Como andam nossas relações afetivas em tempos de ódio

Texto de autoria de Diego Pignones - publicitário e pesquisador em Comunicação Social.


Em tempos de ódio, pré-julgamentos, preconceito e informações pré-digeridas, para que o espectador não precise fazer o menor esforço para interpretá-las, nossas relações de afeto com familiares e amigos acabam sendo afetadas por essa conjuntura de debates vazios e infantilizados.

Tudo começa quando as diferenças ideológicas ou quando as ideias contidas em memes começam a ser simplesmente repetidas exaustivamente. Quando os iguais se juntam online com pessoas que não se conhecem verdadeiramente e possuem como vínculo ideias já distorcidas em sua origem. A partir disto, se excluem os diferentes e se grita para dentro de uma aldeia que recompensa com likes, comentários e compartilhamentos. São os famosos 'masturbadores' de like. Uso a palavra masturbador no sentido literal da palavra, porque a cada like o emissor/repetidor da ideia torta se satisfaz como num micro-orgasmo.

Logo após, começa a temporada de caça aos diferentes no perfil. Todos que não fazem parte dessa mesma ideia são sumariamente excluídos ou bloqueados e na vida offline são ignorados ou alvo de confrontos, deboches, chacota, preconceito, de falas pelas costas ou de humilhação.
Assim vínculos de amizade ou de parentesco se deterioram, catalizados por uma mera diferença de ideias, por incompreensão de que uma ideia carregada de ódio, preconceito ou um pré-julgamento, pode mais do que magoar ou entristecer uma pessoa, pode atacar em questões de autoestima, de identidade e abalar seu psicológico.

Temos uma noção errada sobre discussões e debates, a de que é necessário um ganhador e um perdedor. E para ganhar, para algumas pessoas, é preciso aniquilar o interlocutor. Nem que para isso seja necessário sacar de ofensas, provocações e ataques pessoais pesados.

Pessoas com quem havia um forte vínculo de confiança passam a vociferar raivosamente contra temas que são importantes para você, simplesmente te dão as costas e, em alguns casos, falam mal, agridem e atacam. Afinal, as suas ideias são consideradas como um câncer a ser extirpado e extinto da existência.

E muitas vezes as suas ideias são tão importantes para você que fazem parte de sua identidade enquanto indivíduo ou são o que te deixam equilibrado mentalmente. Inclusive algumas delas podem ter sido formadas junto dessas pessoas que hoje te excluem.

A vida dessas pessoas segue em frente. O ódio, o preconceito e os pré-julgamentos cegam para uma realidade: por trás desse comportamento pode estar acontecendo um pedido de socorro ou de ajuda.

Recentemente, aconteceu algo assim comigo.

Amigos com os quais tinha um vínculo de 20 anos de amizade, se afastaram. Quando verifiquei as redes percebi que não havia mais interação deles comigo. Puxei pela memória se tinham me oferecido suporte quando atravessei por momentos difíceis em 2016, vi que ninguém apareceu. Quando tive um excelente momento em 2017, nenhum deu apoio. E vi que todas as vezes quando fui atrás pra sairmos e nos divertirmos (para tocar um som pesado, dar uma volta de skate, jantar ou beber uma cerveja numa praça/parque/bar/boteco/calçadão0, nunca dava, ninguém tinha tempo ou não viriam visitar seus familiares naquele fim de semana. Na realidade, eram mentiras.

A minha natureza é de confrontar, ver o que está acontecendo e esclarecer as coisas. A amizade acabou em xingamentos, falta de respeito, ataques pessoais, provocações e ofensas.

Algum tempo depois de ter sido aconselhado a adotar um tom mais ameno para ver o que estava acontecendo, entendi a realidade: Meus “amigos” estavam me aconselhando a insistir em um comportamento autodestrutivo e impulsivo. Afinal, eu mudei demais e ‘perdi a minha pegada agressiva’ na terapia (que segundo todos estava me fazendo mal), por ter mudado minha alimentação e por reavaliar meu modo de vida. Por estar me reconstruindo e equilibrando, me tornei diferente daquilo que eles acreditam como comportamento ou como estilo de vida. Se isso justifica a ruptura de um vínculo de 20 anos? Não sei. Acho que não é um vínculo saudável para ser mantido e não vale a pena gastar energia nisso mais.

Fazendo um exercício mental, percebi que a medida em que a terapia, meditações e leituras estavam me equilibrando, pessoas se afastaram, fizeram comentários maldosos ou me excluíram de seu convívio sem motivação aparente.

Será que eu estou certo e todos errados? Não sou presunçoso a afirmar.

Mas revisitando memórias e analisando caso a caso, entendi que eram vínculos restritos a situações, ambientes ou ocasiões. Em tempos onde as pessoas estão mais voltadas para seu ego, sem querer fazer o menor esforço para manter uma relação afetiva (seja de amizade, amorosa ou de parentesco), e com ideias tortas online, preconceito, ódio e pré-julgamentos gravitando na atmosfera, entendo que os vínculos se tornaram frágeis, até mesmo os vínculos mais duradouros.

Por que isso machuca, magoa, dói e desconstrói a gente em alguns casos? Porque há dor na perda e na separação. E se o vínculo é de confiança e cumplicidade, isso pode pesar muito e levar uma pessoa ao vazio.

Escrevendo esse texto, me passa pela cabeça uma fala em uma conversa via Whatsapp sobre depressão, exclusões e ruptura de vínculos de amizade: ‘será que vale a pena deixar que pessoas que apenas sugam energia nos desconstruam?’

Entendo que a resposta natural é ‘não’, mas ela sai em tom de incerteza porque ainda estamos machucados e o processo de lamber as feridas e seguir em frente é pesaroso. Mas é necessário.

A vida segue.

Vai ter muita merda ainda para ser enfrentada.

Cabe escolher como enfrentar.

Pretendo enfrentar o meu vazio com terapia, meditação, alimentação, exercícios e me cercar de quem me queira bem, mas com a certeza de que esse processo evolutivo é solitário porque ele depende majoritariamente de mim. As outras pessoas que me rodeiam são importantes, mas são complementares. E que agora quero complementar minha jornada com complementos agradáveis e saudáveis.

(Via Diego Pignones - Publicitário e pesquisador em Comunicação Social. Twitter: @diegopignones - Instagram: @diegopignones)



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Como andam nossas relações afetivas em tempos de ódio
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