Sobre o Setembro Amarelo ou sobreviver a uma tentativa de suicídio

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Via Renata Oliveira


Sobre o Setembro Amarelo ou ser sobrevivente de uma tentativa de suicídio
Morrer e, de repente, se ver vivo.

Quando tomei a decisão, meu maior medo era falhar. Imaginava algumas pessoas especificas dizendo, “ah, quem quer se matar se mata, não fica querendo chamar a atenção”. Em um determinado momento, o único medo era falhar.

Revolta e sensação de incompetência, fracasso elevado à milésima potência são as sensações mais fortes no corpo. Talvez sejam sensações que passem a competir com a dor, e, nesse sentido, bem vindas.

Tudo é válido para se livrar da dor.

Por alguns anos após a tentativa, esperei pela morte. Estava viva, convivendo, comendo, cuidando da minha filha. Mantendo minimamente as relações sociais. Não tinha sequer consciência de estar esperando a morte. Aquilo era tudo que eu podia ver.

Eu sentia um pouco de inveja das pessoas que, após tentativas frustradas de suicídio, viam a vida como uma nova oportunidade. Eu não sentia que estar viva era uma nova oportunidade, mesmo tendo uma filha maravilhosa e, racionalmente, entendendo que perder a mãe de forma assim tão trágica seria muito pesado pra ela. Que, por ela, era melhor estar viva, mesmo que não soubesse exatamente porque.

Ninguém gosta de enxergar a dor do outro. Ou o fracasso do outro. Ninguém gosta de conviver com depressivos. O suicida frustrado é o espelho-ao-contrário da vida, de tudo o que se deseja. (digite “afaste-se de pessoas negativas” no Google, e entenderá do que estou falando)

A primeira ruptura com o estado de coisas que havia se instalado foi descobrir que o que cura a dor é o amor. Até então, me contentava apenas com pequenas intensidades cinzentas que pareciam fazer frente à dor.

Depois, perceber que Ser é conexão. Que somos um conjunto de conexões que se fazem, desfazem e refazem continuamente. E que, portanto, eu não ia mais quebrar, que o caso era buscar boas conexões e construí-las sem, com isso, esperar solidez ou permanência. Simplesmente fazer conexões. Outro momento de ruptura.

E então, um dia, entender que tive depressão por 5 anos. Que aquilo tudo era depressão.

E enxergar onde havia começado o “caminho errado”, e que caminho errado tinha sido me afastar de mim mesma, ceder a moralismos, buscar responder a acusações de pessoas ressentidas, duvidar de mim. E só então perceber que estava vivendo num mundo cinza e escuro. Que só estava esperando a morte. Que havia perdido a noção do que era luz e cor, e os tons de cinza pareciam normais. Pela primeira vez falar em “tentativa de suicídio”, e não “eu suicidei”. Isso foi 5 anos depois do episódio.

A partir disso, começou efetivamente a volta à vida. E muito aprendizado.

Uma constatação triste é que, em termos de família, é claro que se eu houvesse cumprido com sucesso minha determinação de me matar eu teria um lugar na memória e no amor deles. Como suicida frustrada, nunca mais tive espaço. Não caibo, não sou bem vinda. Sou a estranha. A culpada por me afastar, por não ter frequentado os espaços da forma esperada durante a depressão, pelas formas desmedidas de me comunicar durante o tempo em que estive mal. Indesejável. A fracassada.

Talvez a tristeza esteja na constatação de que, no meu caso, a família é parte do pacote adoecimento. E que tentar conciliação apenas por ser família é da mesma natureza dos moralismos que causaram adoecimento.

(Parêntese importante: Meu pai tem me ajudado muito. Tenho que reconhecer que ele, que achava depressão frescura, fez um esforço real para tentar me entender e ajudar da forma que eu precisava, e não do jeito que ele achava que deveria ser. Sou muito grata a ele por isso.)

Sou profundamente grata pelas pessoas que ficaram. Principalmente minha filha. Hoje já começo a criar novos laços, a assumir a responsabilidade de construir uma vida e um cotidiano com minha filha, de auxiliá-la na construção de seu projeto de vida.

Temos uma casa que voltou a funcionar, um gato (que também nunca nos abandonou), e agora a Caramela, uma cachorrinha que é um poço de charme.

É uma caminhada.

A cada dia vou alcançando mais entendimento sobre minha saúde, sobre o poder da alegria, sobre a importância de confiar no mundo, de fazer bem os lutos necessários, de comemorar. De como o amor é construção que requer energia e dedicação.

E buscar ser afirmativa, e tentar ser leve e alegre (“A alegria é uma graça irracional que permite aceitar o real em toda sua crueldade”).

Gosto mais de quem sou hoje. Vejo que havia uma parte de mim que precisava mesmo morrer. É um caminho. Sou mais forte, sinto menos medo, apesar de (ou talvez por) ter mais consciência das armadilhas que conduzem ao adoecimento.

Sou grata a quem ficou. Foi um longo caminho até me tornar novamente uma pessoa viva. Foi bom não ter desistido. Acredito na vida que vem.

Admito que, a princípio, a ideia do setembro amarelo me incomodava. Causava uma angústia difusa que praticamente me fazia ignorá-la. Mas, dessa vez, resolvi escrever algo a respeito.

Levando em conta minha trajetória, o que poderia dizer sobre o setembro amarelo?

Sei que não é fácil conviver com alguém deprimido. Mas tentem! Não se esqueçam da pessoa que essa pessoa foi um dia, não achem natural que alguém de repente não tenha mais energia, não culpem. Estejam por perto, ofereçam ajuda concreta (na faxina, na casa, para o banho, para cuidados pessoais, na rotina). A pessoa pode recusar, mas insista. Insista com alegria.

Deixe a pessoa melhorar! Não se acomode no papel de ajudador! Comemore com a pessoa suas conquistas e suas melhoras, comemore que ela possa se tornar forte e independente de novo.

E por último, mas também muito importante: não cobre que ela seja o que era antes! Alguma coisa nova precisa nascer após uma depressão. Não fixe a pessoa! Nem no que ela foi, nem numa identidade de deprimida. Esteja por perto. Só isso.

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