Vamos conhecer a África: religiosidade

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Texto escrito por Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário


Quando éramos crianças, ouvíamos de parentes, vizinhos e outras pessoas que se tudo na sua vida está dando errado e seus problemas não têm fim é porque lançaram macumba em você. Isto era a realidade. Criava-se em nós a intolerância dentro do círculo social em que vivíamos.

Outra clássica da intolerância religiosa eram os doces de São Cosme e São Damião. Diziam que os doces eram primeiro oferecidos aos “demônios” e depois que eram entregues às crianças (cansei de comer esses doces quando era criança. Uma vizinha deixava os doces no campo de várzea. Ficávamos escondidos na moita e quando a vizinha ia embora, devorávamos os doces, sem perdão e sem crise ou culpabilidade na consciência). A intolerância religiosa começava a ser estruturada na tenra idade das cabeças das crianças.

O senso comum afirma que o continente Africano é amaldiçoado por não seguir a fé cristã e que a prática de “feitiçaria e outras magias” são os motivos do continente ser tão miserável e conturbado. Lamento! Você pouco sabe da história da África, sua diversidade linguística, a diversidade étnica e a diversidade religiosa.

Vou fazer três textos bem enxutos para falarmos e conhecermos mais sobre o continente do outro lado do atlântico, em que o brasileiro tem laços que vai do sentimental ao cultural, mas que pouco sabe sobre a África. Nós bradamos ao dizer: “tenho sangue negro em minhas veias”. Sim. Uma pergunta: o que cada um de nós sabe da África?

A pergunta é pertinente, pouco sabemos e nada entendemos da África. Como estudante do assunto, vou explicar didaticamente algumas dúvidas.

Primeira parte - Religiosidade africana

O Islã

Mulheres islâmicas

Para começarmos, as duas religiões que predominam no continente, originalmente nasceram fora da África. O Islã, que veio da região árabe do Oriente médio no século VII, adentrou na região setentrional da África (norte da África) pelo Egito e expandiu-se até a costa atlântica ou África Ocidental e espalhou-se pela parte oriental. A religião Islâmica é praticada por 40% da população, o que equivale a mais de 800.000.0000 (Oitocentos milhões de praticantes). Em todo o mundo onde há o Islã, seja em maioria ou minoria, as práticas de costumes são iguais. Por exemplo:

A). Para interpretar o livro sagrado do Islã, o Alcorão, é preciso ser alfabetizado.

B). É proibido o consumo de carne suína.

C). Proibido o consumo de bebida alcoólica.

O Cristianismo

Igreja Ortodoxa da Etiópia


A introdução do Cristiano na África teve sua entrada pela região do Oriente médio, a começar pelo Egito, com a Igreja Coopta. A Etiópia foi a primeira nação da África a adotar o cristianismo como a religião oficial e a segunda do mundo. É a maior nação cristã da região. Há Igrejas cristãs na África das mais variadas. Além da Católica Ortodoxa Cristã etíope, há também a Igreja Anglicana, a Igreja Católica Romana e a protestantes e as neopentecostais.

Igreja Anglicana, na região da África Austral

Igreja Católica, na Argélia

Religiões tradicionais e sua influência no Brasil

Candomblé

O leitor talvez pergunte como essas religiões de matrizes africanas vieram parar no Brasil. Primeiro, vamos tirando o velcro da ignorância que há anos vem nos impedindo a melhor compreensão e entendimento das religiões de matrizes africanas.

Ao serem sequestrados para o Brasil, esses escravizados eram de muitas tribos ou nações que tinham práticas religiosas parecidas e não iguais. A preocupação de perderem suas raízes religiosas os fizeram formar, aqui no Brasil, a religião como conhecemos hoje: o Candomblé.

O mapa abaixo indica em verde em que países estão localizados.


Na África há Orixás para cada grupo diferente dessas religiões tradicionais. A prática do Candomblé em terra brasileira não era a mesma prática nos países africanos desses escravizados.

Como acontece no cristianismo, onde há o livro Sagrado, que é a Bíblia, no Candomblé isto se dá através da palavra Oral ou a Oralidade. Esta tradição continua ativa dentre os praticantes também na Umbanda e em ambas, as participações de mulheres são fundamentais. Sem essas Mães de Santo do Candomblé talvez não tivesse resistência ao longo dos anos.

