D'Amico entrevista D'Amico: arte, vida, história e trajetória de Wesley D'Amico

#ComunicaTudo - Criado e mantido por Marcelo D'Amico desde 2008. Revista digital de comunicação, política, notícias, artes, entrevistas e mais.


Eu, Marcelo D'Amico, tive a honra e o prazer de conhecer Wesley D'Amico, mecânico e artista plástico que ganhou fama ao pintar a menor bandeira brasileira – título reconhecido pelo Rank Brasil de Recordes Brasileiros. Apesar de termos o mesmo sobrenome de origem italiana, não nos conhecíamos e até onde sabemos, não possuímos algum grau de parentesco próximo.


Pintor, escultor, escritor, inventor, artista plástico: reúne em si muitas qualidades artísticas, muita criatividade e ousadia para seguir em sua caminhada pelas artes. Atualmente, Wesley mora no interior de São Paulo, na pequena e pacata cidade de Mombuca, com cerca de 4 mil habitantes. Num futuro breve, pretendo conhecer a cidade, bem como conhecer o artista e mais novo "Amico" (amigo, em italiano) que fiz.

Após grande troca de emails e muitas conversas durante semanas, quero lhes apresentar uma entrevista exclusiva com esse grande artista e ser humano: Wesley D'Amico! Aprecie sem moderação!


Comunica Tudo – É um prazer poder lhe entrevistar. Muito obrigado. Em primeiro lugar quero saber: o que é a arte para você?

Wesley D'Amico – Amigo Marcelo, me deu medo essa pergunta, logo de cara. Digo isso porque a arte, para mim, deixou de ser algo colorido e criativo, algo que me inspirava. Acordava de madrugada para ver o que tinha feito ou o que faria durante o dia.

Arte, para mim, era trazer algo da imaginação para a realidade, dar forma. Navegava na minha imaginação, buscando novas formas e cores e arrastava para a realidade e colocava tudo isso em um lugar que não tinha nada. Mas hoje tudo é sombra. Arte não é arte, tudo está sem vida.


Deixei de sonhar, deixei de criar, tenho medo, tenho medo de expor. A arte me mostrou um outro lado, o lado da vida de pessoas que têm a mente escura e quer que todos tenham a mesma forma. A arte quando sorri mostra a vida colorida e algumas pessoas bloqueiam isso. Mas quem tem em sua alma um espirito artístico real, mesmo recebendo muitos nãos, e com muitas críticas, vai seguir em frente; por isso que estou desde 2004. Esse espirito não me deixa desistir, ele me mostra um outro mundo totalmente diferente do que vivo, um mundo só meu. Posso estar louco, mas lhe digo: em 40 anos de vida, nunca estive mais vivo do que agora. A arte me deu vida, espírito e cores.



Comunica Tudo – Você diz ter deixado de sonhar e ter certo medo de expor a sua arte. Isso tem relação com os inúmeros “nãos” que você recebeu de muitas galerias de arte? Ou há outras experiências envolvidas?

Wesley D'Amico – Recebi muito mais elogios do que nãos, mas não é só de elogios que vivo. Durante um período de minha ignorância como artista, precisei sobreviver com a arte que fazia e me deparei com um público que elogiava, mas não comprava, e um público que comprava, mas não pagava o suficiente para cobrir os custos até mesmo do material.

Eu só parti para as galerias porque algumas pessoas que olhavam minhas obras diziam que era obra de galeristas, e que eu deveria entrar em contato. Pois foi o que fiz. Vendi algumas coisas, arrecadei o máximo de dinheiro e fui para São Paulo, onde se concentra a maioria dos galeristas. Confesso que não fui bem aceito, porque não sou um comprador de arte e sim, fui como especulador, para mostrar meus trabalhos.


De cara, a pergunta é: cadê seu portfólio? Quantos prêmios você tem? Em quantos locais já expôs? Em outra galeria não pediram meu portfólio mas me disseram que não é o artista que procura a galeria, a galeria vai até o artista, quando ele é bom. Noto que algumas pessoas diziam que o Brasil passa por uma crise financeira, mas noto que fazem fila para comprar celular, carros zero, viagens, roupas, festas e casas. Estão em alta, mas para comprar uma tela minha eles perguntavam: quanto você gastou de material? Quanto tempo levou? Pode mudar a cor?

Arte que não tem nome não vende e quando a arte adquire nome, ela não vende porque é cara. Assim se passaram 14 anos sem eu ver minha arte ser sustentável, tenho que ter outro emprego para manter a arte.



Comunica Tudo – Nesta sua caminhada pelas artes, apesar dos contratempos em relação ao sustento, noto que muitas de suas obras são bastante originais em muitos sentidos. Gosto muito das micro-pinturas, da série performática com o fogo, das esculturas, dos vídeos sobre a destruição da arte, das suas escritas para a Chiado Books (de Portugal). De onde vem tanta inspiração para tantas criações?

