Colunista do #ComunicaTudo é destaque no Comunicação Colorida

Texto de autoria de Rafael Ferraz, jornalista, tetraplégico e autor da coluna Tetraplégicos Unidos.


Em tempos de ódio, de guerras e de preconceitos, com pessoas se atacando e brigando nas redes sociais e nas ruas, há muita beleza de profissionais humanitários em busca de união, amor e inclusão. Prova disso é a linda entrevista deste colunista do Comunica Tudo, que vos escreve, ao portal Comunicação Colorida.  E essa experiência me fez lembrar do trecho de uma música que eu gosto muito. 'Amanhã', de Guilherme Arantes:

“Amanhã, mesmo que uns não queiram, será de outros que esperam ver o dia raiar. Amanhã, ódios aplacados, temores abrandados, será pleno”.

Autor da coluna Tetraplégicos Unidos, eu falo sobre minha realidade de vida, minha superação da tetraplegia, atividades como jornalista, minha página Jornalista Inclusivo, onde eu também gero conteúdo para as pessoas com deficiência, e os desafios da mídia tradicional.

Confira a entrevista, que compartilho com vocês abaixo, com muito carinho:

"Após ficar tetraplégico, jornalista cria conteúdo para pessoas com deficiência"
26/07/2018 by CC
Por Wilson Pinheiro


O mercado jornalístico é uma grande incerteza para os profissionais. Não se sabe quais os rumos do jornalismo no Brasil. Enquanto essas questões são discutidas, e os profissionais precisam buscar criatividade de onde não existe para sobreviver a este mercado, muita gente boa vem produzindo conteúdo de qualidade. É o caso do nosso entrevistado Rafael Ferraz Carpi, 34 anos. Natural de Inhumas – GO e morador de Itu SP, é Jornalista formado, com experiência em impresso, rádio, fotografia entre outros.

Em 2011, Rafael viu sua vida mudar drasticamente. Um acidente doméstico o deixou tetraplégico, e os rumos de sua vida mudaram. Mas se você acha que Rafael encerrou a vida, você está muito enganado! Ele é colunista em dois portais de notícias e criador da Página Jornalista Inclusivo, onde traz informações sobre os direitos das pessoas com deficiência. O resultado desse trabalho e a história de vida e superação desse jornalista, você vai conhecer agora, na entrevista!

CC : Conte um pouco sobre sua carreira no jornalismo, porque escolheu a profissão? Chegou a colaborar com algum veículo?

Rafael : Desde o primeiro ano de faculdade, 2002, já comecei a trabalhar na área, fazendo reportagens e entrevistas para a rádio AM, Convenção de Itu. Durante a faculdade, trabalhei no principal jornal impresso da cidade, Jornal Periscópio. Terminei o curso e fui trabalhar como fotógrafo em navios de cruzeiros no Brasil e Europa. Depois, me casei e trabalhei como executivo de contas nas revistas Cães&Gatos e Feed&Food. Na sequência, voltei a ser fotógrafo em navios de cruzeiro e trabalhei no outro jornal impresso de Itu, Folha da Cidade. E então, comecei a trabalhar com assessoria de imprensa e produção de conteúdo na Sigma Six Comunicação.

CC: Em 2011 você foi ficou tetraplégico. Como aconteceu ?

Rafael : Paralelo ao trabalho como assessor de imprensa, eu fazia fotografia particular e tocava em bandas nos bares e casas da região. No carnaval de 2011, tocando com meus amigos,conheci uma ex-namorada, a Bruna. E depois de um mês de namoro, eu caí do terceiro andar de sua casa.

Ficamos juntos ainda por uns três anos. Ela morava numa casa enorme, que tinha uma escada em caracol. Era uma escada de mármore com corrimão de cobre, que ia do terceiro ao primeiro andar.

Um dia, estávamos em dois casais, e íamos começar a beber. O outro rapaz estava deitado no sofá da sala. Eu, minha ex, e a mulher do outro casal no quarto. Me lembro apenas de sair correndo do quarto para descer e me encontrar com a Bruna que havia descido para pegar gelo.

Não sei se escorreguei, pisei no cachorro ou apostei corrida com a pessoa que estava comigo, que poderia ter me dado um jogo de corpo. Mas acabei caindo da escada, no vazio, até o chão. Uns 9 ou 10 m. O corrimão do segundo andar estava quebrado, onde posso ter batido o fêmur que tive fratura exposta, e lesionei a quinta vértebra cervical.