Candomblé: Religião trazidos pelos africanos para o Brasil

Práticas das Religiões tradicionais na África

O Candomblé está incorporado na cultura religiosa brasileira, mesmo que grupos radicais de “cristãos” oponham-se fortemente contra esses grupos afros. Em lugares da periferia e favelas do Brasil, grupos ligados ao tráfico, chamados de soldados de Cristo, têm horrorizado os praticantes dessa fé. Isto vai contra a constituição federal que garante o direito das pessoas terem fé ou não numa crença religiosa.


Umbanda

A Umbanda é a religião puramente nacional. A raiz da palavra significa curandeirismo ou a arte da cura. A religião agrega mais quatro religiões incorporadas na cultura brasileira: o Candomblé, o cristianismo (catolicismo), o espiritismo e as religiões tradicionais indígenas brasileiras. A ilustração acima explicita melhor este compartilhamento religioso.

Nos rituais da Umbanda, a parte musical é semelhante aos instrumentos do Candomblé. Na Umbanda, a cerimônia de louvação pode ser chamada de sessão, gira ou banda. A dirigente espiritual é chamada de mãe de santo ou pai de santo. Os religiosos se consideram irmãos por estarem na mesma casa, mas não há hierarquia entre eles. O filho de um filho de santo não é considerado neto de santo, por exemplo. Também não há iniciação para um determinado orixá. Há o desenvolvimento mediúnico para incorporação. Em relação à linha sucessória, geralmente a escolha também é espiritual.

O que é a Macumba?


O que este instrumento musical feito de madeira, que aparece na foto, tem a ver com a palavra macumba? Este instrumento é oriundo da árvore do mesmo nome em nações africanas. Em outras nações do mesmo continente, a Macumba pode ser também remédio caseiro e, em outros lugares, tem o significado de dança. Como podem notar, o universo etimológico dá margem a milhares de interpretações e sentidos.

A macumba ganha olhares depreciativos e pejorativos no Brasil. A Macumba encurta o caminho do preconceito racial brasileiro. Há favelas ou periferias em que o tráfico dá as ordens para que os rituais, chamados "Macumba", cessem. Líderes neopentecostais (não todos) demonizam esta prática. A vida de quem é 'praticante dessas religiões de matrizes africanas' parece não ter o direito de praticar a sua fé.

Na posição de lecionador, estudo a história da África e dos afro-brasileiros, de acordo com a lei 10.639/03, que obriga os estabelecimentos de ensino a proferirem esta aula. O conteúdo é obrigatório nas licenciaturas humanas (história, geografia, filosofia, sociologia, letras e Ed. Física) e também em exatas (matemática e engenharia).

Minha experiência mostra quão desafiador é lecionar esta grade. Há três anos tive uma experiência, num pré-vestibular comunitário, onde a metade dos alunos saíram da sala por causa da aula sobre a África. No mesmo ano, na prova de uma universidade conceituada no Rio de Janeiro, os conteúdos de África caíram em três disciplinas e esses alunos ficaram desesperados.

Há conteúdos nos livros escolares que ampliaram a temática africana. No passado somente a nação do Egito era abordada e não se falava que este país era africano. Sobre o negro brasileiro, a nossa história era ignorada pós '13 de maio'; o negro desaparecia nos livros escolares. O pouquíssimo que mencionava sobre o negro brasileiro era que éramos bons em feijoada, samba, futebol e só.

Tenho um trabalho pedagógico com alunos e outros sobre a presença africana e política social do negro. O trabalho é realizado no centro da Cidade do Rio de Janeiro. Dúvidas e preconceitos são retiradas nessa aula.

Este texto foi escrito com a finalidade de quebrar Preconceitos referente à África e a religiosidade que vem com ela. No próximo texto vamos falar da linguística africana.

Livros de referência:

A África dentro da sala de aula, HERNADEZ, Leila.

(Texto escrito por Fabio Nogueira, estudante de história e professor voluntário de pré vestibular comunitário)


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