência do John Frusciante", explica Bruno. E mais: há também a ótima banda de stoner, a Letters From.

Muita música, produção, gravação e arte é o que se pode conferir nesta entrevista com Bruno Pinho, que ainda este ano realizará um sonho: carregar a Aurora em seus braços. Confira na íntegra com exclusividade!

COMUNICA TUDO – Primeiramente, obrigado por esta entrevista. Bruno, quem te conhece da banda Maieuttica, reconhecida no cenário metal, e vai ouvir seu trabalho solo, Mayan Pine, pode tomar um susto, porque são estilos completamente diferentes. Conta um pouco sobre este trabalho: o nome, a temática das músicas. Como surgiu a ideia e como é o processo de criação e gravação.



BRUNO PINHO - Eu que agradeço o convite! Bom, o Mayan Pine surgiu de forma natural, basicamente para externalizar o que sinto. Na verdade, o Mayan Pine sempre existiu. Lembro que na minha infância eu tinha um teclado amador e ali comecei a experimentar coisas, criar e me interessar por esse viés da composição, ainda que de modo inocente e infantil. Anos depois, já com banda, comecei a me arriscar a compor algumas coisas, seja para bandas ou para mim, mas é um processo longo de amadurecimento. Porém, fui tomando um gosto imenso pela liberdade que sozinho podia ter em experimentar e fazer "o que eu quiser" na música.

Em 2015 percebi que tinha várias demos, gravações perdidas, ideias soltas e até algumas músicas prontas, um material bacana que não estava sendo utilizado. A partir daí (com grande influência do John Frusciante, artista que gosto muito e basicamente me inspirou a fazer um trabalho solo), regravei algumas dessas músicas, utilizei ideias antigas para desenvolver músicas novas e acabei criando do zero também. Em Janeiro de 2016, já com um material pronto para um álbum (que viria a nascer sob o nome de "Barsoom"), resolvi iniciar o projeto de fato e colocar na internet, sem a preocupação de estar bem gravado, se iria agradar, se teriam outros álbuns ou nada disso. Era apenas uma realização pessoal. Tive a ideia de oficializar esse projeto sob o nome de Mayan Pine - basicamente dois sobrenomes meus em inglês: Pinho e Maia, nome justamente escolhido por ser algo totalmente "eu", assim como as músicas.

Mayan Pine - Barsoom (capa)

Tive uma recepção extremamente bacana do público de minhas bandas, apesar do estilo completamente diferente, e de amigos também. Foi surpreendente. Muitas pessoas realmente se identificaram com as músicas e gostaram, o que me deu um grande fôlego e alegria para continuar o projeto. Ainda em 2016 continuei na ideia de experimentar coisas novas e lancei um EP em Agosto com 4 músicas próprias e um cover, onde as 5 músicas fossem, de propósito, completamente desconexas entre si, cada uma em uma 'vibe' diferente. Acho que esses dois trabalhos marcam uma "fase" e os dois seguintes mostram outra. A partir daí comecei a buscar coesão nos trabalhos, fazendo álbuns com conceito e unidade maior, formando o trabalho como um todo unificado e não um compilado de músicas. Além disso, as músicas foram ficando cada vez mais íntimas e "tristes". Minhas músicas sempre ficaram num limiar entre a música triste e a música contemplativa e acho que isso de certa forma faz as pessoas se identificarem. Todo mundo fica triste.

Mayan Pine - Kaishakunin - (capa)

Em janeiro de 2017 lancei o "Post Orgasmic Depression" que é um trabalho muito mais eletrônico que os outros e talvez o mais "bem feito", embora nunca tenha me preocupado com esse tipo de perfeição. Acho que algo muito editado e maquiado pode acabar escondendo a sinceridade da composição e isso, sim, eu prezo para que seja realmente honesto. Em julho de 2017 lancei o trabalho que acho o mais pessoal e sincero, "Kaishakunin". Passei por momentos de grande tristeza e confusão e o que me salvou foi começar a compor esse álbum. Notavelmente é o mais "pesado" de todos.