Duas semanas em coma. Quatro meses de hospital. Mais um mês de home care, até começar a sentar numa cadeira de rodas e iniciar as terapias de reabilitação que faço ainda hoje: Fisioterapia, hidroterapia e equoterapia. Além de duas internações na rede de reabilitação Lucy Montoro.

CC : Após sua nova condição, como fez para dar continuidade a sua carreira e projetos?

Rafael : Melhorando minha condição, a empresa onde eu trabalhava havia se mudado, por acaso, na rua onde eu estava morando com meus pais. Então, continuei fazendo algumas atividades, apesar da lenta recuperação, até ser dispensado pela empresa. Mas fiquei com um de seus clientes, produzindo conteúdo para web e redes sociais.

Assim, em casa, segui como jornalista autônomo, fazendo textos para sites de diversas áreas, criando, atualizando e gerenciando redes sociais, entre outros pequenos trabalhos como freelancer. Como trabalhei com fotografia, também edito imagens para páginas e me arrisco no marketing digital fazendo cursos online.

CC : A sua página “Jornalista Inclusivo” gera um conteúdo muito fundamental para a sociedade. Como você avalia a cobertura da mídia tradicional em relação às pessoas com deficiência?

Rafael : Pois é. Somente nesta condição eu percebi como até mesmo o noticiário é falho, excludente e, às vezes, até preconceituoso quando falamos em “pessoas com deficiência”, em todos os aspectos.

Inquieto e precisando trabalhar, pensei em unir o útil ao agradável. Já que tenho tempo livre e não saio da frente do computador, comecei a usar essas ferramentas para isso, apesar do baixo retorno financeiro.

Não existe inclusão sem adaptação, para aqueles com alguma deficiência física, e a informação é o primeiro passo para a democratização. Essa a linha editorial da página: levar informações de serviço para grupos à margem da sociedade. Tudo relacionado às pessoas com deficiência, nossos direitos, como consegui-los, novidades e por aí vai.

Além da página Jornalista Inclusivo, informando sobre tratamentos, reabilitação na tetraplegia e outros tipos de deficiência, publicando notícias, notas, críticas e outros trabalhos, também criei a página Coiotes do Bem. Ela foi criada com outra ex-namorada (ai como é bom namorar, né¿!!!Rsrs) para reunir voluntários e centralizar a arrecadação, doação e coleta de alimentos, roupas, cobertores, brinquedos e insumos para as famílias e crianças mais pobres de Itu/SP, e região, moradores de rua e outros grupos de pessoas carentes.

CC : O que precisa melhorar na narrativa da mídia em relação a essa pauta ?

Rafael : A informação não pode ser exclusiva. Mas inclusiva. Esses grupos tidos como minoria – sendo ou não minoria –mulheres, negros, LGBTQIA (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros, Queer), obesos e pessoas com deficiência – seja física, intelectual, sensorial, visual, auditiva), enfim, que estão à margem da sociedade, também buscam e precisam de informações como todos, além das informações específicas sobre suas particularidades.

Informar sobre o mundo delas, que é o mesmo de todas as outras pessoas, não é suficiente. É necessário que elas estejam inseridas nesse meio, não como coadjuvantes, mas como personagens principais. Além de sermos protagonistas, queremos ser âncoras, repórteres, correspondentes que buscam e repassam essas informações. Se ex-jogadores, artistas e ex-policiais viram comentaristas por entender do assunto, cegos, amputados, cadeirantes, homossexuais, negros e outros, que hoje são marginalizados, sabem muito bem como e o que informar à sociedade “normal”.

CC: As políticas públicas para as pessoas com deficiência são suficientes para atender as demandas ?

Rafael : As políticas públicas funcionam para poucos. Não existe fiscalização. Falta regulamentação. Falta informação. Em cidades pequenas, nem mesmo os assistentes sociais conhecem a LBI – Lei Brasileira de Inclusão (lei nº 13.146\2015).

No papel, tudo é lindo e maravilhoso. Mas na prática é angustiante. Só se consegue as coisas através de processo judicial. E a população nem sabe como conseguir um advogado gratuito. O tempo e a burocracia para ter seus direitos respeitados desestimula a maioria. Temos direito a reabilitação gratuita de qualidade, temos direito a remédios e insumos gratuitos, mas até isso as prefeituras dificultam.

