11/09/2017

O menino e a placa no centro do Rio de Janeiro

Aos domingos o Rio de Janeiro costuma ficar desértico no centro da cidade. Sem viva alma a circular por ali, com exceção de alguns turistas, entre outros. Neste último fim de semana, a advogada fazia parte das poucas exceções a caminhar lá. Voltara ao escritório para pegar papéis relativos a um processo, o qual precisava ler e estudar sem falta. Esta causa lhe daria um fabuloso retorno financeiro, caso ganhasse.

Ao caminhar pela Cinelândia, avistou uma pequena criança com uma placa em suas mãos. Estava sozinha, debaixo do forte sol carioca. Olhou ao redor buscando pelos pais que deveriam estar por perto, mas não viu ninguém. Esmolas? Pensou. Talvez. Mas não há ninguém aqui. 

Foi se aproximando para tentar compreender melhor o que acontecia. A criança parecia estar morta de tão imóvel. "Quero minha mãe de volta" - dizia a placa segurada pelo menino suado. 

- Qual o seu nome?
- Rafael. Rafaelzinho.
- O que faz aqui?
- Quero minha mãe de volta - disse o menino com lágrimas nos olhos. 

A advogada se agachou para olhar Rafael nos olhos de perto.
 
- O que aconteceu com sua mãe?
- Levou um tiro no lado da cabeça. Depois da orelha. 

A 'doutora' não aguenta. Chora sem conseguir segurar. Sente no peito algo novo, terrível, ainda que quisesse parecer forte para acalmar o menino, não conseguia se conter.

- Desculpa, moça.
- Imagina. Tô bem. Mas onde está sua mãe?
- Ouvi dizer 'eméle'.
- IML?
- Deve ser.
- E seu pai?
- Só tenho mãe. Minha família é eu e minha mãe. Quero minha mãe de volta.
- Vovó? Vovô?
- Só eu e minha mãe.
- Você escreveu essa placa sozinho?
- Pedi ajuda. Mas o querer é meu.
- Onde é sua casa?
- No morro. Mais pra lá. Mas sozinho como vou morar lá?
- Ninguém te ajudou na hora da confusão...
- Fugi. Quem atirou não vai me ajudar, né?
- Foi a polícia? Ou foi traficante?
- Não sei.
- Pode confiar. Só quero ajudar.
- Quero minha mãe de volta. 

A advogada respirou profundamente enquanto enxugava as lágrimas. Não sabia exatamente o que fazer. Não esperava passar por uma situação assim, num calmo domingo.

- Espere aqui, Rafael. Vou buscar ajuda. Volto logo.
- NÃO! Só quero minha mãe.
- Eu sei. Vou te ajudar. Mas preciso de alguém para ajudar. Me espere aqui.

Rafael ficou mudo. Miúdo. Estático. Seus olhos demonstravam confusão.

A advogada saiu com passos atrapalhados e pensando sobre o que fazer. Sentia-se confusa com uma grande dor em seu peito. Só pensava no futuro desse menino. Que futuro? 

Volta cerca de 40 minutos depois acompanhada de um guarda municipal. Demorou a encontrar alguém. O sol carioca esquentava cada vez mais. A sensação de estar num deserto só aumentava. 

Chegam ao local, mas não encontram ninguém. Rafaelzinho havia sumido. Procuraram por todos os lados, mas nada viram. A advogada nunca mais o viu de novo.


(Via Marcelo D'Amico)
 
VOCÊ é muito importante para nós: queremos ouvir sua voz. Deixe um comentário após 'Related Posts'. Apoie o #ComunicaTudo: clique nas publicidades ou contribua. Saiba mais através do email marceloaugustodamico@gmail.com

0 comentários:

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.