MAYAN PINE - VULTURO (Vídeo)


O processo de criação das músicas é meio "do nada". Fico longos períodos sem compor e realmente do nada, talvez alguma inspiração inconsciente, me faz começar a compor algo. E geralmente quando faço uma, só vou parar de fazer quando já tiver umas cinco. E ai, já é meio caminho andado para um cd, né? (risos) Toda a ideia do álbum, um conceito e o clima que vou passar já me vem em mente junto. Após isso, começo a compor e geralmente sai como o esperado, mas se não sair, não tem problema nenhum e até gosto. A medida que vou fazendo já vou sabendo em qual posição do CD as músicas vão ficar. Após tudo feito eu as nomeio, vez ou outra já penso no nome enquanto estou fazendo a música, mas muitas vezes eu apenas faço e quando tudo está pronto eu ouço, fecho os olhos e me entrego para a música. O nome apenas aparece assim. Como se a música que escolhesse o seu nome e eu fosse apenas um canal para tal.


COMUNICA TUDO – Interessante você falar sobre um projeto musical muito editado, super produzido e maquiado esconder um pouco a sinceridade da obra, porque acho que vivemos num tempo da indústria musical que é exatamente isso: superprodução de estúdio, muita compressão no áudio, clipes musicais de produção milionária e pouca vitalidade e honestidade musical com letras muitas vezes vazias. Principalmente na música pop, mas atingindo a todos os estilos musicais.

BRUNO PINHO - De fato. Obviamente, entendo a importância de um som com uma qualidade boa e uma produção fidedigna. Mas existe certo bom senso e sinceridade que é mais presente em projetos independentes. Talvez isso possa até ser algum tipo de ingenuidade ou inexperiência, onde quanto mais underground o projeto, com mais raça e amor ele é feito, se importando mais em agradar e menos em vender.

Durante a produção do meu último CD, "Kaishakunin", em certo momento perdi alguns arquivos de algumas músicas que estavam quase prontas, impossibilitando continuar editando. Faltavam ajustes de equalização, mixagem, masterização e coisas assim. Eu resolvi colocá-las no CD da forma que estavam, mesmo que com uma qualidade um pouco mais 'lo-fi'. E fiz isso simplesmente porque seria impossível refazer músicas que foram feitas num fluxo de inspiração e sentimentos sinceros. Tentar recriar isso seria um erro, pois nunca sentiria novamente tais emoções que me levaram a fazer o que fiz em tal momento. E mesmo assim, as pessoas entendem, se envolvem e curtem o som. A energia passada pela música continua a mesma e forte como sempre. Isso seria impensável para qualquer artista do Mainstream, pop ou não.

COMUNICA TUDO – Sobre a Maieuttica: a banda atua desde 2005, mas em 2013 o guitarrista e fundador do grupo, Caléo Lima, morreu num acidente de trânsito com 27 anos. Como a banda se reestruturou naquele momento?


BRUNO PINHO – Todo falecimento é muito complicado, sem dúvida. Além de perder um grande irmão, amigo e companheiro, perdemos uma pessoa fundamental pra engrenagem da banda: ele era o "irmão mais velho" de todos, o mais sensato e o mediador de tudo. Porém, não pensamos em parar em nenhum momento. Assim que o choque passou, quebramos a cabeça para pensar em como poderiamos fazer para continuar essa missão. Contamos muito com o apoio dos nossos fãs e amigos que também deram muita força nesse momento. Nos apoiamos e por isso que, por mais clichê que pareça, a gente chama a galera de nossa família, pois quem partilha dessa dor não é uma pessoa qualquer, e todos sentiram, choraram e deram a volta por cima, assim como a banda. O Maieuttica sempre foi o sonho dele, assim como de todos nós, mas a ideia lá em 2005 foi dele, o nome da banda partiu dele. Assim, temos a missão de manter viva essa ideia, esse projeto de levar o Metal com letras inteligentes e que façam o público refletir. Ele era o principal letrista e eu assumi essa missão com muito orgulho. Espero que ele esteja satisfeito com o trabalho que estamos fazendo para o próximo álbum. A morte do Caléo mudou minha forma de pensar e de ver a vida completamente.

Maieuttica em show para a seletiva do Rock In Rio 2015

COMUNICA TUDO – Tem previsão de lançamento para o próximo álbum do Maieuttica? Pode adiantar algo sobre composições e novidades?

BRUNO PINHO – Será um álbum conceitual, contando uma história de forma subjetiva, linearmente, em cada música. Ele falará sobre algo que todos nós, sem exceção, já passamos. O CD se chamará "Hiatus: Ausência" e será sucedido no futuro por uma segunda parte. As músicas estão únicas e fico feliz em dizer que "não se parece com nada". Todas as músicas já estão prontas, já gravamos as 'prés' e já começamos a gravar. É um processo lento e trabalhoso, então só peço a paciência de quem está no aguardo porque, assim como vocês, nós também estamos muito ansiosos pra ver esse trabalho nas ruas e surpreendendo todo mundo!