É um absurdo, por exemplo, você precisar buscar um advogado para obrigar a prefeitura a buscar um tetraplégico em casa para leva-lo na fisioterapia. Ou processar a administração municipal para lhe entregar a quantidade na data certa, a quantidade certa de remédios e material de tratamento previsto na legislação. Entre outros milhares de problemas que a população mais podre enfrenta.

CC : Como o jornalismo, a publicidade , o entretenimento devem trazer o debate desta pauta (pessoas com deficiência)?

Rafael : O jornalismo precisa apurar o que é viver com deficiência, fiscalizar as denúncias, estar aberto para conhecer sobre o mundo dessas pessoas, falar sobre os seus direitos, sair da redação, ir para as ruas, para os postos de saúde, ouvir as pessoas com deficiência e informar a sociedade.

A publicidade tem que mostrar que todos são iguais em suas diferenças. Mostrar que não existe distinção, apenas detalhes e particularidades de cada um. Preconceito não existe entre as crianças, por isso as escolas têm que estar preparadas para receber e juntar todo mundo. Receber um aluno cadeirante, outro com paralisia cerebral, outro com autismo. E assim, desde cedo, aprender sobre acessibilidade, inclusão e respeito.

Com informação e o mesmo protagonismo, será normal ver essas pessoas num parque, no clube, na tv, na rua e onde estão todos os outros. Pois mesmo hoje, a maior parte dos 25% da população que é considerada com alguma deficiência, não sai de casa, seu porto seguro.

CC: Já teve alguma experiência boa com sua página ? Já conseguiu ajudar quem precisa?

Rafael : Já sim, com certeza. Na página Jornalista Inclusivo recebo muitas perguntas sobre como conseguir terapias e medicamentos previstos na lei, como ter acesso às informações que necessitam, como ter um advogado gratuito entre outras dezenas de questões que, quando não sei a resposta, me disponho a pesquisar e conversar com advogados e outros especialistas.

Na página Coiotes do Bem já consegui doação de cadeira de rodas, já garantimos o dia das crianças em comunidades carentes, material esportivo para escolinha beneficente de futebol e muito mais.

CC : Você é colunista em dois portais, como é essa experiência ?

Rafael : Atualmente eu mantenho a coluna Tetraplégicos Unidos na revista digital Comunica Tudo (www.marcelodamico.com) e também compartilho os textos no site especializado em adaptações e lesão medular casadaptada.com.br

Escrevo sobre minha experiência como tetraplégico. Falo sobre tratamentos, sobre a LBI, e procuro falar sobre deficiências como um todo, assim como na página do Facebook. É muito bom ter um espaço para dividir com os outros o pouco que sei, e aprender cada vez mais, como pessoa e como jornalista também.

Apesar de trabalhar no esquema home office, eu não digito tão rápido, demoro mais para ler, pesquisar etc. Além disso, ainda sigo com minhas terapias e dependo, fisicamente, da ajuda de outras pessoas para qualquer atividade. Então, eu levo o triplo de tempo para fazer qualquer coisa como comer, me vestir, fazer sondagem e outros detalhes…, então meu tempo é diferente.

CC : Quais os projetos para o futuro?

Rafael : Quero muito melhorar meu físico. Minha luta é diária e eterna. Ainda quero me adequar e ter condições de malhar e pedalar minha handbike. Tenho brigado bastante com a prefeitura da minha cidade, para que mantenham e respeitem meus direitos, e isso tem me prejudicado muito, em todos os aspectos.

Em relação ao trabalho, não há duvidas de que as redes sociais estão cada vez mais presentes na vida das pessoas e até nas empresas e governos. Então ainda penso fazer faculdade de Marketing Digital, ou não, rsrs. Tenho tantas ideias que às vezes até tenho medo de não fazer nada. Rsrs

Tenho vontade de fazer muita coisa, de verdade, mas ainda não me decidi. Tenho lido muito, sobre tudo. Mas hoje passo por um momento delicado quanto as certezas e incertezas da vida. Por isso tenho cuidado mais de mim, corpo e mente, para mais pra frente ter certeza do que realmente quero.

Passei esses anos todos longe de mim, da minha essência, e me privando. Estou introspectivo e resgatando minhas verdades!


(Via Wilson Pinheiro, editor-chefe do portal Comunicação Colorida)

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