Wesley D'Amico – Desde pequeno desmontava meus carrinhos e outros eletrônicos para ver como funcionavam. Sempre ajudei as pessoas quando elas diziam que não sabiam como funcionava, quando alguma máquina quebrava eu ficava curioso para saber o que tinha acontecido. Na maioria das vezes consertei e até hoje faço a manutenção da casa, carro e até maquina de lavar (risos).

Gostava de ajudar as pessoas a carregar coisas pesadas e sempre ganhei um muito obrigado. Eu não comprei meu computador, não tinha dinheiro, tive que montar um, programar e fazer tudo aquilo funcionar. Confesso que precisei de ajuda, mas é assim comigo, se não sei, busco saber com quem sabe. Mas com a arte as coisas mudaram de figura. Em 2004 descobri meu espírito artístico ou um espirito artístico me descobriu e passei a olhar dentro de mim, o que sou por dentro, do que sou feito, de onde vem minha dor, minha vontade, meus medos, minha imaginação, e notei que tudo está dentro de mim, dentro de uma imensidão de informação não acessada.


Quando escrevi o código da minha alma, Eu mesmo desacreditei e me perguntei, quem fez isso... São mais de 400 símbolos diferentes feitos em menos de uma hora. Acho que remapeei meu cérebro e a partir disso navego na minha imaginação dando formas e cores, até que chegue um ponto em que meu espírito aprove e meu corpo comece a fazer. Fico inquieto e buscando todas as melhores maneiras de construir. Mas perdi boa parte disso quando o mercado me pressionou. Dizendo o que tenho que fazer... O mercado quer coisas baratas e rápidas, coisas para vender rápido, com material barato e de péssima qualidade. E isso me prejudicou muito.



Comunica Tudo – Você diz que sua caminhada pela arte começa em 2004. Antes dessa data, do nascimento até 2004, quem era Wesley, o que fazia e sonhava? Onde morava? O que estudava?

Wesley D'Amico – Não era ninguém, um grão de areia na praia. Vivia em uma rotina feita pelo meu Pai na oficina mecânica. Meu Pai sempre teve oficina, então eu nasci na graxa, não é graça de Deus, é na graxa (risos). Nasci escutando o barulho dos motores e nunca pensei em sair disso, não tinha sonhos, não estudava, não lia, não me interessava em sair de onde estava.

Moramos em São Bernardo do Campo e a crise financeira e os índices de roubos amentaram muito e decidimos morar no interior. Foi aqui que a coisa pegou, um choque no cérebro, um freio. Sair de uma cidade agitada para uma cidade de 4000 habitantes e que passa um carro a cada 10 minutos, isso na avenida - foi aí que comecei a pensar, sabe? Aqui tem estrelas, nuvens e sol, a lua sempre estava me vendo, não tinha como se esconder e os pássaros fazem uma orquestra para acordar-me e as pessoas conversam calmamente e terminam o assunto.

Aqui tem tempo, o ar tem cheiro e a noite uma planta chamada dama da noite lança seu perfume. Tucano, garça, capivara, lagarto, esses eu já vi, mas macaco que dizem que tem, esse não. Opa, esqueci que tem frutas, muitas, da até dó de ver estragando. Em São Paulo, as árvores não tem frutos e não tem céu, mas tem museu e arte.


Sempre passei em frente daqueles museus e nunca entrei, nem sonhava em ser um artista e hoje tive que voltar lá para conhecer, Itaú Cultural, Casa das Rosas, Masp, Pinacoteca e as galerias. A Avenida Paulista fica mais bonita quando se tem tempo para ver e não correr por ela. Mas aí você me pergunta, como a arte surgiu ai em Mombuca, o que lhe despertou...

Um dia comum, um carro parou em frente da oficina, nós ajudamos um senhor e sua esposa a colocar o carro dentro da oficina, porque ele não funcionava mais e íamos procurar o defeito, Fiquei com esse senhor de nome Vassalo, eu e ele mexendo no carro enquanto a esposa ficava com a minha mãe. Vassalo era um engenheiro que tinha escritório na Av Paulista. Papo vai, papo vem e pra encurtar o assunto, Vassalo me disse: Wesley sai dessa vida!



Eu assustado, sem saber direito o que ele quis dizer, voltei a falar: mas porque você esta dizendo isso, ele falou que um rapaz que trabalhava com ele tinha esse mesmo jeito que tenho e hoje ele está em outro país, desenhando e projetando navios e me ofereceu um trabalho em seu escritório. Eu disse “nunca trabalhei fora” e não tenho carteira profissional. Ele disse, não estou pedindo nenhum documento, vamos tirando os documentos enquanto você estiver trabalhando lá.

