Pandemia de mentiras: ditadura, negacionismo e o 'lançador de perdigotos'

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Por Celso Sanchez, professor de biologia da Unirio e Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário



O “milagre econômico”, no final dos anos 60 e inicio dos 70, era a vitrine do regime militar que estava no poder há seis anos. Jubilosa com o tri campeonato mundial de futebol, vencido pela seleção de futebol de camisetas verdes e amarelas, a ditadura vibrava e o país aspirava ao desejo da ordem e do progresso, os dois suportes para a sedimentação e a confirmação do êxito do projeto de poder ditatorial. O PIB (Produto interno bruto) já tinha tomado a casa dos dois dígitos e continuava crescendo.

Tornamos a escrever que nação economicamente desenvolvida nunca foi sinônimo de bem-estar social e o que vimos como testemunhas do tempo que imprime rugas nos rostos de quem o vê passar é o aumento escandaloso do gargalo da desigualdade social que já era dos piores do mundo nos anos do “milagre” e que só se aprofundou e continua aprofundando como rachaduras ou rachadinhas cada vez mais profundas.

Sempre nos foi dito nas escolas e nos Jornais Nacionais diários da TV que se a economia fosse bem-sucedida todos sairiam bem. Todos? Leiam o último artigo que Fabio Idalino escreveu sobre o assunto:
Covid-19 e as crises financeiras e o Estado

Regimes de exceção e conflitos obscuros onde não sabemos por direito quem é quem, a primeira vítima de uma guerra e também de uma ditadura sempre é a verdade. O surto de meningite que assolou o país nos anos de 1971 a 1974  era tudo que os militares não queriam que fosse exposto para todos, a ponto de médicos serem proibidos de dar entrevistas e tudo com o consentimento do silêncio de órgãos de imprensa como O Globo e Folha de São Paulo, à época, afinados com o regime ditatorial. https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/17077/2/7.pdf

Em regiões menos assistidas pelo poder público, as proliferações de doenças eram e são inevitáveis. O surto da meningite começou na Zona Sul da capital paulista, no bairro de Santo Amaro, e logo se espalhou por quase toda a cidade, chegando a áreas de classe média também. A imprensa quando não convenientemente silenciosa, estava censurada e para piorar, estávamos sob a vigência do AI-5; mentir era garantia de vida, 'O Grande Irmão' e seus olheiros e alcaguetas estavam com as antenas sintonizadas para oprimir e eliminar qualquer ameaça àquele projeto de país verde e amarelo de ordem e progresso. Não havia cerimônia para torturar e matar quem se transpusesse diante do rolo compressor de morte da época.

Logo, sem informação e com desinformação elaborada e pensada, aliadas à negligência deliberada e estruturada de atendimento e assistência à saúde, e sobretudo ao negacionismo intencional e ideológico de uma doença grave, o surto de meningite tomou conta do pais, atingindo em primeiro lugar e com mais virulência a população mais vulnerável, que morava em bairros insalubres, sem saneamento básico, atendimento médico e todos os outros elementos que compõe esse tenebroso e conhecido cenário.

Estava ali no meio deste pesadelo armado, no meio do palco, o epicentro. Morriam milhares de pessoas desassistidas, pois não é apenas a doença que é subnotificada, as pessoas e suas identidades seguem subnotificadas até hoje, num crime de assassinos confessos que segue impune. Há fortes razões para crer que há vítimas da meningite entre corpos torturados e jogados na vala clandestina de Perus, conforme noticia o site Viomundo Meningite: Da epidemia censurada na ditadura a Arthur, tudo o que precisamos saber  e o vídeo documentário do Meteoro Brasil:
Mencionando esses e outros exemplos de exclusão, não é preciso adivinhar quem são os mais atingidos. 

O mundo sabia, o governo sabia e a mídia sabia. Quem denunciaria? Quem dentro do país falaria num surto de meningite na oitava economia do mundo e num governo autoritário, assassino e cruel que era do terceiro presidente militar, Emilio Médici. Um cidadão de bem e temente a Deus e a família.

Hoje, não há exatos números concretos sobre esta epidemia, suas vítimas estão impunes pelo regime de negligência do Estado. Milhares de órfãos, de pais sem seus filhos que choraram lágrimas impunes. O sistema de saúde nesse período não era universal como o SUS atualmente. Levantamentos relatam que foram mais de 12 mil mortes pela meningite, mas lembre-se: vivíamos num Brasil onde a mentira fez-se necessária para poupar outras vidas. Para se ter uma ideia algo em torno de 14% das pessoas acometidas pela doença vieram a óbito, na sua maior parte crianças, conforme Daniel Medeiros, citado na matéria do Meteoro Brasil, no vídeo acima.

Estamos em outros tempos. O jogo democrático nos permite falar a verdade no campo político e outros ambientes, ou pelo menos deveria permitir. Mesmo capenga, a democracia insiste em sobreviver, ainda que com uma insuficiência respiratória que só se agravou com a pandemia do COvid-19, mas eram sintomas que já lhe acometiam antes; as instituições como órgãos vitais de uma metáfora que nunca deu certo, seguem capengantes, mas funcionando. O inimigo é explicito nesse caso e bem conhecido, o autoritarismo e suas armadilhas como o negacionismo. Insistir na negação dos fatos que estão diante de nós é algo bem conhecido e não há dúvidas que o defunto posto como ministro da saúde está lá para enrolar, enrolar e não falar nada: essa é a escola na qual se criaram os filhotes de ditadura que estão no poder hoje sonhando com outra noite sombria de 21 anos. A gripezinha ou resfriadinho, senhor presidente, é a vala clandestina de seu governo genocida.

A COVID-19 não pegou o mundo de surpresa. Chefes de Estados e Governos foram alertados, a Organização Mundial de Saúde e redes globais de cientistas lançaram centenas de alertas. Uns subestimaram a doença e outros, em nome da ordem do capitalismo selvagem neoliberal, expuseram seus cidadãos ao vírus letal. O Brasil registrou em um mês mais de mil e trezentos mortos em curvas exponenciais com subnotificações comprovadas que sugerem que o número real seja até 12 vezes maior, conforme esta notícia publicada pelo Estadão: Projeção indica índice até 12 vezes maior de casos da covid-19 no Brasil.

Enquanto nosso infame, mentiroso, inescropuloso e necrófilo presidente, que já defendeu o fim do SUS, continua a aspergir seus perdigotos, o chefe do governo britânico e a chefe de Estado e Rainha da Inglaterra agradeceram ao sistema público de saúde do país por terem tratados os cidadãos deles. Deus salvou a rainha, que deuses e deusas nos salvem.

Obs: 'Lançador de Perdigotos' é uma alegoria criada por Elen Ferreira, a quem agradecemos muito a inspiração.

(Por Celso Sanchez, professor de biologia da Unirio e Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário.)


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