Covid-19 e crises financeiras: o Estado não é pai, é e sempre foi mãe

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Texto escrito por Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário.


Estamos à beira da terceira recessão mundial, a segunda em 12 anos. Cada grande crise, em que o mundo ficou envolvido, teve aspectos diferentes. Cada crise bem diferente uma das outras.

Não vou adentrar ao campo econômico, não é a minha especialização. Vou focar em pontos factuais históricos para melhor entendimento do leitor. Vou ser o mais didático para não cair na tentação do 'economês'.

A primeira crise ficou popularmente conhecida como a Grande Depressão, o mundo, em especial a Europa, vinha se recuperando das cinzas da primeira guerra mundial. Os Estados Unidos eram o grande financiador na reconstrução da nova Europa pós primeira guerra mundial. Os EUA saíram no lucro, as indústrias estavam a todo vapor e o cenário consolidou os norte-americanos como a maior potência econômica do mundo. Com o passar dos anos, a Europa passou a caminhar com os próprios pés e passou a não depender como antes dos norte-americanos. Outro fator que levou alguns países europeus a se recuperarem foi o fato de se modernizarem, ainda no século XIX: daí, então, a rápida recuperação.

A modernidade da Europa, no século XIX proporcionou a criação de mão de obra qualificada e cara, por exemplo: os trabalhadores que saíram do campo para os grandes centros urbanos tiveram de se adequar aos novos meios de trabalhos e assim tornaram seus rendimentos maiores e mais valorizados.

A economia norte-americana, até aquele momento pujante, dava sinais de superaquecimento e a demanda interna sozinha não dava conta. Veio a crise: da noite para o dia, todos os investidores ficaram pobres e sem dinheiro, o colapso foi geral. O único país que não foi atingindo foi a URSS.

A crise foi longa. O presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, prevendo a bancarrota, realizou séries de incentivos financeiros que qualquer governante provido de sabedoria faria para tirar a nação da crise. O New Deal foi a solução encontrada. O Estado passaria a financiar grandes obras para estruturar o pais e aquecer o mercado, além disso, milhares de obras públicas foram feitas. Por fim, após um tenebroso inverno no início da década de 1940, os primeiros sinais de recuperação mostraram que era o caminho menos torturante e abusivo para por a economia em ordem. Ao longo do século XX, outras crises surgiram, mas nada comparada ao baque da bolsa de nova Iorque.

Quase oito décadas depois, nos anos iniciais do século XXI o mundo foi acometido de outra crise bem mais severa. A causa começa com a chamada bolha imobiliária. Fazendo uma linha do tempo, em 2001, quando houve os atentados do 11 de setembro, pouco mudou na economia. Claro que de início foi aquele abalo financeiro, que depois o ex-presidente dos EUA, George Bush, para não estagnar a máquina da economia fez alterações. Os juros foram caindo a patamares baixos, enquanto a economia e o consumo voltaram a crescer. A bola de neve a cada ano crescia e o mercado imobiliário ia crescendo. O economista Paul Kruger disse em Davos que o mercado estava indo para o superaquecimento e outra crise estava para vir. Quando? Ele não sabia, ninguém saberia. Paul kruger é economistas e não futurista.

Por causa do autoconsumo, a compra de imóveis nos EUA (quem banca a compra de imóveis são os bancos privados), estoura em outra crise financeira. Esta, ao contrário daquela do século XX, quebrou os bancos, claro, mas somente as nações desenvolvidas anglo-saxônicas e japonesa mergulharam na crise. Dessa vez, o impacto teve efeito numa escala de médio alcance. As nações emergentes como a China, a Rússia e o Brasil passaram ilesas.

Para não criar um clima da grande depressão do século XX, novamente o dinheiro público entra em ação. Para tirar os bancos da lama, pasmem: US$ 1.OOO.OOO.OOO.OOO (Um trilhão de dólares) foram gastos dos cofres públicos das nações industrializadas para salvar os bancos.

A mais nova crise financeira e mundial, a COVID-19, acertou em cheio o mundo. Já estamos em outra recessão semelhante ou pouco pior às anteriores. O vírus começou na China e se espalhou mundo afora. Esta nova crise está indo muito além dos limites. Afetou o mercado com as bolsas de valores com quedas bruscas. O Real, a moeda brasileira, é a mais desvalorizada diante do dólar, já ultrapassou à casa do R$ 5,00 reais.

Os governantes do mundo estão agindo em várias frentes de crise. A Europa, depois da China, é a região onde a COVID-19 está sendo mais mortífera. Os óbitos entre a Itália e a Espanha juntas já somam milhares. As produções mundiais estão estagnadas. Países adotaram toque de recolher e mais uma vez o Estado entra para salvar não só o sistema financeiro. O Reino-Unido, os EUA, a França e a China lançaram também seus dinheiros públicos para atenuar a questão social. Para ter uma ideia, o governo da Espanha estatizou redes de hospitais para acolher as vítimas dessa pandemia. O presidente dos EUA distribuirá vales no valor de US$ 1.000 dólares para cada cidadão americano. Por que os EUA lançam mão nessa estratégia tão ousada? A matriz do neoliberalismo não vê os consumidores, em especial os mais pobres, como problema, mas como parte da solução para desafogar a economia e tirá-la do poço.

Os britânicos foram além: vão bancar 80% dos salários dos trabalhadores por três meses. É isto mesmo! As duas grandes mecas da liberdade de mercado bancando a proteção aos seus cidadãos. Se fosse num outro país que conhecemos, esta ação seria chamada de assistencialismo. No dito popular: o Estado está criando dependentes de ajuda.

No Brasil, a primeira ideia dada foi cortar 50% dos salários dos trabalhadores durante a quarentena e dar ajuda de 200 reais aos que trabalham na informalidade. Enquanto isso, os hiatos da desigualdade social se alargam.

Os neoliberais têm na sua máxima o ditado em afirmar que o Estado atrapalha o desenvolvimento econômico do país. O Estado é pesado, é um empecilho. Nos anos 90, quando os bancos brasileiros quebraram, quem impediu a falência das fortunas dos banqueiros foi o Estado.

Um fato é certo: para salvar as instituições financeiras, o Estado é uma benção divina e bem-vinda. Por outro lado, é tenaz com os pequenos. Chego a concluir que o deputado federal Zeca Dirceu estava certo, quando se referiu ao ministro da economia como um capacho do mercado.

(Via Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário.)

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Texto escrito por Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário.
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