Depois disso fiquei totalmente perdido e feliz, nunca tive elogios na oficina e fui até São Paulo. Mas quando cheguei no escritório, nossa, todos falando em inglês. Era um escritório de dois andares, aquilo me assustou um pouco, fui bem recebido e logo Vassalo chama o responsável para me dar as instruções de trabalho. O rapaz coloca um livro enorme, mais espesso que uma bíblia, tinha quase um metro de comprimento e dentro só projetos e disse: você vai fazer isso.


Aquilo me apavorou e para completar descemos para o andar de baixo onde só tinham computadores e estavam mexendo com Autocad. Nunca tinha ficado de frente com um computador e muito menos um Autocad. Fiquei tão assustado que com a maior gentileza disse que ia pensar e nunca mais voltei lá.

Mas depois disso, meu pai disse que ia me deserdar se eu fosse trabalhar fora.

Meu cérebro confuso, por ser um mecânico e nunca ter ganhado nada com isso e aparece uma vida totalmente diferente e larguei tudo, abandonei meu pai e a mecânica e fiquei largado, acho que por uns 6 meses. Nesse intervalo apareceu um amigo que me deu um livro chamado o Voo do Búfalo, e quando eu terminei de ler, aprendo que poderia voar mesmo sendo um simples mecânico.


Montei uma pequena fundição de metais, mas só derretia alumínio, fazendo os lingotes. Fiquei admirado com aquilo por derreter um material e transformar em líquido. Eu mesmo pesquisei sobre como fazer e montei meu forno, mas o mercado me engoliu. Com essa falência, fiquei procurando outra coisa e uma amiga mexia com joias e disse se eu fizesse um curso de 'como fazer joias' ela me dava um emprego. Fiz o curso e não ganhei o emprego (risos).

Depois disso, fiquei parado novamente e apareceu um cara que mexia com madeiras e como meu pai tinha um salão grande, ofereceu se eu queria trabalhar com madeira e tive que aprender tudo sobre; e quando estava fazendo os móveis de jardim para esse senhor, que pagava uma 'mixaria', algumas madames passavam e viam, traziam revistas para saber se eu faria algo daquele tipo. E minha primeira arte foi um quadro de borboletas, na revista estava por 600 reais, há muitos anos atrás, e eu ganhava isso por mês, quando ele pagava com cheque para 30-60-90-120 dias. Eu cobrei dela 60 reais e já estaria ganhando um rio de dinheiro, além dela pagar com orgulho, ela tem um quadro único, com borboletas únicas e da revista era arte de produção. E assim essa senhora me trouxe muitos clientes, e assim que virei um artista.



Comunica Tudo – Qual é o seu maior objetivo com a arte? Onde pretende chegar com ela?

Wesley D'Amico – Escrevi e pensei em tanta coisa para essa pergunta e nenhuma delas faz sentido; não sei qual meu maior objetivo e nem onde pretendo chegar, o mundo é gigantesco e me faz quase invisível, mas não consigo desistir da arte e não sei até onde ela pode me levar. Talvez arte não tenha objetivos e nem fim.



Comunica Tudo – Acredito muito na força das palavras e por isso mesmo gostaria que você deixasse alguma mensagem para todos os artistas, iniciantes ou não, que se deparam com várias dificuldades ao longo da vida.

Wesley D'Amico – Alguns dizem que sou louco. Meus parentes e amigos se afastaram de mim. Escuto todos os dias ao acordar e em qualquer outra oportunidade que se refira a profissão que sou um fracassado. Me dediquei 14 anos seguidos pela fé e sonho, não sei se vou conseguir ter minha arte reconhecida financeiramente e pelas criticas da mídia, penso em desistir todos os dias. Quando vejo em revistas artistas que estão sendo vistos após sua morte, que tentaram suicídio, ficaram loucos, penso: será que isso vai acontecer comigo?.


Às vezes penso: porque não fui um médico, dentista, aquela pessoa que tem hora para trabalhar, para acordar, para passear? Eu não tenho hora, nem sei o que é tempo, às vezes me pego vendo as estrelas e me pergunto o que é tudo isso? O que é a vida? O que tenho que fazer? Para onde ir? O que dizer?

Deixei de usar um relógio e quando alguém me pergunta que dia é hoje, não sei responder. Defino meu humor em 'Feliz fazendo arte e triste vendo a vida'. Não sou exemplo para ninguém, só lhe digo: "quem tem espirito artístico não consegue desistir."

Não estou pintando meu fracasso e nem caindo em um poço profundo, estou colorindo uma vida que alguém borrou, pois agora aprendi a fazer e mostrar minha arte para quem vê em cores.

Mas lá, bem lá no fundo, quase no infinito, vejo o reconhecimento, não por ter sofrido e sim por ter acreditado.

(Via Marcelo D'Amico)


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