Maieuttica - Por árduos caminhos até as estrelas (capa)

COMUNICA TUDO – O nome do novo álbum, "Hiatus: Ausência", me fez lembrar do que falamos há pouco, sobre o Caléo. Há alguma relação?

BRUNO PINHO – Talvez.

COMUNICA TUDO – Ok. Aguardamos este novo trabalho com expectativas. Saindo um pouco da música e indo para o desenho (design): gosto muito do trabalho gráfico de todas as capas do Mayan Pine. Você as cria sozinho ou conta com a ajuda de alguém?

Mayan Pine - Deconstruct (capa)

BRUNO PINHO – A capa do primeiro, "Barsoom", eu desenhei sozinho, despretensiosamente, assim como as músicas foram feitas. O desenho foi feito no mesmo dia em que uma das últimas músicas feitas pra esse álbum, "Ochre". Gostei do desenho, editei de forma simples e acho que ela passou a ideia do que eu queria pra esse CD. Foi a única que fiz sozinho. Já a do seguinte, "Deconstruct", um grande amigo, Tamer Arrabal, fez pra mim. Ele captou a ideia exata da desconstrução a partir de uma foto dele mesmo que eu achava engraçada. A partir daí ele participou em todas as outras. No terceiro, "Post Orgasmic Depression", o desenho era de uma tirinha que eu fiz junto com algumas outras, de brincadeira. Ele viu e achou que passava bem a ideia com o conceito do álbum e editou pra mim em forma de capa de álbum. Já o quarto, "Kaishakunin", é uma foto tirada por ele, onde a ideia e edição é totalmente dele também; ele só me apresentou e eu adorei de cara. Reparando bem, é uma praia vazia, o que passa muito bem a ideia desse álbum. Tenho amigos que são artistas maravilhosos e pretendo fazer com que os próximos sempre tenham a participação de pessoas que admiro muito, assim como ele.

Mayan Pine - Post orgasmic depression (capa)

COMUNICA TUDO – Gostaria muito de agradecer por esta entrevista. Gostei muito e aprendi coisas muito interessantes. Para finalizar, poderia nos dizer algo sobre a Aurora, sua filha, e como está sendo esta experiência? E também quais as novidades que podemos esperar para a banda e sua carreira solo num futuro próximo.

Letters From
BRUNO PÌNHO – Eu que agradeço imensamente por essa oportunidade de poder expor um pouco do meu trabalho. Eu sempre quis ser pai, desde novo! Meus amigos mais próximos sabem o quanto eu sempre falei disso. Está sendo uma experiência muito divertida e estou ansioso para poder segurar ela. Em dezembro isso será resolvido!

Sobre as bandas, o Maieuttica virá com o CD novo em breve, mas provavelmente, antes do CD rola uma single pra dar um gostinho pra galera (talvez com clipe, será? Sem promessas). Tenho composto com o Mayan Pine algumas coisas e feito testes novos. Tenho umas 7 ou 8 músicas "sobras" ou que não quis colocar em nenhum álbum e pensei em lançar um CD com essas gravações, como um "B-Sides", porém ainda não sei se farei ou como farei. Todo caso, tenho feito coisas novas sempre e um novo trabalho chegará de surpresa tanto pra mim quanto pra vocês!

Aproveitando, tenho uma outra banda que acabamos não citando aqui nessa entrevista mas convido a todos para ouvir. Se chama Letters From, e é de Stoner. Temos dois EPs, um de estúdio e um ao vivo, sendo que esse ao vivo tem no Youtube também com material audiovisual no estilo "Live Sessions".

Todos os meus 3 projetos estão no Spotify! Agradeço a todos que leram até aqui e a todos que curtem meu trabalho, seja com o projeto que mais agrade, muito obrigado de verdade!



MAYAN PINE
https://mayanpine.bandcamp.com/
https://soundcloud.com/mayanpine
https://itunes.apple.com/us/artist/mayan-pine/id1274436716
https://open.spotify.com/artist/4J8Z6mE7RcZUCWcOcBa3q2

LETTERS FROM
https://lettersfrom.bandcamp.com
https://www.facebook.com/lettersfromwho
https://www.youtube.com/channel/UCCns_B3JafGXZr6he-77RuA/videos
http://instagram.com/lettersfrom
http://www.twitter.com/lettersfromwho
https://open.spotify.com/artist/2nSchkvrFFcHpU6QP4UfBd

(Via Marcelo D'Amico)


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